Construindo a Geografia
          8 srie  Ensino Fundamental

          Cenrios do Mundo Contemporneo

          Regina Araujo
          Raul Borges Guimares
          Wagner Costa Ribeiro

edio 2000,
 Editora Dimenso.

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           2004 

          (c) 1999 
          Regina Araujo
          Raul Borges Guimares
          Wagner Costa Ribeiro

          Coordenao Editorial: 
          Virginia Aoki
          Edio de Texto: Snia Cunha de S. Danelli, Carlos Zancheta, Lygia Maria Terra Soares

          ISBN 8516022897 

          Todos os direitos de edio 
          reservados  EDITORA MODERNA LTDA

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Dados Internacionais 
          de Catalogao na Publicao (CIP)
          (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

  Araujo, Regina
     Construindo a Geografia / Regina Araujo, Raul Borges Guimares, Wagner Costa Ribeiro.  So Paulo : Moderna, 1999.

     Contedo: v. 1. Uma janela para o mundo  v. 2. O Brasil e os brasileiros  v. 3. Recortando o mapa do mundo  v. 4. Cenrios do mundo contemporneo.
     Bibliografia.

     1. Geografia (Ensino fundamental) I. Guimares, Raul Borges, 1963. II. Ribeiro, Wagner Costa, 1962. III. Ttulo.

 991142          CDD372.#hia

          ndice para catlogo sistemtico:
  1. Geografia : Estudo fundamental 372.#hia

          ISBN 8516022897

  Tire o melhor proveito deste livro e procure conservlo. Ele  uma fonte permanente de consulta.

Apresentao

  Quando um pas desenvolve e testa uma bomba atmica, ele no est pondo em perigo apenas a sua populao ou a do seu inimigo em uma possvel guerra. O poder de 
destruio desse tipo de armamento  to grande que a questo interessa ao conjunto da humanidade.
  Os grandes problemas ambientais do nosso tempo tambm interessam ao conjunto da humanidade, e no apenas aos pases campees da devastao. Se um governo no toma 
providncia quanto  poluio gerada no ar de suas cidades e campos, em seus rios ou em suas guas territoriais, os impactos ambientais resultantes podem ter repercusses 
globais. O modo de vida de uma pequena parcela da humanidade, baseado no uso intensivo dos recursos naturais e no consumo desenfreado, est pondo em risco a riqueza 
ambiental do planeta. E isso afeta a todos.
  Neste livro vamos estudar esses 
e outros problemas e desafios do mundo contemporneo e conhecer os fruns internacionais nos quais os governos se renem para discutir e buscar alternativas para 
garantir a paz e melhorar a qualidade de vida no planeta.
  Essa no  uma tarefa exclusiva dos governos: muitos grupos da sociedade esto organizados para lutar contra a devastao do patrimnio ambiental e para combater 
a discriminao e todas as formas de violncia contra as pessoas. Como voc pode ver nos jornais e na televiso, ainda h muito o que fazer para tornar o nosso mundo 
um lugar melhor para se viver.
  Estudar a geografia do mundo contemporneo  uma maneira de voc se informar melhor e de formar opinies prprias sobre esses problemas. Por isso, mos  obra!

Os autores

Sumrio Geral

UNIDADE I - Geografia do 
  poder 

Captulo 1. A geografia da 
  Guerra Fria  4
 O nascimento das superpotncias  11
 As alianas militares da 
  Guerra Fria  25
 Cenrios regionais  29
 Rumo a uma nova ordem 
  mundial  36

Captulo 2. A Organizao 
  das Naes Unidas  45
 O surgimento da idia  48
 A estrutura da ONU  53
 As conferncias temticas  64
 A ONU, aps os 50 
  anos  81

Captulo 3. Desenhando o 
  mapa do sistema poltico 
  internacional  91
 A descolonizao e o conflito NorteSul  95
 A corrida armamentista  113
 A era das incertezas  122

UNIDADE II - Geopoltica 
  dos recursos naturais 

 Captulo 4. A questo 
  ambiental e a cidadania  134
 Os problemas ambientais  137
 O movimento ambientalista  163

Captulo 5. Os tratados 
  internacionais sobre o 
  ambiente  178
 Os primeiros tratados  179
 A participao da ONU  193
 A Conferncia do Rio 
  (Rio92 ou 
  Eco92)  201

Captulo 6. A conquista 
  dos mares  214
 O oceano vivo est em 
  perigo  226
 A atividade pesqueira  242

UNIDADE III - Os circuitos mundiais 

Captulo 7. A geografia do 
  consumo  266
 O mundo mgico das mercadorias  267
 Um mundo de consumidores  285
 A sociedade do desperdcio  288
 Shopping center, templo 
  do consumo  292

Captulo 8. A geografia do 
  turismo  298
 Turismo: um fenmeno 
  urbano  302
O espao turstico 
  mundial  307
 Impacto socioambiental  323

Captulo 9. A geografia das 
  cidades mundiais e 
  das megacidades  335
 As cidades mundiais  337
 As megacidades  353

Captulo 10. A geografia 
  do crime  374
 A globalizao do crime  379
 O narcotrfico  388
 A lavagem do dinheiro  396
 As mfias russas  401
 O Brasil na rota das
  mfias  404

UNIDADE IV - Diversidade 
  cultural e conflitos regionais

Captulo 11. O mundo 
  islmico  414
 A diviso do Isl  422
A difuso do islamismo  425
 O Isl, hoje  443
 A economia dos pases 
  islmicos  451

Captulo 12. Israel e a 
  questo palestina  463
 A dispora judaica  468
 A formao do Estado de 
  Israel  474
 Os palestinos tambm 
  querem uma ptria  486

Captulo 13. A ndia e o 
  Paquisto  505
 A longa histria da civilizao indiana  512
 A luta pela independncia  525
 A ndia partida  531
 A ndia no cenrio 
  mundial  536

Captulo 14. A imploso da 
  Iugoslvia  545
 A origem da Iugoslvia  547
 Os anos de Tito: a segunda 
  Iugoslvia  560
 A desagregao da 
  Iugoslvia  565
 Economia e poltica dos 
  novos pases  572
 Um novo foco de conflitos  576
6
Nota de transcrio

 Os pequenos textos com informaes adicionais, destacadas nas margens do livro em tinta, foram transcritos, nesta edio em braille, no final de cada captulo.

               

UNIDADE I

          Geografia do Poder

  Observe as fotos abaixo. Elas retratam dois momentos simblicos na conturbada histria do sculo XX. O que voc sabe sobre eles? Por que so considerados to 
importantes?

 duas fotos, a primeira mostra a construo do Muro de 
Berlim, em 1 de janeiro de 1961. A segunda mostra uma multido
na derrubada do Muro, em 9 de novembro de 1989

7
  Observe, na foto abaixo, o mapasmbolo da Organizao das Naes Unidas (ONU). O que voc acha que ele representa? Qual  o papel dessa organizao? Voc conhece 
alguma das atividades da ONU no Brasil?

a foto mostra a bandeira da ONU

  Para que foram criadas as Foras de Paz da ONU? Qual  o seu "inimigo"?

foto mostrando um caminho e um avio no aeroporto. A seguir, legenda
  Desembarque de suprimentos enviados pelas Foras de Paz da ONU, em 1988, para a Etipia.

  Nesta unidade, vamos estudar um pouco da geografia do poder. Voc j deve saber que o mundo passou por grandes transformaes durante o sculo XX. As duas guerras 
mundiais, a emergncia e o declnio de uma ordem planetria comandada pelos Estados Unidos e pela Unio Sovitica, e a descolonizao da sia e da frica tornaram 
o mundo mais complexo, retraando o mapa do poder. Em "A geografia da Guerra Fria", vamos entender um pouco mais sobre o perodo da bipolaridade do poder mundial. 
O captulo 2, "A Organizao das Naes Unidas", apresenta o histrico e discute a importncia dessa organizao no mundo contemporneo. Finalmente, em "Desenhando 
o mapa do sistema poltico internacional", vamos abordar algumas tendncias das relaes internacionais.

               oooooooooooo
8

Captulo 1

          A Geografia da Guerra Fria
 
  Um dos episdios mais estranhos da dramtica histria das guerras do sculo XX teve incio no dia 24 de julho de 1948. Nenhum tiro foi disparado, nenhuma bomba 
explodiu. Mesmo assim, o mundo inteiro se sentiu ameaado. Afinal, durante onze meses, as duas superpotncias do planeta - Estados Unidos e Unio Sovitica - travaram 
uma batalha de nervos e de estratgia em que cada passo tinha de ser cuidadosamente estudado. Era preciso mostrar fora e superioridade, mas, ao mesmo tempo, evitar 
o confronto direto, pois qualquer ataque de um lado seria imediatamente revidado pelo outro. E o perigo da guerra nuclear rondava, assim, o mundo.
  Desde o final da Segunda Guerra Mundial (1945) a Alemanha, derrotada, estava ocupada por tropas inglesas, norteamericanas e soviticas. Berlim, a capital do pas, 
havia sido dividida em quatro setores de ocupao, controlados por Frana, Estados Unidos, Reino Unido (1) veja a pgina 42 e Unio Sovitica. Esses pases formavam 
um Conselho Interaliado e deveriam decidir, em conjunto, o futuro da Alemanha, inclusive das cidades e indstrias destrudas pelos bombardeios (fig. 1). Entretanto, 
por razes que estudaremos a seguir, essa aliana era muito frgil, pois as maiores potncias envolvidas - Estados Unidos e Unio Sovitica - tinham planos muito 
diferentes em relao ao caso.

Figura 1.

 foto mostrando uma cidade destruda. A seguir, legenda
  Os bombardeios aliados no deixaram pedra sobre pedra em Dresden, importante cidade alem situada nas margens do Rio Elba.

  Junto com a Frana e o Reino Unido, os Estados Unidos pretendiam colaborar para a reconstruo da economia alem nos moldes capitalistas. Estavam dispostos a emprestar 
dinheiro para os donos das grandes indstrias e a ajudlos a retomar a produo o mais rpido possvel. A Unio Sovitica, por sua vez, queria implantar o regime 
socialista na Alemanha e transformar as fbricas, assim como as terras, as lojas e todo o resto, em propriedade do governo. A poltica de emprestar dinheiro para 
os industriais tornava os capitalistas mais fortes e atrapalhava os planos soviticos. 
  Em junho de 1948, os Estados Unidos e seus aliados deram a largada para a reconstruo do capitalismo 
9
na Alemanha: sem consultar a Unio Sovitica, implantaram uma nova moeda nas zonas alems sob sua ocupao, pois uma economia forte precisa de uma moeda igualmente 
forte, que seja respeitada nos mercados financeiros do mundo. Foi assim que nasceu o deustch Mark, o marco alemo.
  A Unio Sovitica,  claro, no gostou nada, e armou um estratgico contraataque. Berlim, como vimos, havia sido dividida entre as potncias vencedoras. Entretanto, 
todas as estradas e ferrovias que abasteciam a cidade estavam sob controle das tropas soviticas. Para mostrar sua fora e dificultar os planos norteamericanos, 
em 24 de julho do mesmo ano, o governo da Unio Sovitica decretou o Bloqueio de Berlim: s poderiam circular por essas vias caminhes e trens autorizados pelo comando 
sovitico. Assim, os Estados Unidos e seus aliados no teriam como abastecer os setores de Berlim sob sua responsabilidade. O bloqueio s terminaria caso eles desistissem 
da nova moeda e da poltica de emprstimos. 
  Toda cidade utiliza diariamente muitos produtos que vm de fora. Alguns so essenciais: seus habitantes precisam comer e na cidade praticamente no se produzem 
alimentos. Grande parte das toneladas de artigos industrializados consumidos diariamente em uma grande cidade, como remdios e produtos de higiene, tambm so adquiridas 
de outros centros urbanos. Abastecer uma grande cidade sem dispor de meios de transporte terrestre  quase impossvel. 
  Enquanto durou o Bloqueio de Berlim, aconteceu o que parecia impossvel. Durante onze meses, as zonas de ocupao francesa, britnica e norteamericana foram abastecidas 
exclusivamente por avies, que subiam e desciam sem parar, durante todas as horas do dia, transformando os aeroportos locais, indicados no mapa da figura 2, nos 
mais movimentados do mundo. Claro que isso custou uma fortuna para os Estados Unidos, que pagaram a maior parte da conta. Mas eles conseguiram provar que era possvel 
controlar uma parte de Berlim mesmo com todas as vias de acesso terrestre para a cidade fechadas. 
10
Em maio de 1949, a Unio Sovitica recuou e suspendeu o bloqueio. Ela havia perdido uma batalha, mas a Guerra Fria estava apenas comeando, devendo durar por volta 
de quatro dcadas.

Figura 2.

          Berlim: zonas de ocupao

mapa mostrando as zonas de ocupao: sovitica, francesa, britnica e norteamericana; aeroportos, ferrovias e metr. A
seguir, legenda
  Durante o Bloqueio de Berlim, Estados Unidos e seus aliados realizaram uma mdia de mil aterrisagens dirias nos aeroportos Tegel, Gatow e Tempelhof. Os avies 
chegavam  cidade cercada abarrotados de carvo, gua potvel, alimentos e muitos outros produtos.

  Durante o perodo do bloqueio, os Estados Unidos no tentaram abrir as estradas  fora. A Unio Sovitica no abateu nenhum avio. No houve enfrentamento direto 
entre os dois pases, ou seja, no houve guerra, mas eles tambm no estavam em paz. 
  O Bloqueio de Berlim foi um dos episdios mais significativos desse perodo da histria recente conhecido como Guerra Fria, no qual duas superpotncias adversrias 
buscaram ampliar seu poder atraindo o maior nmero possvel de aliados, sem jamais se enfrentarem diretamente.
  A Guerra Fria deixou marcas na geografia do poder mundial que perduram at hoje. Muitas das guerras sangrentas que assolam os pases da frica e da sia (em especial 
do Oriente Mdio) so travadas com armamentos comprados das superpotncias durante sua vigncia. O poderoso arsenal blico que faz dos Estados Unidos uma espcie 
de "xerife do mundo", que comanda operaes militares em diversos cantos do planeta, foi construdo nesse perodo. A Organizao do Tratado do Atlntico Norte (Otan), 
a mais poderosa aliana militar do mundo, tambm foi criada no contexto da Guerra Fria.  por tudo isso que iremos estudar a geografia desse perodo.

O nascimento das superpotncias

  Os Estados Unidos e a Unio Sovitica foram aliados durante a Segunda Guerra Mundial (19391945). Tratavase, porm, de uma aliana entre dois pases de modelos 
econmicos e polticos muito diferentes. 
  Na Unio Sovitica, que no existe mais, o Estado era dono dos meios de produo (como as terras e as fbricas) e controlava toda a economia. Ela pretendia que 
outros pases tambm abolissem a propriedade privada e implantassem um sistema de governo parecido com o seu. J nos Estados Unidos vigoram at hoje a livre iniciativa 
e a propriedade privada, sendo vital para eles a existncia de mercados no resto do mundo para os seus produtos e investimentos. 
  No entanto, no contexto da Segunda Guerra Mundial, os dois pases tinham um poderoso inimigo em comum: a Alemanha sob domnio do nazismo (2), que acabou reunindo 
contra si os capitalistas, entre eles os norteamericanos, e os comunistas soviticos.
  Os planos expansionistas alemes, sob o comando do chanceler nazista Adolf Hitler, representavam um perigo extremo tanto para os Estados Unidos quanto para a Unio 
Sovitica. Esses planos previam o domnio de toda a Europa, incluindo pases que eram aliados polticos e tradicionais parceiros comerciais dos Estados Unidos. As 
potncias do prprio continente europeu - o Reino Unido e a Frana - no dispunham de material humano e blico para enfrentarem sozinhas a Alemanha e o seu principal 
aliado na Europa, a Itlia. Paris, a bela capital francesa, chegou a ser controlada pelos alemes (fig. 3).

Figura 3.

foto mostrando vrios militares caminhando. Ao fundo a Torre Eiffel.
A seguir, legenda
  Hitler jamais havia pisado em Paris antes da ocupao, mas j tinha planos para transformar todos os seus teatros e peras em grandes palcos do nazismo.

  Alm disso, os alemes eram tambm aliados dos japoneses, que planejavam aumentar seus domnios na sia. Os Estados Unidos enviaram tropas 
11
e soldados para a Europa, para combater os alemes e os italianos, e para o Oceano Pacfico (fig. 4), para lutar contra os japoneses.

Figura 4.

foto mostrando um submarino da Segunda Guerra Mundial na base norteamericana de Pearl Harbor, na ilha de Oahu, Hava. Em 7 de dezembro de 1941, os japoneses fizeram 
um ataquesurpresa a essa base, destruindo 188 avies e afundando 8 navios de guerra. Foi a senha para os Estados Unidos entrarem na Guerra 

  Para a Unio Sovitica, a Alemanha representava um problema ainda maior. No incio da Segunda Guerra, enquanto avanavam sobre a vizinha Polnia, os alemes chegaram 
a firmar um pacto de noagresso com os soviticos. Porm logo demonstraram que seus planos expansionistas incluam territrios da prpria Unio Sovitica, que tambm 
foi invadida. O Exrcito Vermelho, como era chamado o exrcito sovitico, no s expulsou os invasores como enfrentou e venceu o exrcito alemo no leste da Europa 
e na prpria Alemanha.
  Em 1945, quando a guerra acabou e o inimigo comum foi derrotado, norteamericanos e soviticos tinham planos diferentes para o mundo, em especial para a Europa.
  Os Estados Unidos desejavam reconstruir os pases da Europa capitalista, suas estradas, ferrovias, empresas e mercados. Sua capacidade de produo industrial havia 
crescido muito, e, alm disso, eles tinham demonstrado seu poderio blico e econmico no esforo de guerra, o que os colocava na condio de nico candidato ao comando 
dos pases capitalistas europeus arrasados no conflito.
  Os soviticos, por sua vez, desejavam expandir o seu domnio e implantar o regime socialista em todo o leste da Europa, j que o Exrcito Vermelho havia expulsado 
os alemes dessa regio.
12
  Estavam assim lanados os alicerces da Guerra Fria. Cada um dos dois antigos aliados desejava ampliar seu poder e considerava o outro seu maior problema. A indstria 
da espionagem encontravase em pleno funcionamento (leia mais sobre esse assunto no quadro 1). Entretanto, a possibilidade de um confronto direto j estava praticamente 
descartada.

Quadro 1

          A hora e a vez da espionagem

  Espiar secretamente o inimigo, para saber que tipo de armas ele estava construindo e quais eram seus planos futuros, tornouse um dos principais negcios de Estado 
durante a Guerra Fria. Centenas de filmes de espionagem foram produzidos nesse perodo. Apesar de a indstria de espionagem e contraespionagem ter florescido principalmente 
nos Estados Unidos e na Unio Sovitica, a srie de filmes mais famosa narra as aventuras de um agente do servio secreto britnico, James Bond, o agente 007, que 
viveu nas telas as mais incrveis aventuras na luta contra os planos dos comunistas.

Figura 5. 

foto mostrando um homem segurando uma arma perto do seu rosto. A seguir, legenda
  Sean Connery como o 007 em O satnico Dr. No. Esse filme, o primeiro da srie, estreou em 1962.

 fim do quadro 

  Em meados da dcada de 1940, os Estados Unidos dominavam a tecnologia nuclear (fig. 6) e ningum duvidava de sua capacidade de destruio. Os governantes norteamericanos 
anunciavam a sua disposio de proteger o "mundo livre", capitalista, do avano dos comunistas. Esse "mundo livre", porm,  muito relativo, pois a verdadeira liberdade 
no pode sobreviver nas condies de desigualdades sociais e de misria existentes em muitos pases capitalistas: afinal, quem no se alimenta direito e no freqentou 
a escola quando criana no  livre para decidir seu prprio destino. Alm disso, nesse contexto, os adeptos e simpatizantes do regime sovitico dentro dos Estados 
Unidos eram perseguidos e denunciados como traidores, o que prova que tambm no campo da poltica o "mundo livre" no  to livre assim. 

Figura 6.

poster mostrando uma paisagem escurecida, muito fogo,
um cu encoberto pela fumaa e as inscries "Hiroshima August 6 Aot 1945 e
Nagasaki August 9 Aot 1945. A seguir, legenda
  O crepsculo da era atmica, pster do Museu Canadense de Guerra. Ele lembra ao mundo o horror das bombas atmicas lanadas pelos norteamericanos nas cidades japonesas 
de Hiroshima e Nagasaki, ao fim da Segunda Guerra Mundial.

13
  A Unio Sovitica contava com um exrcito poderoso e logo desenvolveria a sua prpria bomba nuclear. Ela fazia propaganda de seu regime, no qual no havia nem 
ricos nem pobres, todos tinham o suficiente para viver e o Estado tomava conta do bem comum. Infelizmente tambm se tratava de propaganda enganosa: as pessoas que 
discordavam do governo e de suas polticas eram mortas ou confinadas em verdadeiros campos de concentrao, e isso no combina com a idia de "bem comum". 
  Os argumentos de ambos os lados foram cuidadosamente apresentados e negociados nas conferncias de cpula realizadas ainda durante a Segunda Guerra Mundial.
  A primeira aconteceu em fevereiro de 1945, em Yalta (Unio Sovitica), quando a Alemanha e o Japo j estavam enfraquecidos e sua derrota era dada como certa. 
Nessa reunio, representantes dos Estados Unidos, do Reino Unido e da Unio Sovitica decidiram que os soviticos recuperariam a quase totalidade dos territrios 
que haviam perdido durante a Primeira Guerra Mundial. Veja o mapa (fig. 7). Alm disso, ficou definido que caberia  Unio Sovitica o controle da reconstruo econmica 
e poltica dos pases dos quais os alemes haviam sido expulsos pelo Exrcito Vermelho. Com isso, reconheciase a influncia futura da Unio Sovitica sobre a Polnia, 
a Hungria, a Tchecoslovquia, a Romnia, a Iugoslvia, a Albnia e a Bulgria. Todos eles passaram a ser governados por partidos comunistas. A Albnia e a Iugoslvia, 
embora tivessem adotado o regime comunista, romperam relaes com a Unio Sovitica pouco tempo depois.

Figura 7. 

          As fronteiras Soviticas

mapa mostrando a Unio Sovitica at a Segunda Guerra Mundial e os territrios anexados  ela na Conferncia de Yalta. A seguir, legenda
  Na Conferncia de Yalta, a Unio Sovitica ampliou o seu territrio e garantiu sua influncia no leste da Europa. 

14
  A conferncia seguinte ocorreu em Potsdam (Alemanha), em julho do mesmo ano, quando os alemes j haviam se rendido e o Exrcito Vermelho dominava todo o leste 
do pas, incluindo a capital, Berlim. O futuro da nao derrotada estava ento em jogo: quem fosse encarregado de reorganizar o pas certamente estenderia sua influncia 
sobre ele. Nesse caso, no foi nada fcil chegar a um acordo, pois ningum queria abrir mo da Alemanha. 
  Para sair do impasse, a soluo encontrada foi dividir o pas entre os principais vitoriosos. Ficou acertado que os Estados Unidos e o Reino Unido tomariam conta 
do lado oeste, enquanto a Unio Sovitica permaneceria no lado leste. Pouco depois da Conferncia de Potsdam, novas negociaes garantiram  Frana o controle de 
uma das zonas de ocupao. Conforme j sabemos, Berlim, apesar de localizada na rea sovitica, tambm foi dividida em zonas de ocupao (reveja a figura 2).
  Em 1949, com o fim do Bloqueio de Berlim, as zonas de ocupao norteamericana, britnica e francesa, reunidas, passaram a constituir um novo pas, a Repblica 
Federal da Alemanha (RFA) ou Alemanha Ocidental, com a capital em Bonn. No lado sovitico, foi criada a Repblica Democrtica Alem (RDA) ou Alemanha Oriental, que 
tinha como capital Berlim Leste. Veja o mapa (fig. 8).

Figura 8.

          As duas Alemanhas

mapa mostrando a diviso da Alemanha. A seguir, descrio
   Repblica Federal da Alemanha: Hamburgo, Hanover, Frankfurt, Atuttgart,
Munique e a capital Bonn.
   Repblica Democrtica Alem: Potsdam, Dresdem e a capital Berlim Leste.
  Legenda: no psSegunda Guerra, as divergncias entre os Estados Unidos e a Unio Sovitica levaram  diviso da Alemanha. Ainda que a idia de dividir um pas 
parea estranha, os estrategistas da poca acreditavam que essa era a nica forma de evitar um novo conflito, de propores avassaladoras.

  A diviso da Alemanha tornouse um marco fundamental da Guerra Fria, a ponto de muitos estudiosos considerarem que ela comeou em 1949, com o surgimento da RFA 
e da RDA, atingiu seu ponto culminante em 1961, quando o governo da RDA mandou erguer um muro, separando Berlim Leste de Berlim Oeste (fig. 9), e terminou com a 
derrubada do Muro de Berlim em 1989.

Figura 9.

foto mostrando o Muro de Berlim que separava uma cidade, mas foi smbolo da
diviso do mundo nos tempos da Guerra Fria

15

As alianas militares da Guerra Fria

  Aps a Segunda Guerra Mundial, a posse de arsenais nucleares capazes de eliminar a vida humana da Terra conferia aos Estados Unidos e  Unio Sovitica a condio 
de superpotncias. A Guerra Fria foi um perodo de delicado equilbrio de poder, no qual no podia haver paz e a guerra seria sinnimo de extermnio mtuo. Para 
manter essa bipolaridade (3), as superpotncias trataram de acumular cada vez mais armas, de forma a impedir que o poder de destruio de uma ultrapassasse o da 
outra. Essa situao foi batizada de "equilbrio do terror".
  Na Europa, a bipolaridade se concretizou na diviso entre os pases alinhados com os Estados Unidos e aqueles subordinados poltica, econmica e militarmente  
Unio Sovitica. A linha de fronteira que delimitava os dois blocos ficou conhecida como Cortina de Ferro (fig. 10), um dos principais smbolos da Guerra Fria. Dos 
dois lados da Cortina de Ferro firmaramse alianas militares sob o comando das superpotncias. Por causa delas, passamos a estudar a Europa dividindoa em duas partes: 
Europa Ocidental e Europa Oriental. 

Figura 10. 

          Cortina de Ferro

mapa mostrando a linha de fronteira que delimitava os dois plos do poder mundial.
A seguir, legenda
  Na geografia da Guerra Fria, Europa Ocidental e Europa Oriental se transformaram em blocos geopolticos opostos.

16
  A Organizao do Tratado do Atlntico Norte (Otan), criada em 1949, foi a primeira grande aliana militar do psguerra. Na poca de sua fundao, dela participavam 
Estados Unidos e Canad, alm de Reino Unido, Frana, Blgica, Luxemburgo, Holanda, Noruega, Islndia, Dinamarca e Portugal. A Grcia e a Turquia ingressaram na 
Otan em 1952, a Alemanha Ocidental em 1955 e a Espanha em 1982. Restaram apenas a Sucia e a Sua, que tradicionalmente assumem uma posio de neutralidade, e a 
ustria e a Finlndia, que no podiam se alinhar militarmente a nenhum Estado devido a acordos internacionais firmados durante a Segunda Guerra.
  O Pacto de Varsvia, criado em 1955, consistia na aliana militar que reunia a zona de influncia sovitica. Dele participavam, alm da Unio Sovitica, a RDA, 
a Hungria, a Polnia, a Romnia, a Bulgria, a Tchecoslovquia e a Albnia. Em 1948, entre os pases socialistas europeus, apenas a Iugoslvia, que havia rompido 
relaes com a Unio Sovitica, estava fora do pacto. Em 1961, tambm a Albnia se retirou do bloco.

               

Atividade 1 

          Fronteiras em movimento

  Conforme estudamos, a Guerra Fria  um perodo recente da histria, e at hoje somos afetados pelas conseqncias de fatos nela ocorridos. Contudo, voc j deve 
ter observado que o mapa do mundo mudou bastante desde 1989. Muitos pases foram desmembrados e outros tantos foram criados. Com base no que voc leu at agora neste 
captulo e utilizando um atlas atualizado, faa uma lista em seu caderno dos pases citados no texto que deixaram de existir. Procure explicar o que aconteceu em 
cada um deles.

Cenrios regionais

  A Guerra Fria foi especialmente travada na Europa, pois as superpotncias praticamente dividiram o continente em duas esferas de influncia. No foi  toa que 
o Muro de Berlim se transformou em seu maior smbolo. Entretanto, ela foi um fenmeno mundial, que envolveu as mais diversas regies do globo das mais diferentes 
formas, interferindo at nos esportes, como mostra o quadro 2.
  A Amrica Latina se tornou um cenrio importante da Guerra Fria aps a Revoluo Cubana de 1959 e o ingresso da ilha na rbita de influncia da Unio Sovitica. 
Em 1962, quando os soviticos se preparavam para instalar uma base de msseis em Cuba (4), a Guerra Fria quase virou guerra quente: o governo dos Estados Unidos 
anunciou que estava disposto a utilizar suas armas atmicas caso fosse implantada uma base militar inimiga to perto de seu prprio territrio. A Unio Sovitica 
recuou, mas a ameaa de guerra total continuou no ar durante muito tempo. Esse episdio ficou conhecido como a Crise dos Msseis.

Quadro 2

          Esportes como ideologia

  Se no plano estritamente cultural a Guerra Fria produziu, em abundncia, cones do Bem e do Mal, tambm nos esportes manifestouse o conflito entre as superpotncias. 
Os Jogos Olmpicos e os campeonatos mundiais de xadrez, em particular, ocuparam um lugar todo especial como smbolos da suposta superioridade de um sistema sobre 
o outro. A "prova dos nove" era dada pelo acmulo de medalhas olmpicas. Esse tipo de confrontao atingiu o ponto mximo nas Olimpadas de Moscou, em 1980, e na 
de Los Angeles, em 1984. Ambas as competies foram prejudicadas pelo boicote das superpotncias: em 1980, os americanos e alguns aliados ausentaramse dos jogos, 
em protesto contra a invaso do Afeganisto pela Unio Sovitica. Em represlia, quatro anos depois foi a vez de os blocos socialistas no comparecerem  competio 
de Los Angeles. (J. Arbex Jr., Guerra Fria, p. 26.)

Figura 11. 

foto mostrando o simptico Misha, smbolo das Olimpadas de Moscou, em 1980. Muitos pases do bloco "ocidental", como a Repblica Federal da Alemanha, o Canad e 
o Japo, aderiram ao boicote organizado pelos Estados Unidos e no compareceram aos jogos
 fim do quadro

  Aps a Revoluo Cubana, os norteamericanos, temendo que o regime socialista se espalhasse pela Amrica, iniciaram uma dura poltica de represso aos movimentos 
guerrilheiros da Amrica Central e patrocinaram golpes militares e ditaduras em todo o continente. Em nome dos valores do "mundo livre", muita gente foi silenciada 
 fora e muitos governos militares foram implantados. O golpe militar de 1964, no Brasil, que deu origem a um longo perodo de ditadura, teve o apoio estratgico 
dos Estados Unidos. Em 1973, no Chile, o governo democrtico de Salvador Allende (fig. 12) terminou 
18
com um golpe militar patrocinado pelos Estados Unidos e com a ascenso do general Augusto Pinochet (fig. 13), um dos ditadores mais cruis que a Amrica j conheceu. 

Figura 12.

foto mostrando Salvador 
  Allende, eleito presidente do Chile em 1970 e morreu em 1973 no Palcio de La Momeda, sede do governo chileno, cercado pelas tropas golpistas

Figura 13. 

foto mostrando o General Augusto Pinochet, em setembro de 1988.
  O golpe militar que encabeou em 1973 no Chile custou a vida a cerca de 15 mil chilenos, e, devido a ele, milhares de pessoas foram obrigadas a deixar o pas. 
Muita gente acredita que o general cometeu um crime contra a humanidade e deveria ser punido por isso.

  O Oriente Mdio (5), estrategicamente situado entre a sia, a Europa e a frica, tambm esteve fortemente envolvido na Guerra Fria. Muitas das guerras locais foram 
travadas com armamentos fornecidos pelas superpotncias, que atraam seus futuros aliados com promessas de modernizao dos exrcitos e de maior poder regional. 
O Egito, por exemplo, contou com a colaborao militar dos soviticos de 1956 at 1972, quando mudou de poltica e passou a se aproximar dos Estados Unidos. Israel, 
por seu turno, tem sido um importante aliado estratgico dos norteamericanos na regio. As violentas guerras que opuseram Israel e os pases rabes na segunda metade 
do sculo XX no tiveram nada a ver com a disputa entre capitalismo e socialismo. Entretanto, as superpotncias da Guerra Fria estiveram envolvidas em  todas elas.
  A Guerra Fria repercutiu at mesmo em muitos pases pobres da frica, que se tornaram grandes compradores de armamentos. Em nome de supostas alianas militares 
e da defesa de seus ideais, os Estados Unidos e a Unio Sovitica 
19
introduziram armas sofisticadas e com elevado poder de destruio em vrias guerras entre povos africanos, muitas vezes iniciadas por ditadores sanguinrios.

               

Atividade 2 

          A Guerra Fria no tempo e no espao

  Elabore, em grupo, um cartaz da Guerra Fria, com uma linha do tempo marcando os acontecimentos mais importantes do perodo. Ilustre com desenhos, mapas e fotografias. 
Imagens e textos representativos das repercusses na Guerra Fria nos esportes e no cinema tambm podem ser utilizados. 

Rumo a uma nova ordem mundial

  A Guerra Fria no teve um marco oficial de encerramento. Desde o incio da dcada de 1970, as superpotncias j vinham negociando o fim da corrida armamentista 
e assinando tratados nos quais se propunham destruir parte do arsenal acumulado. Na segunda metade da dcada de 1980, o lder sovitico Mikhail Gorbatchev iniciou 
um amplo processo de liberao da economia e da poltica na Unio Sovitica. Essas reformas repercutiram em todos os pases socialistas da Europa, com a ascenso 
de movimentos democrticos e a queda dos regimes de partido nico.
  Entretanto, a maioria dos estudiosos destaca o dia em que o governo comunista da RDA permitiu a abertura da fronteira entre as duas Alemanhas como o smbolo maior 
do fim da Guerra Fria. De acordo com eles, a Guerra Fria acabou no dia 9 de novembro de 1989, quando o Muro de Berlim foi derrubado pelos alemes (fig. 14).

Figura 14. 

foto mostrando algumas pessoas em frente ao Muro de Berlim, parcialmente destrudo. A seguir, legenda
  Para muitos especialistas, a Guerra Fria acabou com a derrubada do Muro de Berlim. 
Entretanto, outros consideram a desagregao da Unio Sovitica como o seu verdadeiro marco de encerramento. De qualquer maneira, os pedaos do Muro de Berlim foram 
transformados em relquias do fim de uma era. 

20
  No ano seguinte, em 1990, o Pacto de Varsvia anunciou o fim de suas funes militares e a RDA foi englobada pela RFA. Finalmente, em 1991, a prpria Unio Sovitica 
deixou de existir e, em seu lugar, surgiram quinze pases independentes. A Rssia, a mais importante das antigas repblicas soviticas, continua sendo uma potncia 
militar, pois mantm o controle sobre as armas nucleares da extinta Unio Sovitica, mas certamente j perdeu a condio de superpotncia. Em 1999, Polnia, Hungria 
e Repblica Tcheca foram aceitas na Otan, apesar da resistncia da Rssia contra o avano do poderio norteamericano no leste da Europa.
  No plano militar, os Estados Unidos continuam sendo uma potncia planetria. Porm, no plano econmico, o pas encontrou rivais no Japo e na Alemanha, exatamente 
os dois grandes derrotados na Segunda Guerra Mundial. A bipolaridade virou coisa do passado.

               

Atividade 3

          Alemanha reunificada?

  Em 1990, a Alemanha foi reunificada e voltou a ser um nico pas. Mas as marcas da diviso ainda permanecem, conforme voc pode observar nos trechos abaixo, reproduzidos 
de uma reportagem.

  A maioria dos alemes orientais sentese cidado de segunda classe na terceira maior economia do mundo. A distino entre a Alemanha Ocidental e a Alemanha Oriental 
permanece em uso por um motivo simples: a fronteira continua nitidamente demarcada pelas disparidades econmicas. Com mais de 20% da populao total do pas reunificado, 
a Alemanha Oriental responde por rarefeitos 6% da produo industrial e contribui com apenas 11% do produto interno bruto. [...] o desemprego, preocupante em toda 
parte,  duas vezes maior na Alemanha Oriental. [...]
  Por praticamente todos os parmetros, os alemes orientais desfrutam de um nvel de vida muitas vezes melhor do que no tempo do comunismo. Toda famlia, quase 
sem exceo, tem carro na garagem, televiso em cores e eletrodomsticos que seriam luxos impensveis uma dcada atrs. At a expectativa de vida aumentou dois ou 
trs anos [...]
  Ainda assim, a Alemanha Oriental sofre, abalada por um sentimento difuso de que alguma coisa se perdeu na transio para o capitalismo. [...] "As pessoas sentem 
falta da camaradagem existente nos velhos tempos [...] Hoje ningum precisa de ningum e  cada um por si" [explica o viceprefeito de Dresden] [...] A maioria tem 
saudade da vida morosa, das ruas seguras e, evidentemente, dos empregos vitalcios. Como as diferenas salariais eram pequenas, os alemes orientais no enfrentavam 
o stress da disputa por empregos melhores. (Veja, 17 jun. 1998, p. 5860.)

  Responda em seu caderno.

 a) Por que existem tantas diferenas entre a poro oeste e a poro leste da atual Alemanha?
 b) O texto demonstra que a vida da maioria dos alemes do leste mudou bastante desde a unificao. Comente essas mudanas.

Passando a Limpo 

 1. Explique a expresso "equilbrio do terror", utilizada para caracterizar o confronto entre as superpotncias durante a Guerra Fria.

 2. Os mapas a seguir no livro em tinta e no transcritos retratam momentos importantes da histria recente da Europa. Mas, como voc pode observar, eles no trazem 
ttulo ou indicao de data. Em seu caderno, estabelea a seqncia histrica correta dos mapas e explique com suas palavras o que cada um representa.

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pea orientao ao professor

               

Notas de rodap

 (1) Reino Unido  O Reino Unido da GrBretanha e da Irlanda do Norte compreende a Inglaterra, a Esccia e o Pas de Gales, situados na 
  Ilha da GrBretanha, e a Irlanda do Norte, situada na 
  Ilha da Irlanda.
 (2) Nazismo  Regime poltico autoritrio implantado na Alemanha em 1933, quando Adolf Hitler subiu ao poder. Durante a Segunda Guerra Mundial, mais de 6 milhes 
de judeus foram assassinados pelos nazistas.
 (3) Bipolaridade  Situao na qual existem dois plos. Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos e a Unio Sovitica figuravam como os dois plos do poder mundial.
 (4) Cuba  Um mssil lanado de Cuba levaria cerca de 15 minutos para alcanar Washington, capital dos Estados Unidos. Os Estados Unidos estavam dispostos a pagar 
qualquer preo para evitar a instalao de uma base nuclear inimiga nessa localizao.
 (5) Oriente Mdio  Os acordos e alianas da Guerra Fria envolveram de mltiplas formas o Oriente Mdio, considerado estratgico pela sua posio geogrfica e pelas 
suas imensas reservas de petrlio.

               oooooooooooo

23

Captulo 2

          A Organizao das Naes 
          Unidas

  Imagine um lugar que rene, todos os anos, representantes de mais de 180 pases para discutir problemas que atingem bilhes de habitantes da Terra. Imagine a confuso 
que se estabeleceria caso cada um deles falasse uma lngua diferente. Esse lugar existe e fica em Nova Iorque, nos Estados Unidos (fig. 1). Seu nome: Organizao 
das Naes Unidas (ONU). Os encontros anuais so chamados de Assemblia Geral da ONU. Para se comunicar, os participantes acabam tendo de falar lnguas que todos 
conhecem ou contar com o apoio de intrpretes para traduzir as conversas, o que nem sempre funciona (leia o quadro 1).

Figura 1.

foto mostrando o prdio Sede da Organizao das Naes Unidas, em Nova Iorque. O arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer participou da equipe que projetou esse prdio

24
Quadro 1

          Besouros e rinocerontes na 
          ONU

  Os intrpretes simultneos da ONU traduzem - atravs de um complexo equipamento - os discursos dos delegados na mesma velocidade em que estes normalmente falam. 
Se uma palavra crucial para o debate for traduzida de modo incorreto, precisa ser revista no decorrer da discusso [...]
  Um incidente assim ocorreu durante a poca da descolonizao [da frica], quando um representante do minguante Imprio Britnico lia um relatrio de atividades 
de uma regio sob custdia do Reino Unido, durante uma Assemblia. Quando falava das tentativas do pessoal do lugar (antigamente denominados apenas "nativos") para 
combater as pragas de besourosrinocerontes, o intrprete de russo compreendeu a palavra rinoceronte (nasarg, em russo) mas no besouro (zhook).
  O delegado sovitico interrompeu para perguntar como os nativos podiam equiparse para resistir  invaso de inumerveis rinocerontes. Recebeu a resposta de que 
o pessoal do lugar recebia vassouras e baldes de produtos qumicos. Isso pareceu ao representante sovitico no s armamento insuficiente para combater o ataque 
de hordas de rinocerontes, mas tambm m vontade colonialista em distribuir armas de fogo aos africanos para proteo contra o ataque de animais ferozes. "Ao mesmo 
tempo", contraps o delegado sovitico, "restam apenas algumas centenas de rinocerontes na frica; por que deveriam ser exterminados?" A isso replicou o delegado 
britnico: "Ah, no! H muitos milhes deles. Todas as primaveras eles voam do norte em grandes enxames e comem as cascas das rvores."
  A essa altura a discusso j havia complicado tanto que a sesso precisou ser suspensa at que a palavra "besouro" foi localizada e - finalmente - aposta a "rinoceronte". 
(C. Berlitz, As lnguas do mundo, p. 154155)
 fim do quadro

O surgimento da idia

  O nascimento da ONU tem relao direta com o final da Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos e a Unio Sovitica (Unio das Repblicas Socialistas Soviticas 
- URSS) tiveram um papel decisivo na sua fundao. Os governos desses pases buscavam uma frmula para evitar a repetio de conflitos armados envolvendo muitos 
pases, como a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. 
  A ONU, que tem como smbolo um mapamndi como o da figura 2, no foi a primeira tentativa de se criar uma instituio para discutir problemas da humanidade. Antes 
dela existiu a Liga das Naes. Leia mais sobre essa organizao de pases no quadro 2.

Figura 2. 

foto mostrando a bandeira da ONU e um capacete com o mesmo smbolo da bandeira. A seguir, legenda
  A ONU utiliza como smbolo um mapamndi centrado no Plo Norte, desenhado em branco sobre um fundo azul. O azul  a cor predominante no uniforme das Foras de 
Paz.

25

Quadro 2

          A Liga das Naes

  A Liga das Naes, fundada em 28 de junho de 1919, em Paris, foi a primeira tentativa importante de se estabelecer um frum de discusses e deliberaes entre 
pases. Seu fim coincidiu com o incio da Segunda Guerra Mundial, em 1939. Durante sua existncia, ela no teve sucesso na conteno de conflitos. Os Estados Unidos, 
apesar de terem sugerido 
a criao da Liga, no ingressaram como membros. Na verdade, desde aquela poca a populao norteamericana j discutia se o pas deveria atuar em escala planetria 
ou apenas nas situaes em que seus interesses estivessem diretamente envolvidos. A noadeso de um dos principais pases do mundo esvaziou o sentido da nascente 
organizao.
 fim do quadro

  Durante a Segunda Guerra Mundial, representantes dos pases aliados (os que lutaram juntos contra a Alemanha, a Itlia e o Japo) passaram a conversar a respeito 
da criao de um organismo internacional para garantir a paz e a segurana mundiais. Em 12 de junho de 1941, eles assinaram uma declarao comprometendose a trabalhar 
em conjunto, em perodos tanto de paz quanto de guerra. Em 14 de agosto do mesmo ano, surgiu a Carta do Atlntico, na qual o presidente Franklin Roosevelt, dos Estados 
Unidos, e Winston Churchill, ento primeiroministro da Inglaterra, estabeleceram o princpio da cooperao internacional pela paz e segurana no planeta.
  Em plena guerra, no primeiro dia do ano de 1942, 26 pases aliados assinaram a Declarao das Naes Unidas, em Washington (Estados Unidos). Nesse documento, foi 
empregada pela primeira vez a expresso Naes Unidas, que, anos mais tarde, viria a ser usada para designar a ONU.
  As negociaes avanaram rapidamente, principalmente devido  continuidade da guerra. Em 30 de outubro de 1943, em Moscou, representantes da China, dos Estados 
Unidos, do Reino Unido e da Unio Sovitica assinaram outro documento que reforava a idia de fundar uma organizao de pases em prol da paz e da segurana. Em 
11 de fevereiro de 1945, durante a Conferncia de Yalta (fig. 3), Roosevelt, Churchill e Josef Stalin, secretriogeral do Partido Comunista da Unio Sovitica, que 
comandava o pas, anunciaram para o mundo sua deciso de crila. De 25 de abril a 25 de junho, representantes de cinqenta pases se reuniram na Conferncia de So 
Francisco (Estados Unidos) e assinaram a Carta de criao da ONU, que passou a funcionar em 24 de outubro de 1945.

Figura 3.

foto mostrando os trs homens grandes da Conferncia de Yalta: Winston Churchill, Franklin Roosevelt e Josef Stalin. Nessa conferncia, que ratificou as novas fronteiras 
soviticas, foi decidida a criao da ONU

26
A estrutura da ONU

  Desde o incio a ONU opera por meio de comisses econmicas e programas especiais. As primeiras comisses criadas foram as de carter regional, como a Cepal (Comisso 
Econmica para a Amrica Latina e o Caribe). Elas desenvolvem estudos e elaboram programas com o intuito de melhorar as condies de vida da populao da regio 
em que atuam. Porm, na maior parte dos casos, no conseguiram mudar o cenrio de desigualdade social encontrado em muitos pases.
  Os programas patrocinados pela ONU so variados, podendo ser dirigidos  educao de crianas,  conservao do ambiente, aos direitos das minorias e  melhor 
distribuio dos alimentos com o objetivo de eliminar a fome. Para cada programa  definida uma sede, onde trabalham tcnicos e ocorrem reunies de especialistas 
de todas as partes do mundo.
  Alm de comisses econmicas regionais, a ONU conta com agncias voltadas para temas especficos, como sade, trabalho etc., o que resultou numa grande estrutura, 
indicada no esquema da figura 4. As principais agncias e suas funes so:

  Unicef (Fundo das Naes Unidas para a Infncia), que atua em programas de sade, nutrio e bemestar infantil;
  FAO (Organizao das Naes Unidas para a Agricultura e a Alimentao), que desenvolve programas para aumentar a produo e a produtividade agrcola e pesqueira;
  Unesco (Organizao das Naes Unidas para a Educao, a Cincia e a Cultura), que aplica programas educacionais e estimula a cooperao cientfica internacional;
  OIT (Organizao Internacional do Trabalho), que elabora regras internacionais para aprimorar as condies de trabalho e para combater o desemprego;
  OMS (Organizao Mundial da Sade), que prope convenes, acordos, regulamentaes, recomendaes e prticas de sade.

  A Secretaria Geral administra a execuo dos programas desenvolvidos pelas comisses, agncias e conferncias. Ela faz chegar aos mais longnquos pases os milhares 
de mapas, relatrios tcnicos e estudos produzidos nos programas. Por outro lado, recebe e organiza todas as informaes que os pases enviam para a ONU.
  O Conselho de Segurana  o principal rgo da ONU. Ao contrrio dos demais, que apenas recomendam aos governos que sigam suas orientaes, as decises do Conselho 
tm de ser implementadas. Os pases membros so obrigados a fazlo, como prev a Carta das Naes Unidas, que todos assinaram.
  Dos mais de 150 pasesmembros somente quinze participam do Conselho de Segurana. Desse total, dez so escolhidos pela Assemblia Geral, a cada dois anos. A China, 
os Estados Unidos, a Frana, o Reino Unido e a Rssia (na poca de criao da ONU, era a Unio Sovitica) so membros permanentes e apenas eles tm poder de vetar 
qualquer deciso no Conselho.
  O poder desses cinco pases  enorme, j que de seu acordo dependem as resolues a serem implementadas pela ONU. A aprovao de uma medida exige, no mnimo, nove 
votos. Ou seja, quatro pases entre os eleitos a cada dois anos devem votar em conjunto com os membros permanentes.

27

          Organograma da ONU 

 a seguir, contedo do organograma 
  Foras da Paz :o Conselho de Segurana :o Assemblia Geral 

  FORAS DE PAZ 
  Conselho de segurana 
  Assemblia Geral 
  Secretaria Geral 
  Corte Internacional de Justia 
  Conselho Econmico Social 

  Conselho Econmico Social 
 OIT  Organizao Internacional do Trabalho
 FAO  Organizao das Naes Unidas para a Agricultura e a Alimentao 
 Unesco  Organizao das Naes Unidas para a Educao, a Cincia e a Cultura 
 OMS  Organizao Mundial de Sade 
 FMI  Fundo Monetrio Internacional 
 Icao  Organizao da Aviao Civil Internacional 
 UPU  Unio Postal Universal 
 UIT  Unio Internacional de Telecomunicaes 
 OMM  Organizao Meteorolgica Mundial 
 OMI  Organizao Martima Internacional 
 Unicef  Fundo das Naes Unidas para a Infncia 
 Banco Mundial  Banco Internacional de Reconstruo e Desenvolvimento 
 Fida  Fundo Internacional de Desenvolvimento Industrial 
 OIEA  Organismo Internacional de Energia Atmica 
 Unido  Organizao das Naes Unidas para o Desenvolvimento Industrial 
 OMPI  Organizao Mundial da Propriedade Intelectual 
 
 Comisses Regionais 
  Comisso Econmica para a frica 
  Comisso Econmica e Social para a sia e o Pacfico 
  Comisso Econmica para a Europa 
  Comisso Econmica para a Amrica Latina e o Caribe 
  Comisso Econmica e Social para a sia Ocidental 
  Legenda: as agncias da ONU pesquisam, implementam programas, promovem discusses e realizam tratados acerca dos mais diferentes temas de interesses da humanidade. 

  O grande papel do Conselho de Segurana  discutir e tomar decises sobre conflitos entre pases. A interveno da ONU - por meio do envio de tropas conhecidas 
como Foras de Paz - para tentar pr em prtica as decises do Conselho  uma das formas de resolver os conflitos. Em geral, os boinas azuis, como so chamados os 
militares das foras armadas das Naes Unidas, no chegam a lutar contra os povos em conflito. Na imensa maioria dos casos sua ao se limita a ocupar determinadas 
reas, as zonas da paz. Nem sempre essa estratgia alcanou resultados. Em muitos pases africanos, como em Angola, durante a dcada de 1980, e na Somlia (fig. 
5), na dcada seguinte, a presena das tropas da ONU no foi suficiente para resolver os conflitos.

Figura 5. 

foto mostrando as Foras de Paz da ONU na Somlia, em fevereiro de 1994. Nesse e em muitos outros casos, o alto custo das operaes limitou bastante a atuao dos 
boinas azuis. Eles abandonaram o pas em plena guerra civil

28
  Outro tipo de deciso que pode ser tomada pelos membros do Conselho  o embargo econmico. Nesse caso, os pases integrantes da ONU ficam proibidos de comprar 
e vender para o pas que sofre o embargo.
  Estabelecer acordos de paz e zonas livres de conflito militar tambm so medidas que podem surgir do Conselho de Segurana. Alm disso,  ele que aprova e recomenda 
 Assemblia Geral o ingresso de novos pases na ONU. O enorme poder do Conselho tem levado alguns pases a sugerirem mudanas em sua composio. Eles desejam aumentar 
o nmero de membros permanentes, que, no novo arranjo, perderiam o seu poder de veto.
  A Assemblia Geral da ONU (fig. 6) ocorre anualmente com a participao de representantes de todos os pases membros. Nela, por exemplo, so debatidas questes 
internacionais, decidese a aceitao de novos integrantes, a partir da indicao do Conselho de Segurana, e so escolhidas as sedes das conferncias temticas (veja 
no item seguinte). Apesar de contar com a participao de um nmero maior de pases, suas decises tm menos impacto do que as do Conselho de Segurana.

Figura 6. 

foto mostrando a Assemblia Geral da ONU, realizada em 1997. Por tradio, cabe a um representante brasileiro abrir os trabalhos. Na ocasio, Fernando Henrique Cardoso, 
presidente do Brasil, proferiu o discurso de abertura

  Os recursos para a manuteno de toda essa estrutura e para o cumprimento das decises do Conselho de Segurana e da Assemblia Geral so provenientes das contribuies 
anuais dos pasesmembros.

               

Atividade 1 

          Pesquisa sobre as agncias da ONU

  Escolha, em grupo, uma das agncias citadas no captulo e organize um dossi sobre ela. Pesquise em livros, revistas, na internet e jornais para obter informaes 
sobre os seguintes itens: local da sua sede; ano de fundao; principal fonte de recursos; principais linhas de ao; principais dificuldades encontradas.
  Ao final, exponha em sala de aula os resultados da pesquisa.

29

As conferncias temticas

  A partir da dcada de 1970, a ONU passou a organizar reunies para discutir problemas especficos, com a participao de seus prprios especialistas e tcnicos 
e de representantes dos governos. Entre os assuntos j abordados, destacamse a populao mundial, as condies de vida da mulher e a vida urbana.

As Conferncias Mundiais sobre Populao

  Segundo estimativas recentes, a populao mundial deve chegar a 12,5 bilhes por volta de 2050, ou seja, ao dobro da existente no final da dcada de 1990. Isso 
indica que a populao da Terra tem crescido cerca de 90 milhes por ano.
  Essa projeo pode ser questionada, j que no leva em conta fatores como catstrofes naturais, guerras e at mesmo o maior controle da natalidade. Mas ela ajuda 
a entender a preocupao da ONU com a questo demogrfica, sobre a qual realizou trs conferncias: em Bucareste (Romnia), em 1974; na Cidade do Mxico (Mxico), 
em 1984; e no Cairo (Egito), em 1994.
  A Conferncia Mundial sobre a Populao realizada em Bucareste foi a primeira especialmente convocada para discutir questes ligadas ao crescimento demogrfico 
em escala mundial. Ela ficou conhecida como Conferncia de Bucareste.
  O grande crescimento demogrfico registrado na dcada de 1960, resultado da queda da mortalidade em vrias regies do globo, despertou, principalmente entre os 
pases ricos, o medo da falta de recursos naturais, gua e alimentos para toda a populao mundial. O excesso de pessoas acabaria ameaando seu estilo de vida, caracterizado 
pelo alto consumo de energia e recursos naturais. Esse receio justificou a principal recomendao da Conferncia de Bucareste: o controle da natalidade em pases 
pobres.
  A idia sofreu restries de parte dos pases pobres e da Igreja catlica. Para os primeiros, o controle do crescimento populacional significava uma imposio 
dos ricos, aos quais no davam o direito de controlar os demais pases do mundo. Alm disso, eles argumentaram que sua populao consumia muito menos recursos naturais 
do que a dos pases ricos. J para a Igreja catlica o controle da natalidade contraria as suas doutrinas.
  Apesar das discordncias, mtodos e campanhas de controle da natalidade  foram implementadas em vrias partes do mundo.
  Em 1984, na Conferncia do Mxico, novamente se enfrentaram os que desejavam impor essa poltica para os pases pobres e os que a consideravam uma intromisso 
nos problemas internos de uma nao. Apesar da polmica sobre o tema, aprovaramse diretrizes para combater o crescimento populacional, e muitos pases pobres receberam 
recursos para aplicar as polticas demogrficas recomendadas.
  Tcnicos e mdicos de pases ricos foram enviados aos pases pobres para fazer palestras sobre planejamento familiar, nas quais procuraram mostrar aos casais por 
que era importante evitar o nascimento de muitos filhos e divulgar mtodos anticoncepcionais, como o uso de plulas e preservativos. Entretanto, em alguns casos, 
realizouse inclusive a esterilizao feminina (1) veja a pgina 92, muitas vezes sem consultar as pacientes.
30
  Na terceira Conferncia Mundial sobre Populao e Desenvolvimento (fig. 7), ocorrida no Cairo, em 1994, houve uma mudana no tratamento do tema. Pela primeira 
vez o crescimento populacional foi associado ao desenvolvimento econmico. Assim, no s o crescimento demogrfico foi discutido, mas tambm (e principalmente) as 
condies econmicas e a qualidade de vida da populao mundial.

Figura 7. 

foto mostrando a Assemblia Geral da Conferncia do Cairo, no Egito, em 1994. Em discusso, o tamanho, a velocidade de crescimento e a qualidade de vida da populao 
do mundo

  Outra mudana de destaque nessa Conferncia foi o reconhecimento do direito das mulheres sobre seu prprio corpo, ou seja, que cabe a cada mulher, por exemplo, 
a deciso de usar ou no mtodos anticoncepcionais e de escolher aquele que melhor se adapte s suas necessidades. Tanto a Igreja catlica quanto os pases muulmanos 
contriburam para a vitria dessa idia, j que ela no fere o direito das mulheres de agirem de acordo com as suas convices religiosas.
  Ao final da Conferncia do Cairo, os 182 pases participantes aderiram ao Programa de Ao, um plano para garantir o controle e a melhoria da qualidade de vida 
da populao. O representante do Vaticano, sede da Igreja catlica, tambm assinou o documento, com a ressalva de que somente mtodos naturais seriam aceitos para 
evitar o crescimento populacional.
  O Programa de Ao destaca o combate ao analfabetismo como uma das principais metas a serem atingidas, pois a divulgao de informaes sobre o controle do crescimento 
populacional  fundamental para que as pessoas decidam o nmero de filhos que querem ter. Sem saber ler e escrever, o acesso s informaes fica bem mais difcil.

As Conferncias da Mulher

  Discriminao - essa foi a principal razo que levou a ONU a organizar reunies para tratar de problemas que afligem as mulheres em todo o mundo. O preconceito 
contra a mulher se expressa de muitas maneiras: salrios mais baixos do que os pagos aos homens pelo exerccio das mesmas funes, dupla jornada de trabalho (quando 
a mulher trabalha fora e 
31
assume sozinha os afazeres domsticos), agresses fsicas e violncia sexual, entre outras.
  A luta contra a discriminao da mulher gerou o feminismo, um movimento que envolve mulheres de todo o mundo na luta pela afirmao de seus direitos e pelo fim 
da discriminao e das agresses a que so submetidas. Principalmente aps a dcada de 1960, as mulheres conseguiram vitrias importantes contra o machismo, a opresso 
baseada em argumentos religiosos e as diferenas salariais em relao aos homens.
  O tema mulher surgiu na ONU em 1945, com a criao da Comisso sobre o Status da Mulher, que visava divulgar os direitos polticos, econmicos e sociais da mulher, 
independentemente de sua condio social ou f religiosa.
  Em 1975, houve a Primeira Conferncia Internacional da Mulher, na Cidade do Mxico. Um dos resultados dessa reunio foi o Plano de Ao Mundial, cujo objetivo 
era acabar com a discriminao contra a mulher no mercado de trabalho. Outro foi a proposta de uma conveno internacional em torno de outras formas de discriminao. 
Esse documento foi assinado em 1979 e recebeu o nome de Conveno pela Eliminao de todas as Formas de Discriminao contra a Mulher. Tambm durante a Conferncia 
do Mxico foi proposta a criao do Dia Internacional da Mulher.

Figura 8. 

foto mostrando vrias pessoas, a maioria mulheres, segurando vrios cartazes. A seguir, legenda
  Manifestao em So Paulo no Dia Internacional da Mulher (8 de maro), em 1995. Em 8 de maro de 1857, trabalhadoras da indstria txtil de Nova Iorque realizaram 
manifestaes pela reduo da jornada de trabalho e pela melhoria dos salrios, e foram violentamente reprimidas pela polcia, o que resultou na morte de manifestantes. 
Em memria  luta dessas e de todas as mulheres do mundo por melhores condies de vida e de trabalho, em 1975 a ONU transformou a data em Dia Internacional da Mulher.

  A Segunda Conferncia Internacional da Mulher teve lugar em Copenhague (Dinamarca), em 1980. Nela foi feita uma avaliao dos resultados obtidos desde a primeira 
Conferncia. Infelizmente, verificouse que os avanos foram poucos.
  Em 1985, ocorreu em Nairbi (Qunia) a Terceira Conferncia Internacional da Mulher. Na ocasio, elaborouse o documento Estratgias em Direo ao Futuro para a 
Emancipao da Mulher at o Ano 2000. Mais uma vez chegouse a um documento importante, que tambm no foi implementado.
  Porm, se os resultados eram desanimadores, a divulgao das causas das mulheres acabou repercutindo em outras reunies da 
 ONU. Em 1993, na Conferncia Mundial sobre Direitos Humanos, realizada em Viena 
32
(ustria), definiuse que a violncia contra a mulher era uma das maneiras mais graves de afetar os direitos humanos. Em 1994, na Conferncia do Cairo, ficou clara 
a necessidade de a mulher ter informao para decidir ou no pela procriao.
  Tudo isso gerou uma grande expectativa em relao  Quarta Conferncia Mundial da Mulher (fig. 9), realizada em Pequim (China), em 1995. Mais de 40 mil mulheres 
de todo o mundo passaram duas semanas tratando de temas velhos, porm ainda sem soluo, como a violncia contra a mulher e o pagamento de salrios menores em comparao 
aos dos homens.

Figura 9. 

foto mostrando vrias pessoas, a maioria mulheres, caminhando. A seguir, legenda
  A Quarta Conferncia da Mulher, em 1995, reuniu mulheres das mais diversas culturas, religies e etnias. 

  O tema que marcou uma nova frente de trabalho para a ONU foi apresentado por Benazir Bhutto, ento primeiraministra do Paquisto, que fez um discurso denunciando 
o assassinato de bebs recmnascidos do sexo feminino e o abortamento de fetos femininos. Essa prtica, chamada infanticdio,  comum em pases muito populosos.
  A Plataforma de Ao, documento assinado pelos representantes dos pases participantes, aborda temas abrangentes, como a situao de maior empobrecimento da mulher 
em relao ao homem, o acesso  educao e ao tratamento de sade, a violncia contra a mulher, maneiras de dividir as tarefas domsticas com os homens e a maior 
participao na vida poltica.

As Conferncias sobre as Cidades

  A preocupao central das duas Conferncias sobre as Cidades  a qualidade de vida nos centros urbanos. Os dados indicavam uma situao catica em 1975. Naquela 
poca, 35% da populao mundial era urbana, de modo que, no final do sculo XX, a populao urbana estaria prxima de ultrapassar a rural, somando mais de 3 bilhes 
de pessoas. Desse total, cerca de um tero viveria em lugares inadequados ou, pior, no teriam onde morar.
33
  A Primeira Conferncia da ONU sobre Assentamentos Humanos, conhecida como Hbitat 1, ocorreu em Vancouver (Canad), em 1976. Foi recomendado aos pases que assinaram 
o documento final o planejamento participativo, uma forma de gesto da cidade em que a populao  convidada a opinar, discutindo e definindo o que fazer com os 
recursos pblicos.
  Posteriormente foram divulgados critrios tcnicos para avaliar as habitaes. De acordo com eles, estabeleceuse a figura da habitao subnormal, por exemplo, 
definida como aquela que se encontra em desacordo com as normas sanitrias e de edificaes, e com a regulamentao do uso do solo urbano. Nessa categoria incluemse 
os cortios, as favelas (fig. 10) e os imveis construdos em loteamentos clandestinos. Embora oferea at risco de vida para os moradores, a habitao subnormal 
tornouse a nica alternativa para grande parte das pessoas de baixa renda que vive em cidades e que no pode pagar o aluguel de um imvel regularizado.

Figura 10. 

foto mostrando uma favela em Soweto, frica do Sul, em 1995. As habitaes subnormais so mais freqentes em pases de renda mais baixa, como os da frica e da Amrica 
Latina

  A Segunda Conferncia da 
 ONU sobre Assentamentos Urbanos ocorreu em 1996, em Istambul (Turquia). Estudos divulgados na poca apontavam que cerca de 500 milhes de habitantes das cidades 
de todo o mundo no tinham onde morar e cerca de 600 milhes viviam em habitaes subnormais.
  Diante desse cenrio alarmante, os pases pobres reivindicaram maior participao dos pases ricos no financiamento de habitaes. Eles acreditavam que os recursos 
tinham de vir daqueles que enfrentavam menos problemas.
  Entre as recomendaes aprovadas em Istambul, destacamse a garantia de moradia digna a todos os que vivem em cidades, o combate  deteriorao das condies da 
vida urbana, a manuteno e reabilitao de edificaes e espaos de interesse cultural e histrico, e o reconhecimento dos prefeitos como os mais autorizados a 
tomar as medidas necessrias para viabilizar os itens anteriores. Decises como essas, se forem imple

mentadas, podem ajudar a melhorar a vida nas cidades do mundo.

               

34
Atividade 2

          Os temas das conferncias da ONU no nosso diaadia

R+
 1. Dentre as recomendaes aprovadas na Segunda Conferncia da ONU sobre Assentamentos Urbanos, realizada em Istambul (Turquia), em 1996, destacaramse o combate 
 deteriorao das condies de vida nas cidades e a luta pela preservao do patrimnio pblico. Planeje, em grupo, o registro fotogrfico de locais em que o patrimnio 
pblico esteja sendo degradado ou preservado em seu municpio. Com o material obtido, organizem um painel para apresentar em sala de aula.
 2. Na Quarta Conferncia Mundial da Mulher, realizada em Pequim (China), em 1995, a situao das mulheres idosas foi motivo de preocupao. Em uma sociedade que 
privilegia o espao do jovem, os governos destinam, em geral, poucos recursos para assistir a essas mulheres, que tm dificuldade para encontrar uma atividade. O 
que acontece com as mulheres que envelhecem sem profisso? Qual  o seu lugar 
34
na sociedade atual? 
  O que ocorre quando seus filhos se tornam independentes? Faa uma entrevista com uma mulher idosa, buscando respostas para essas perguntas. Apresente para a classe 
o relatrio de sua pesquisa.
 3. A discusso sobre os direitos das mulheres ganhou espao tambm na Conferncia Mundial sobre Populao e Desenvolvimento, realizada no Cairo (Egito), em 1994. 
Nesse encontro, fizeramse propostas para eliminar todas as formas de discriminao contra as meninas, por exemplo, no interior da famlia (quando se manifesta o 
privilgio dos meninos nas condies de estudo e alimentao) e na escola (quando lhes  negado o direito de realizar alguma atividade considerada tipicamente masculina). 
Redija um texto acerca desse assunto, considerando sua vivncia em casa e na escola. Organize, com a ajuda do(a) professor(a), um debate sobre o tema.

A ONU, aps os 50 anos

  O cinqentenrio da ONU, comemorado em 1995, estimulou uma srie de discusses a seu respeito. As concluses so diversas. Muitos acreditam que ela tem cumprido 
seu papel, apesar de reconhecerem falhas e problemas. Outros a criticam, no vendo razo em manter um rgo que no possui poder militar para fazer cumprir os inmeros 
acordos internacionais nascidos em seu interior, uma vez que as foras armadas da ONU s podem ser empregadas em misses de paz.
  O fracasso das misses de paz na frica ao longo das dcadas de 1970 e 1980  sempre lembrado por seus crticos. Porm seus defensores alegam que as Foras de 
Paz ao menos impediram um maior nmero de vtimas quando estavam presentes nos pases em conflito.
  Muitos criticam a Organizao pela falta de transparncia de suas decises, que esto concentradas no Conselho de Segurana. Mas seus defensores observam que at 
mesmo a sociedade civil tem sido convidada a participar das reunies, como voc pode ler no quadro 3.

Quadro 3

          A participao da sociedade

  A presena de ONGs - organizaes nogovernamentais - nas reunies organizadas pela ONU  cada vez mais freqente. Na Rio92 ou Eco92 (fig. 11), elas puderam acompanhar 
algumas delegaes e participar de discusses at ento restritas aos representantes dos pases.

Figura 11. 

foto mostrando um grupo de pessoas segurando uma faixa onde lse "Global Heart". A seguir, legenda
  Diversos grupos ambientalistas compareceram  Conferncia das Naes Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada em 1992 no Rio de Janeiro, para 
expressar suas idias e realizar manifestaes.

  Isso no significa que elas estejam satisfeitas. Em muitas das conferncias abordadas neste captulo, as ONGs organizaram reunies paralelas, nas quais militantes 
do mundo inteiro discutiram, alm dos temas oficiais propostos pela ONU, aqueles que desejavam ver includos na pauta dos debates.
  Foi a incmoda presena de ONGs do lado de fora que levou os dirigentes a admitir seu ingresso. Para alguns, esto sendo dados os primeiros passos para a democratizao 
da ONU. Para outros, entretanto, a democratizao s vir com a reformulao do Conselho de Segurana: eles defendem a ampliao do nmero de pasesmembros permanentes 
e o fim do poder de veto.
  Em algumas situaes, as ONGs fornecem dados e material de apoio para a prpria ONU. Isso acontece devido  agilidade que tm para conseguir realizar tarefas nos 
mais diversos pontos do mundo, j que contam com militantes espalhados pelos pases.
 fim do quadro
 
  Os crticos das conferncias internacionais acusam a ONU de perda de tempo. Baseados na crena de que apenas com o emprego da fora se consegue persuadir um pas 
a tomar medidas contra seus interesses, vem a Organizao como um palco de exerccios retricos que no produzem resultados concretos.
  Os defensores da ONU respondem dizendo que, se no fossem as reunies e os protocolos gerados entre seus participantes, temas como os direitos da mulher, os direitos 
humanos (leia o quadro 4) e os problemas ambientais, entre outros, no estariam presentes nas negociaes entre os pases.

Quadro 4

          Direitos humanos na ONU

  Durante a Segunda Guerra Mundial foram cometidos abusos contra prisioneiros comuns, isto , pessoas que no pertenciam s Foras Armadas. Muitos foram torturados 
e mortos sem maiores justificativas. Para tentar impedir a repetio desses lamentveis fatos, em 10 de dezembro de 1948 foi aprovada pela ONU a Declarao Universal 
dos Direitos Humanos, que contm 30 artigos, dos quais destacamos os seguintes:

 Artigo 1 - Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos [...]
 Artigo 2 - Todos podem invocar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declarao, sem distino de qualquer espcie, seja de raa, cor, sexo, lngua, 
religio, opinio poltica seja de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento [...]
 Artigo 3 - Todos tm direito  vida,  liberdade e  segurana pessoal [...]
 Artigo 14 - Todas as vtimas de perseguio tm o direito de procurar e de gozar de asilo em outros pases [...]
 Artigo 23 - Todos tm direito ao trabalho [...]
 Artigo 24 - Todos tm direito a repouso e lazer [...]
 Artigo 26 - Todos tm direito  educao [...]
 Artigo 29 - Todos tm deveres para com a comunidade.

  Infelizmente, nem sempre os direitos humanos so respeitados. Conflitos tnicos, sociais e religiosos, alm de ditaduras polticas, ainda se encontram disseminados 
pelo mundo. Isso tem mobilizado o trabalho de vrias ONGs, como a Anistia Internacional, que denuncia o desrespeito aos direitos humanos, alm de prestar apoio jurdico 
s vtimas. 
  Observe no mapa da figura 12 a distribuio dos refugiados polticos pelo mundo. So milhes de pessoas que precisaram abandonar seus pases de origem devido a 
perseguies contra suas idias polticas, religio, raa e posio social.

          A Origem e o Destino dos Refugiados no Mundo

Figura 12. 

mapa mostrando os principais pases de origem e destino dos refugiados 
  Pases de origem: Bsnia (Herzegovina)  620 mil, Afeganisto  2,64, milhes Iraque  630 mil, Somlia  520 mil, Burundi  510 mil 
  Pases de destino: Estados Unidos  600 mil, Alemanha  1,26 milho, Paquisto  1,20 milho, Ir  2,0 milhes, Guin  660 mil, Rep. Pop. Do Congo  670 mil 

          Distribuio dos refugiados no mundo 

grfico demonstrativo da distribuio dos refugiados
  Europa  2,94 milhes 
  Amrica do Norte  660 mil 
  Amrica Latina  80 mil 
  Oceania  70 mil 
  sia  4,73 milhes 
  frica  3,48 milhes 
  Legenda: Os principais pases de origem dos refugiados esto ou estiveram recentemente envolvidos em guerras civis (casos do Afeganisto, da Somlia, de Ruanda 
e de Burundi) ou, ainda, abrigam minorias nacionais que so perseguidas pelo governo (caso dos curdos que vivem no Iraque).
 Fim do quadro

               

Atividade 3

          Para que serve a ONU?

  Recorte notcias sobre a ONU em jornais ou revistas. Leia o material e procure identificar os diferentes setores de atuao da Organizao no mundo inteiro. Faa 
um relatrio com o resultado da sua pesquisa.

Passando a limpo

  Faa uma redao sobre o tema "A Organizao das Naes Unidas: histria e perspectivas".

               

Nota de rodap

 (1) Esterilizao feminina  Prtica cirrgica que consiste em "fechar" as trompas de Falpio, isto , os canais que ligam os ovrios ao tero, para evitar que o 
vulo chegue ao tero e possa ser fecundado.

               oooooooooooo
37

Captulo 3

          Desenhando o mapa do sistema 
          poltico internacional

  Quais so os pases mais poderosos do mundo? So os que tm as melhores armas e os exrcitos mais equipados ou os mais ricos? So os que melhor dominam as novas 
tecnologias, tais como computadores e robs sofisticados, ou os que abrigam o maior nmero de indstrias? So os que possuem maiores territrios e dispem de imensas 
riquezas naturais ou os que contam com mais gente para trabalhar nas indstrias e lutar nas guerras?
  Durante a Guerra Fria era bem mais fcil responder a essa pergunta. Ningum duvidava de que os pases mais poderosos do mundo eram as duas superpotncias inimigas 
- os Estados Unidos e a Unio Sovitica. Alm de controlar os maiores arsenais de armas atmicas, elas exerciam influncia poltica, econmica e cultural sobre vastas 
pores do planeta.
  A Organizao das Naes Unidas (ONU) foi criada em 1945 e sua estrutura refletia a composio das foras que ento comandavam o sistema poltico internacional. 
Naquela poca, era lgico que as duas superpotncias emergentes tivessem ampla influncia sobre as decises da ONU. O Reino Unido e a Frana, tambm vencedoras da 
Segunda Guerra Mundial, possuam territrios coloniais na frica, na sia e at mesmo na Amrica. A China era, e continua sendo, um pas fundamental no cenrio poltico 
internacional, no mnimo devido ao tamanho de seu territrio e de sua populao. 
  Esses cinco pases so os membros permanentes do Conselho de Segurana da ONU (fig. 1) e somente eles tm poder de veto. Mesmo que a grande maioria da Assemblia 
Geral e do prprio Conselho esteja de acordo acerca da necessidade de intervir militarmente em um conflito ou de tomar sanes 
38
econmicas contra um determinado pas (fazendo com que a comunidade internacional deixe de comprar seus produtos, por exemplo), um nico membro permanente do Conselho 
pode impedir que essas medidas sejam implementadas.

Figura 1.

foto mostrando a Reunio do Conselho de Segurana da 
  ONU

  Entre 1946 e 1990, perodo que corresponde aproximadamente aos anos da Guerra Fria, o veto foi utilizado 279 vezes, a maior parte delas pelos Estados Unidos e 
pela Unio Sovitica! Em muitas ocasies, a disputa entre as superpotncias e o uso freqente de seu poder de veto impediram uma atuao mais efetiva pela paz entre 
os povos.
  Entretanto, o cenrio mundial se modificou muito desde a fundao da ONU, e seu Conselho de Segurana  produto de uma ordem internacional superada.
  A Unio Sovitica, por exemplo, no existe mais. A Rssia, sua herdeira no Conselho de Segurana e no controle dos arsenais atmicos, possui uma economia frgil 
e tem sido atingida por arrasadoras crises financeiras. Os imprios coloniais da Frana e do Reino Unido foram praticamente desmontados e, em seu lugar, surgiram 
dezenas de pases independentes, atualmente representados na Assemblia Geral da ONU. Enquanto as superpotncias assinavam acordos bilaterais de desarmamento e punham 
fim  corrida armamentista, pases pobres, como a ndia, que j estiveram na periferia do poder mundial, tornaramse potncias regionais, em parte graas ao domnio 
da tecnologia nuclear. Os Estados Unidos ainda possuem a economia mais importante do mundo, mas em muitos setores a concorrncia do Japo e da Alemanha, os grandes 
derrotados na Segunda Guerra Mundial, abala a superioridade norteamericana. Neste captulo, vamos estudar algumas dessas grandes alteraes no mapa do poder mundial.

A descolonizao e o conflito NorteSul

  Pelo menos na teoria, a ONU foi criada para assegurar a paz e a igualdade entre as naes do mundo. A Alemanha, o Japo e a Itlia, pases que buscavam dominar 
novos territrios, haviam sido derrotados na Segunda Guerra Mundial. Tanto a Unio Sovitica quanto os Estados Unidos, ainda que por motivos diferentes, eram favorveis 
 descolonizao da sia e da frica. A permanncia de grandes imprios coloniais definitivamente no combinava com a ordem mundial dos anos da Guerra Fria. 
  Os soviticos diziam apoiar as lutas dos povos pela libertao, posicionandose contra a dominao direta exercida pelos pases capitalistas europeus em grande 
parte do mundo. 
  Os norteamericanos acreditavam que a descolonizao viria de qualquer jeito, pois um nmero crescente de organizaes lutava pela independncia em quase todas 
as colnias africanas e asiticas. Temendo que esses povos se aproximassem da Unio Sovitica, caso seus movimentos prindependncia enfrentassem uma grande resistncia 
dos dominadores, eles preferiam que a questo fosse resolvida o mais rpido possvel. Por isso comearam arrumando a prpria casa: em 1946 o governo dos Estados 
Unidos concedeu a independncia para as Filipinas (1), um arquiplago situado no Oceano Pacfico.
39
  Os pases que mantinham grandes territrios coloniais, como Portugal, Blgica, Reino Unido e Frana, acabaram se curvando s novas circunstncias.  verdade que 
os dois ltimos possuam grande poder na ONU e poderiam ter vetado os princpios anticolonialistas desta. Mas, enfraquecidos pelo esforo de guerra e enfrentando 
problemas crescentes nos territrios que controlavam, eles perceberam que havia chegado a hora da descolonizao. 
  Nas dcadas de 1940 e 1950, os territrios coloniais praticamente desapareceram na sia. Em seu lugar, surgiram pases independentes, como a ndia, o Paquisto, 
a Birmnia (atual Mianma), o Ceilo (atual Sri Lanka), antigas colnias britnicas, e a Indonsia, que pertenceu  Holanda. Entre 1953 e 1954 trs pases da Indochina 
francesa - Vietn, Laos e Camboja - obtiveram sua independncia. Veja o mapa da figura 2.

Figura 2. 

          Cronologia da descolonizao da sia

mapa mostrando os pases independentes. A seguir, descrio
  Antes de 1950  Lbano, Israel, Sria, Jordnia, Iraque, Arbia Saudita, Paquisto, ndia, Buto, Bangladesh, Mianma, Sri Lanka, Indonsia, Filipinas, Coria do 
Norte e Coria do Sul.
  Entre 1950 e 1960  Chipre, Laos, Vietn, Cambroja e Malsia 
  Depois de 1960  Kuwait, Barein, Catar, EAU, Om, Cingapura e Imen.
  Legenda: A marcha da descolonizao redesenhou o mapa poltico da sia.

  Embora alguns pases africanos, como o Marrocos, a Tunsia e Gana, tenham conquistado a independncia nos anos 50, foi na dcada seguinte que a marcha da descolonizao 
acelerou na frica: entre 1960 e 1970, 
40
trinta pases independentes surgiram no continente (fig. 3). Somente em 1961, no por acaso conhecido como o Ano da frica, dezessete pases obtiveram sua independncia. 
Tambm na frica a Frana travou longas batalhas para manter regies de seu imprio colonial consideradas estratgicas, mas acabou derrotada. Leia mais sobre isso 
no quadro 1.

Figura 3. 

          Cronologia da Descolonizao da frica

mapa mostrando os pases independentes: 
  Antes de 1959  Marrocos, Tunsia, Lbia, Egito, Sudo, Eritria, Etipia, Guin, Libria, Gana e frica do Sul
  Entre 1960 e 1970  Mauritnia, Arglia, Senegal, Gmbia, Serra Leoa, Costa do Marfim, Togo, Benin, Burkina Fasso, Nger, Nigria, Chade, Camares, Rep. CentroAfricana, 
Gabo, Congo, Cabinda, Rep. Democ. do Congo, Zngia, Ruanda, Burundi, Tanznia, Uganda, Qunia, Somlia, Zimbabue, Botsuana, Suozilndia, Lesoto e Madagascar 
  Entre 1971 e 1983  Djibuti, Guin Equatorial, Angola, Moambique e GuinBissau
  Aps 1983  Mambia
  Legenda: Grande parte das fronteiras polticas internacionais do continente africano foram traadas depois de 1960. 

Quadro 1

          A guerra da Arglia

  A independncia da Arglia foi um dos episdios mais violentos da desmontagem dos imprios coloniais. Centenas de milhares de colonos franceses que viviam na regio 
estavam dispostos a lutar at a morte contra o movimento de independncia nacional, e a Frana, a princpio, no pretendia abrir mo dessa colnia. Em 12 de junho 
de 1945, o presidente do governo provisrio da Frana, general Charles de Gaulle, enviou o seguinte telegrama ao governador francs da Arglia:
   preciso afirmar publicamente a vontade da Frana de no deixar tocar a soberania francesa na Arglia.  preciso tomar as medidas necessrias para reprimir todos 
os comportamentos antifranceses por parte de uma minoria de agitadores.  preciso afirmar que a Frana confia nas massas francesas muulmanas na Arglia. (C. Serrano 
e K. Munanga, A revolta dos colonizados, p. 23.)
  Nove anos depois, em 1954, teve incio a Guerra da Arglia. Foi uma das mais violentas da histria, opondo os colonos franceses, conhecidos como pieds noirs, por 
combaterem usando botas pretas, e a Frente de Libertao Nacional, formada pelos nacionalistas argelinos, 
41
que, em geral, lutavam descalos. A guerra continuou mesmo aps um plebiscito (2) realizado na Frana em janeiro de 1961, no qual a maioria da populao do pas 
se posicionou favorvel  independncia da Arglia. O conflito s terminou em julho de 1962 e, curiosamente, foi Charles de Gaulle, que havia se tornado presidente 
da Frana, quem conseguiu impor aos colonos franceses o reconhecimento de sua derrota. 

Figura 4.

 foto mostrando militares em um prdio em runas. A seguir, legenda
  Centro de Argel durante a Guerra da Arglia. Nas paredes, pichaes favorveis ao movimento de independncia encabeado pela Frente de Libertao Nacional. Os 
colonos franceses, por sua vez, acreditavam que a Arglia era parte da Frana e que o governo francs deveria lutar at o fim para proteger o seu territrio.
 fim do quadro

               

Atividade 1

          Estudando o novo mapa do mundo

  O mapa no livro em tinta e no transcrito da figura 5 a seguir apresenta os pases que alcanaram sua independncia aps o trmino da Segunda Guerra Mundial. Com 
o auxlio de um atlas, responda em seu caderno:

 1. Em quais continentes se situa a maior parte desses pases?
 2. Identifique dois pases asiticos que foram colonizados pelo Reino Unido e que mantenham fronteiras entre si.
 3. Identifique trs pases asiticos que foram colonizados pela Frana e que mantenham fronteiras entre si.
 4. Identifique pelo menos trs pases situados no norte da frica que tenham se tornado independentes depois de 1945.
 5. Identifique pelo menos trs pases africanos banhados pelo Oceano Atlntico que tenham se tornado independentes depois de 1945.
42
 6. Identifique pelo menos trs pases africanos banhados pelo Oceano ndico que tenham se tornado independentes depois de 1945.
 7. Identifique pelo menos trs pases africanos que no possuem fachada ocenica e tenham se tornado independentes depois de 1945.

Figura 5

mapa mostrando a descolonizao e os novos pases. A seguir, legenda
  Processo de independncia at 1945 e depois de 1945.

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pea orientao ao professor

A Conferncia de Bandung e o Terceiro Mundo

  O movimento de descolonizao fez surgirem dezenas de novos Estados independentes na frica e na sia. Ainda que apresentem uma enorme diversidade tnica, cultural 
e poltica, a maior parte deles herdou da poca colonial problemas econmicos semelhantes.
  Em muitos deles, as melhores terras agrcolas estavam ocupadas pelas culturas de exportao introduzidas pelos colonizadores e a produo de alimentos era insuficiente 
para abastecer a populao local. A indstria praticamente inexistia. A maioria da populao era analfabeta, pois os colonizadores haviam investido pouco na educao. 
Aps sua vitria na luta pela independncia, os jovens Estados enfrentaram uma batalha ainda mais dramtica: a luta contra a misria de suas populaes. 
  A Conferncia AfroAsitica de Bandung, realizada em 1955 na Indonsia, foi a primeira tentativa de estabelecer laos de solidariedade e 
43
ajuda mtua entre povos to diferentes, mas com problemas to parecidos. Nela, representantes de 29 pases (fig. 6) se reuniram para criar um plano de ao comum.

Figura 6. 

mapa mostrando os pases participantes da Conferncia de Bandung: Libria, Gama, Lbia, Egito, Sudo, Etipia, Turquia, Lbano, Jordnia, Sria, Iraque, Arbia Saudita, 
Imen, Ir, Afeganisto, Paquisto, ndia, Ceilo, Nepol, China Popular, Irmania, Laos, Tailndia, Camboja, Vietn do Sul, Vietn do Norte, Indonsia, Filipinas 
e Japo.
  Legenda: Na Conferncia AfroAsitica de Bandung, pases pobres e recmlibertos buscaram ampliar sua participao na geografia mundial do poder e da riqueza

  No plano econmico, a Conferncia de Bandung proclamou a necessidade de uma poltica conjunta de valorizao, no mercado mundial, dos recursos naturais dos participantes, 
alm de promover acordos regionais de cooperao econmica. 
  No plano poltico, definiu uma plataforma para a atuao desses pases na comunidade internacional: eles iriam lutar de todas as maneiras possveis pela emancipao 
dos povos ainda colonizados, pelo respeito  soberania e  integridade territorial das naes recmlibertas e pelo reconhecimento da igualdade entre os pases do 
mundo, independentemente do seu tamanho ou poderio militar. 
  A Conferncia de Bandung revelou uma diviso do mundo bem distinta da existente entre pases capitalistas e pases socialistas, que alimentava a disputa das superpotncias 
na Guerra Fria. Mostrou que, alm do conflito entre o Leste (Unio Sovitica) e o Oeste (Estados Unidos), havia outro: o conflito entre o Norte (rico e industrializado) 
e o Sul (pobre e agrrio). 
  A partir dela, difundiuse uma maneira de dividir o mundo em trs blocos: o Primeiro Mundo, os pases capitalistas desenvolvidos; o Segundo Mundo, os pases socialistas 
desenvolvidos; e o Terceiro Mundo, os pases pobres e agrrios da frica, sia, Amrica Central e Amrica do Sul.
44
  Os participantes da Conferncia de Bandung pretendiam criar um frum permanente de representantes do Terceiro Mundo no cenrio mundial, noalinhado com nenhuma 
das superpotncias e interessado na elaborao de polticas de desenvolvimento que pudessem melhorar a vida de suas populaes. 
  No incio da dcada de 1970, os ideais terceiromundistas ganharam uma representao cartogrfica. O alemo Arno Peters elaborou uma maneira de representar a Terra 
que preserva o tamanho real dos continentes mas apresenta distoro na forma. Compare o mapamndi na projeo de Peters (fig. 7) com o mapamndi na projeo de Mercator 
(fig. 8), que preserva a forma em detrimento do tamanho e  utilizado mais freqentemente. Observe como o primeiro valoriza a Amrica do Sul, a Amrica Central, 
a frica e o sul da sia. Nenhum deles representa o mundo com fidelidade; nem poderia, pois  impossvel desenhar o globo terrestre em uma superfcie plana sem recorrer 
a algum tipo de distoro. A diferena entre eles no  uma diferena entre o certo e o errado, mas entre duas vises de mundo.

Figura 7. 

foto mostrando o mapamndi na projeo de Peters. A seguir, legenda
  A projeo utilizada no planisfrio de Arno Peters chamase projeo cilndrica de rea igual. Ela preserva as dimenses relativas dos pases e continentes.

Figura 8.

foto mostrando o mapamndi na projeo de Mercator. A seguir, legenda
  A projeo utilizada no planisfrio de Mercator chamase projeo cilndrica conforme. Ela preserva a forma dos pases e continentes.

  A diviso do mundo em trs blocos j no faz muito sentido. O Segundo Mundo se esfacelou com o fim da Unio Sovitica e da Guerra Fria. O chamado Terceiro Mundo 
abriga tambm pases cuja economia est baseada na indstria, como o Brasil, o Mxico e a Coria do Sul. Entretanto, sabemos que h pases pobres e pases ricos, 
e que a distncia 

econmica e tecnolgica que os separa continua aumentando.

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pea orientao ao professor

               

Atividade 2

          Os trs mundos

  No incio de 1998, em entrevista  imprensa, uma empresria carioca afirmou estar bastante otimista com os rumos do capitalismo brasileiro. De acordo com ela, 
o desenvolvimento econmico do pas faria com que ele logo deixasse de pertencer ao Terceiro Mundo para ingressar no Segundo Mundo. Ela certamente no entendeu o 
significado dessa diviso do mundo em trs blocos. Como a empresria, muita gente no sabe direito o que est dizendo quando utiliza esses conceitos. Elabore um 
pequeno texto em seu caderno explicando em que contexto histrico surgiu essa forma de dividir o espao mundial e por que ela no  vlida para o mundo atual.

45
A corrida armamentista

  Ao trmino da Segunda Guerra Mundial, a Unio Sovitica e os Estados Unidos haviam se tornado as duas maiores mquinas de guerra do mundo, porm com perfis bem 
diferentes. A Unio Sovitica possua um exrcito poderoso e era praticamente imbatvel nas guerras convencionais. Os Estados Unidos, por sua vez, sabiam fabricar 
bombas atmicas e tinham provado a terrvel eficcia dessa tecnologia, em 1945, no encerramento da guerra contra o Japo. Certamente no se tratava de uma situao 
equilibrada: a bomba atmica  muito mais destrutiva do que os armamentos convencionais. Com o incio da Guerra Fria, a Unio Sovitica teve de correr contra o tempo 
para tambm dominar a tecnologia do tomo.
  E foi exatamente o que os militares soviticos fizeram. Em 1949, realizaram seu primeiro teste nuclear, anunciando ao mundo que tambm dispunham da capacidade 
de matar e mutilar centenas de milhares de pessoas em um nico ataque. A corrida armamentista entre as superpotncias havia comeado para valer. Felizmente, o poderio 
atmico sovitico jamais foi utilizado e as bombas norteamericanas sobre o Japo permanecem como o nico exemplo histrico da enorme capacidade tecnolgica desenvolvida 
pela humanidade para destruir a si mesma. 
  Em 1953, as duas superpotncias desenvolveram um tipo de armamento ainda mais poderoso: a bomba de hidrognio, cinqenta vezes mais eficaz do que a bomba atmica. 
A partir da, o confronto direto tornouse cada vez mais improvvel, pois equivaleria ao suicdio mtuo. Mesmo assim, para manter a condio de superpotncia, continuou 
sendo necessrio acumular um nmero crescente de armas, desenvolver novos tipos de satlites e foguetes de lanamento, reduzir o tamanho e aumentar a eficcia das 
bombas destruidoras. A busca por tecnologias blicas transformou a corrida armamentista em corrida espacial. Os foguetes desenvolvidos pelas superpotncias acabaram 
enviando o homem  Lua e aumentando nosso conhecimento acerca do universo (fig. 9). 

Figura 9. 

foto mostrando os Norteamericanos e russos na estao espacial Mir. A Mir ("paz", em Russo) foi lanada pela Unio Sovitica em 1986. Com o final da Guerra Fria, 
ela se tornou um ponto de apoio para misses conjuntas de diversos pases interessados nas pesquisas espaciais

  Conforme j estudamos, era preciso evitar que uma das superpotncias alcanasse uma efetiva superioridade militar, tornandose capaz de destruir o poderio nuclear 
da outra em um primeiro ataque. Nesse caso, no haveria suicdio mtuo, mas puro e simples extermnio de uma das partes. Quem fosse atacado no teria chance de revidar.
46
  Os militares norteamericanos elaboraram uma teoria para esse equilbrio de foras da Guerra Fria: tratavase de uma situao na qual os dois rivais possuam a chamada 
capacidade de dissuaso nuclear, ou seja, capacidade de resposta em caso de ataque. Assim, com a destruio mtua assegurada, ambas as partes fariam o possvel para 
evitar a guerra. No por acaso, foi instalada, em 1963, a "linha vermelha", um telefone colocando em contato direto os presidentes da Unio Sovitica e dos Estados 
Unidos: era preciso tentar solues negociadas em todas as situaes de crise. 
  Com a destruio mtua assegurada, as superpotncias mantiveram o controle sobre a guerra nuclear total, mesmo quando outros pases desenvolveram equipamentos 
nucleares. Na dcada de 1950, foi a vez do Reino Unido; na dcada de 1960, a China e a Frana tambm passaram a dispor de arsenais desse tipo (fig. 10).

Figura 10. 

          Poderio nuclear (dcada de 1960)

mapa mostrando os pases:
  Membros do Pacto de Varsvia  Unio Sovitica, RDA, Polnia, Tchecoslovquia, Bulgria, Hungria e Romnia
  Membros da Otan  Estados Unidos, Canad, Alasca (EUA), Plo Magntico do Norte, Groenlndia (DIN), Islndia, Noruega, Reino Unido, Pases Baixos, Blgica, RFA, 
Frana, Portugal, Itlia, Grcia, Turquia, Dinamarca e Espanha
  Pases com poderio nuclear prprio  Unio Sovitica, Estados Unidos, Alasca (EUA), Reino Unido, Frana e China.
  Legenda: Na dcada de 1960, todos os membros do Conselho de Segurana da ONU j haviam se transformado em potncias nucleares

  A proliferao da tecnologia nuclear pelo mundo se tornava um problema cada vez mais urgente. A idia era tentar manter o "clube nuclear" o mais restrito possvel. 
Apesar desse esforo, sabemos que Israel, ndia e Paquisto j testaram suas prprias bombas. Com o fim da Unio Sovitica, a maior parte do arsenal atmico sovitico 
ficou com a Rssia, mas pases hoje independentes, como a Ucrnia e o Cazaquisto, tambm herdaram equipamentos do gnero. A ameaa de guerra nuclear, portanto, 
continua pairando sobre nossas cabeas, e parece vir de todos os lados.
47
  Mas a questo armamentista no se resume s armas atmicas. As indstrias de armamentos convencionais expandiramse muito durante a Guerra Fria, buscando, como 
toda indstria, mercados cada vez mais amplos, principalmente porque seus produtos logo se tornavam obsoletos. Graas  venda de armas, os complexos industriais 
militares dos Estados Unidos e da Unio Sovitica livravamse das sobras e, ao mesmo tempo, justificavam a enorme quantidade de dinheiro gasto para produzilas. Alm 
disso, as superpotncias conquistavam aliados ao distribuir armas e modernizar exrcitos.
  A Guerra Fria espalhou armamentos por todos os cantos do globo, alimentando inmeros conflitos regionais, a maior parte deles nos pases pobres da frica e da 
sia. Muitos desses conflitos continuaram mesmo depois do trmino das alianas com as superpotncias - e,  claro, os combatentes no devolveram as armas. Leia mais 
sobre isso no quadro 2.

Quadro 2

          Memrias da Guerra

  O historiador britnico Eric Hobsbawm revela os resultados da Guerra Fria em uma das regies mais pobres do mundo: 
  [...] As guerrinhas que antes punham clientes de uma superpotncia contra os de outra continuaram depois que o conflito cessou, em base local, resistindo aos que 
as haviam lanado e agora queriam encerrla. [...] A Somlia, armada primeiro pelos russos, quando o imperador da Etipia estava do lado dos EUA, de
pois pelos EUA, quando a Etipia revolucionria se voltou para Moscou, entrou no mundo psGuerra Fria como um territrio devastado pela fome e em anrquica guerra 
de cls, sem nada a no ser um quase ilimitado suprimento de armas, munio, minas de terra e transporte militar. Os EUA e a ONU se mobilizaram para levar alimentos 
e paz. Isso se mostrou mais difcil do que inundar o pas de armas. (E. Hobsbawm, Era dos extremos, p. 251.)

Figura 11. 

mapa destacando a Somlia e a Etipia. A seguir, legenda
  Durante a Guerra Fria, as armas das superpotncias ajudaram a espalhar o terror e a misria nesses dois pases. Na dcada de 1990, ambos receberam ajuda humanitria 
e foras da ONU, na tentativa de solucionar seus conflitos internos, mas a situao permanece dramtica. 

 fim do quadro

48
A era das incertezas

  Quando a Segunda Guerra Mundial acabou, ficou evidente para o mundo que estava nascendo um novo sistema poltico internacional. As velhas potncias coloniais europias 
haviam perdido muito de seu prestgio e poderio para as duas superpotncias: Estados Unidos e Unio Sovitica. Nas dcadas seguintes, com a descolonizao, dezenas 
de pases independentes surgiram na frica e na sia. Esse novo sistema poltico internacional ficou conhecido como Guerra Fria.
  Com o fim da Guerra Fria, a composio de foras que comandam o sistema poltico internacional tornouse bem mais complexa, pois agora existem vrios plos de poder 
no mundo e o equilbrio entre eles no  mais assegurado pela fora destrutiva das armas (leia o quadro 3). Alis, a fora de pases como o Japo e a Alemanha resulta 
do dinamismo de suas economias: nos dois casos, a capacidade de produo conta muito mais do que a capacidade de destruio.
  Para complicar ainda mais nossa poca, muitos estudiosos afirmam que os governos - todos eles! - esto perdendo a importncia, pois existem foras cuja atuao 
independe das fronteiras que separam os pases. As empresas
49
transnacionais seriam exemplos dessas foras, uma vez que elas buscam mercados e modeobra em todos os cantos do planeta. Esses estudiosos acreditam que o que vale 
mesmo  a fora do dinheiro. Segundo eles, os grandes empresrios mandam muito mais do que os governos. Afinal, quando decidem onde vo instalar suas fbricas e 
quais estratgias usaro para vender o seu produto, eles afetam diretamente a vida de milhes de pessoas. 
  Sabemos que, na realidade, os governos ainda decidem como as empresas podem atuar em seu territrio e que eles continuam importantes. Entretanto, muitos dos principais 
desafios do atual perodo histrico, como a problemtica ambiental, a marcha acelerada da urbanizao e os movimentos culturais e religiosos, no podem ser resolvidos 
no mbito de soberania dos pases: essas questes envolvem decises e polticas que s funcionam se forem implantadas pela maioria dos outros pases do mundo. So 
esses desafios que iremos estudar ao longo deste livro. 

Quadro 3

          A Guerra do Golfo

  Durante a Guerra do Golfo (1991), os Estados Unidos deram uma demonstrao de sua indiscutvel fora militar. O estopim do conflito foi a invaso do Kuwait, pequeno 
pas da Pennsula Arbica e grande exportador de petrleo, pelo vizinho Iraque, sob o comando do presidente Saddam Hussein. Aps vrias tentativas de soluo diplomtica, 
a ONU autorizou o ataque contra o Iraque.
  Liderando uma fora internacional, os Estados Unidos dispararam seus msseis e bombas sobre Bagd, a capital. O bombardeio foi transmitido ao vivo, via satlite, 
para telespectadores do mundo inteiro. O Iraque rendeuse cerca de cinco semanas aps o incio do ataque, e at hoje no se sabe ao certo quantas centenas de milhares 
de iraquianos perderam suas vidas enquanto as cmaras focalizavam as luzes e as cores do cu. Mas os norteamericanos no puderam pagar sozinhos o custo da operao: 
tiveram de dividir a conta com seus aliados. Ao contrrio do que possa parecer, a Guerra do Golfo mostrou que os Estados Unidos no representam o nico plo de poder 
do mundo, pois nem mesmo a fora de suas armas  mantida com recursos prprios.

Figura 12. 

foto mostrando o bombardeio observado no cu de Bagd, na noite de 17 de janeiro de 1991

 fim do quadro

Passando a limpo

 1. O trecho abaixo foi extrado de uma conferncia proferida por Ronaldo Motta Sardenberg, ministrochefe da Secretaria de Assuntos Estratgicos na Universidade 
Federal de Pernambuco, encontrada no site oficial do rgo.

  Desde 1963, o Brasil assumia postura ativa na Assemblia Geral das Naes Unidas na defesa do iderio dos trs Ds - Desarmamento, Desenvolvimento e Descolonizao. 
Trs dcadas mais tarde, tive eu a oportunidade, como chefe da Misso do Brasil junto s Naes Unidas, de reafirmar o continuado e firme compromisso brasileiro 
com os trs Ds em sua verso atualizada, qual seja a do Desenvolvimento, Desarmamento e Democratizao.

  Explique com suas palavras o que significa o iderio dos trs Ds e por que ele teve de ser atualizado.

 2. Observe atentamente a propaganda abaixo: 

Figura 13. 

a propaganda mostra a foto de cinco homens e uma garrafa de cocacola. A seguir, legenda
  A propaganda afirma que "houve somente uma campanha bemsucedida de conquista do mundo"; pergunta "por que a Coca Cola teve sucesso enquanto os mais ambiciosos 
lderes da histria falharam" e, finalmente, responde: "usando a arma certa, a publicidade".

 a) com o auxlio de livros de Histria e de enciclopdias, procure saber quem so esses cinco homens;
 b) faa um pequeno texto explicando o significado dessa mensagem publicitria e relacionandoa com o que voc aprendeu neste captulo.

UNIDADE II

          Geopoltica dos Recursos 
          Naturais

 o O Greenpeace  um dos grupos ambientalistas mais conhecidos de todo o mundo. O que voc sabe sobre o movimento ambientalista? E sobre esse grupo em particular? 
Quais so os principais objetivos desse movimento?

Figura

foto mostrando algumas pessoas segurando uma faixa onde lse "Energia Nuclear voc decide". A seguir, legenda
  Manifestao do Greenpeace na Usina Nuclear de Angra dos Reis (RJ), em novembro de 1994.

 o Os desertos so, a princpio, resultantes de processos naturais. Porm muitas atividades humanas podem provocar a expanso dos desertos. Quais so essas atividades? 
Em que regies do mundo o processo de desertificao est ocorrendo?
51
 o Voc sabe o que  biodiversidade? Por que esse tema  to discutido nas reunies da ONU?
 o As duas fotos retratam formas diferentes de se realizar a atividade pesqueira. Quais as diferenas entre elas?

a primeira foto mostra pescadores em Cambori (SC). A segunda, mostra um barco pesqueiro na costa do Canad

  A devastao ambiental, a possibilidade de esgotamento de muitos recursos naturais, assim como os diversos interesses envolvidos nessas discusses so questes 
centrais do mundo contemporneo e compem a "Geopoltica dos recursos naturais", tema desta unidade. Em "A questo ambiental e a cidadania", prximo captulo, vamos 
discutir como isso afeta a qualidade da nossa vida e como as pessoas se organizam para buscar um ambiente mais saudvel para todos ns. O captulo 5, "Os tratados 
internacionais sobre o ambiente", apresenta a pluralidade de posies de vrios governos em relao  problemtica ambiental. Finalmente, em "A conquista dos mares", 
captulo 6, abordaremos os impactos das atividades humanas nos ambientes marinhos.

               oooooooooooo
52

Captulo 4 

          A Questo Ambiental e a 
          Cidadania

  Poluir e devastar o planeta equivale a sujar nossa prpria casa. Felizmente, um nmero cada vez maior de pessoas no mundo inteiro pensa dessa forma e se preocupa 
com o ambiente em que vivemos. Porm as atitudes ainda no mudaram e continuamos a assistir a cenas que causam tristeza e preocupao, como a retratada na figura 
1.

Figura 1.

foto mostrando um trecho do Rio Tiet, em Barra Bonita (SP), em 1996. A espuma que se espalha sobre as guas  resultante dos resduos industriais lanados no rio

  A devastao do patrimnio ambiental, por meio do uso intensivo dos recursos naturais, no ocorre do mesmo modo em todo o planeta. Os pases mais ricos so os 
maiores responsveis pelos problemas ambientais que enfrentamos. Afinal, apesar de abrigarem apenas 20% da populao mundial, eles consomem 80% dos recursos energticos 
e naturais do planeta, alm de gerar muito mais sujeira e poluio do que os pases mais pobres. Veja um exemplo no quadro 1. 
  Muitos ambientalistas criticam o modelo de produo e consumo dos pases ricos, considerandoo insustentvel. Imagine como ficaria a Terra caso toda a humanidade 
adotasse os padres mdios de consumo da populao dos Estados Unidos, por exemplo! Certamente no haveria recursos naturais suficientes para produzir mercadorias 
para todos.

Quadro 1

          Quem paga a conta do consumo?

  Um quinto da populao mundial, que vive em pases de renda mais elevada, contribui em 53% para as emisses de dixido de carbono que conduzem ao aumento do aquecimento 
da atmosfera em nvel mundial. O quinto da populao mais pobre contribui s com 3%, mas vive nas comunidades mais vulnerveis s inundaes costeiras. O aumento 
de 1 metro no nvel do mar, devido ao aquecimento global da atmosfera, poderia causar a reduo de 17% da superfcie de Bangladesh, ainda que esse pas seja responsvel 
por apenas 0,3% das emisses mundiais. (PNUD, Relatrio de desenvolvimento humano 1998.)
 fim do quadro
 
53
  Alm de servir a apenas parte da humanidade, esse modelo de produo e consumo acarreta muitos problemas ambientais. Vamos estudar os mais relevantes e ver tambm 
como se organiza o movimento ambientalista, isto , como as pessoas tm conseguido lutar para manter as condies necessrias  vida humana na Terra.

Os problemas ambientais

  Os problemas ambientais que afetam o planeta so muito diversos. A poluio do ar e da gua, o avano da desertificao, a chuva cida, o lixo e a falta de gua 
potvel, por exemplo, afetam direta ou indiretamente a qualidade de vida das pessoas no mundo inteiro. Os chamados acidentes ecolgicos  como o derramamento de petrleo 
no mar e o vazamento de resduos qumicos e nucleares  tm um enorme impacto sobre o ambiente, podendo causar muita destruio em um pequeno intervalo de tempo.

A poluio do ar e da gua

  A poluio do ar ocorre principalmente devido  atividade industrial e ao lanamento, na atmosfera, de gases produzidos pela queima de combustveis fsseis (como 
o petrleo e o carvo), que so expelidos dos motores de automveis, caminhes etc. Verifique no quadro 2 os inmeros problemas de sade causados pela poluio do 
ar.

Quadro 2

Poluio do ar e sade

 Poluentes: xidos sulfricos (SOx e SO;) e nitrogenados
 Fontes: Queima de combustveis fsseis (carvo e petrleo) no processo industrial e em veculos motorizados.
 Problemas de sade: Danos aos pulmes e s vias respiratrias.
 
 Poluentes: Monxido de carbono (CO)
 Fontes: Veculos motorizados (gasolina e diesel).
 Problemas de sade: Debilita a capacidade do sangue de transportar o oxignio para o pulmo. Afeta os sistemas cardiovascular, nervoso e pulmonar.

 Poluentes: Compostos orgnicos
 Fontes: Veculos motorizados (principalmente a lcool) e indstrias.
 Problemas de sade: Podem causar mutaes e cncer.

 Poluentes: Oznio
 Fontes:  um poluente secundrio, ou seja, resulta da reao qumica entre xidos de nitrognio (NOx) e compostos orgnicos na presena de luz solar.
 Problemas de sade: Irritao dos olhos e congesto nasal. Reduo das funes do pulmo. Diminuio da resistncia a infeces.

 Poluentes: Material particulado
 Fontes: Queima incompleta de combustveis e de seus aditivos no processo industrial. Veculos (principalmente a diesel). Poeira do solo.
 Problemas de sade: Devido ao seu tamanho minsculo, pode atingir os alvolos pulmonares. As partculas emitidas por veculos a diesel tm potencial de causar cncer 
e mutao. Provoca alergias, asma e bronquite crnica.
 fim do quadro

 
54
  A poluio atmosfrica traz tantos males  sade que, nas regies industriais e nas grandes cidades (como a da figura 2), as internaes hospitalares aumentam 
nos dias subseqentes  elevao de seus ndices. Crianas de at 5 anos de idade e idosos (mais de 60 anos) esto entre os mais atingidos, pois so mais sujeitos 
a infeces no aparelho respiratrio causadas pela inalao de material particulado e gases.

Figura 2. 

foto da vista geral da avenida Brasil, uma das principais vias de acesso ao Rio de Janeiro (RJ), em 1996. A espessa camada de poluio encobre parcialmente as belas 
matas localizadas nas encostas dos morros, ao fundo da foto

  A combinao de gases emitidos pela queima de combustveis fsseis nos veculos automotores (principalmente xidos de nitrognio e dixido de enxofre) com a gua 
das chuvas gera um fenmeno altamente poluidor, conhecido como chuva cida, que compromete as lavouras, as florestas (fig. 3) e a vida aqutica, alm de corroer 
edificaes e esttuas. Os monumentos histricos de Atenas (Grcia) e de Roma (Itlia), por exemplo, tm sido duramente afetados pela acidez das chuvas.

Figura 3. 

foto mostrando a Serra do Mar, em Cubato (SP), em 1981. Devido  chuva cida, as rvores ficaram parecendo "palitos", pois perderam as folhas

  A chuva cida no atinge apenas os lugares nos quais os gases foram emitidos. Devido  ao dos ventos, as precipitaes com elevado teor de acidez podem ocorrer 
em reas muito distantes das fontes poluidoras. O mapa da figura 4 mostra as reas mais afetadas pela chuva cida no mundo.

Figura 4. 

          Principais reas de ocorrncia de chuva cida no mundo

mapa mostrando as reas afetadas pela chuva cida. A seguir, legenda 
  Grande parte do territrio europeu e todo o leste da Amrica do Norte so afetados pela chuva cida. No Brasil, esse fenmeno atinge parte da costa leste.

  Para reduzir os nveis de poluio atmosfrica, os pases ricos j aprovaram, h muito tempo, leis que obrigam suas indstrias a diminuir a emisso de poluentes 
no ar. Empresas sediadas nesses pases, principalmente nos Estados Unidos e no Japo, desenvolveram sistemas altamente dispendiosos, que filtram o ar poludo pela 
produo industrial, antes de lanlo no ambiente. Como a legislao ambiental est se tornando rigorosa tambm nos pases mais pobres, essas empresas vendem sua 
tecnologia para vrias regies do globo. Controlar a poluio do ar virou um bom negcio.
  Leis severas tambm ajudam a diminuir a poluio resultante da queima de combustveis fsseis (com destaque para a gasolina e o leo diesel) nos motores de carros, 
nibus e caminhes em algumas das grandes metrpoles mundiais. Os fabricantes de automveis foram obrigados a instalar filtros nos escapamentos dos veculos novos. 
Entretanto, ainda  muito elevado o nmero de carros e caminhes que circulam sem esses equipamentos.
  Veculos com motores desregulados despejam maior quantidade de gases txicos na atmosfera. Por isso, no Mxico e no Brasil, por exemplo, foram criados programas 
de inspeo de motores: os donos de veculos devem levlos a um rgo competente uma ou mais vezes por ano para medir os gases que saem dos motores. Se o volume 
de gases txicos despejado for maior do que o previsto pelo fabricante, o dono do veculo  multado e tem um prazo para regular o seu motor.
  Em algumas cidades do mundo, os governantes adotaram o rodzio como forma de reduzir a poluio do ar. Essa medida, que tambm ajuda a melhorar o trnsito, consiste 
em proibir a circulao de uma parcela dos veculos automotores pelas ruas da cidade, combinando o nmero final da placa com o dia da semana. Ela foi aplicada inicialmente 
na Cidade do Mxico, a mais poluda do mundo, onde diariamente cerca de um tero da frota de automveis  proibida de circular. Em Santiago do Chile, a medida  
tomada sempre que a concentrao de poluentes na atmosfera atinge 100 miligramas por metro cbico.
56
  O governo paulista tambm costuma adotar o rodzio na regio metropolitana de So Paulo, no perodo de maio a setembro, quando os ndices de poluio do ar so 
mais elevados. Centenas de outdoors, como o da figura 5, explicam para os motoristas as razes da medida.

Figura 5. 

foto mostrando uma mensagem publicitria em um outdoor "Respeite a sua sade. Respeite o Rodsio de Carros". A seguir, legenda
  Propaganda do rodzio de carros em So Paulo (SP), em 1998. A mensagem publicitria lembra ao motorista que a sua sade tambm  afetada pela poluio expelida 
pelos veculos. 

  No  por acaso que o rodzio implementado pelo governo de So Paulo acontece nos meses mais frios. No inverno, aumentam as possibilidades de ocorrer uma inverso 
trmica, ou seja, a formao de uma camada de ar mais fria abaixo de outra mais quente (fig. 6). A camada de ar quente impede a ascenso do ar prximo  superfcie, 
dificultando a disperso dos poluentes oriundos dos motores e das indstrias. Como conseqncia, aumenta o nmero de casos de problemas respiratrios na populao.

Figura 6. 

          Inverso Trmica

esquema demostrativo. A seguir, legenda
  No inverno, o fenmeno conhecido como "inverso trmica" torna ainda mais insalubre o ambiente das grandes cidades brasileiras. 

  A prefeitura da cidade de So Paulo tem adotado um programa de rodzio parcial, que probe a circulao de uma parte da frota no chamado centro expandido, nos 
horrios de maior movimento. Esse rodzio  suspenso nos perodos de frias escolares.
  A presena de oznio junto  superfcie terrestre causa diversos problemas de sade, como vimos no quadro 2, alm de oxidar objetos metlicos. Porm a camada de 
oznio formada naturalmente na alta atmosfera, a partir de reaes dos raios solares com o oxignio, desempenha um papel fundamental para a 
57
vida humana. Ela filtra os raios ultravioletas do Sol, que podem causar inmeros problemas de sade, entre os quais se destaca o cncer de pele.
  A camada de oznio j foi parcialmente destruda, devido ao lanamento de um gs que no existia na natureza: o clorofluorcarbono (CFC), usado em geladeiras, aparelhos 
de ar condicionado e aerossis. Por isso, muitos pases assinaram acordos internacionais que visam diminuir e, se possvel, eliminar totalmente a emisso desse gs. 
Graas a esses acordos, o CFC vem sendo cada vez menos utilizado no mundo. Repare que a embalagem de grande parte dos aerossis disponveis no mercado  os desodorantes, 
por exemplo  traz a mensagem de que aquele produto no contm CFC e, portanto, no afeta a camada de oznio.
  Os chamados gases estufa tambm podem trazer problemas ambientais quando chegam  alta atmosfera. Muitos pesquisadores acreditam que o lanamento desses gases 
na atmosfera, processo acelerado a partir da Revoluo Industrial do sculo XVIII,  o responsvel pela intensificao do efeito estufa (veja as figuras 7 e 8), 
o que est provocando o aumento da temperatura mdia na superfcie terrestre. A temperatura mdia da Terra aumentou cerca de 0,5C nos ltimos cem anos.

Figura 7. 

grfico demostrativo da participao dos gases no efeito estufa
  Dixido de carbono: 61% 
  Metano: 15%
  CFC: 11%
  xido de nitrognio: 4%
  Outros: 9%
  Legenda: o dixido de carbono, produzido a partir da queima de combustveis fsseis e de vegetao,  o principal entre os gases estufa.

Figura 8. 

esquema demostrativo do efeito estufa. A seguir, legenda
  Os gases estufa absorvem o calor solar e impedem boa parte de sua reemisso para a atmosfera. O aumento da concentrao desses gases pode levar a um aquecimento 
do planeta.

58
  Nem todos concordam com essa tese. Seus opositores argumentam que esse aumento da temperatura resulta de processos naturais.
  Apesar das diferenas de opinio entre os especialistas,  fato que a Terra est ficando mais quente e que isso pode causar catstrofes, como o derretimento das 
calotas polares e a elevao do nvel do mar, alm de inviabilizar, por exemplo, o aproveitamento de reas atualmente utilizadas para produzir alimentos, como o 
trigo, a soja e a batata.

Atividade 1

          Poluio do ar

  A SOS Mata Atlntica (1) veja a pgina 177 lanou uma campanha para alertar a populao sobre a poluio do ar nos municpios paulistas, que consistia em induzir 
a populao a fazer uma experincia para comprovar a gravidade da situao. Repita essa experincia para conhecer a poluio do ar no municpio em que voc vive. 
 simples.
  Providencie um pedao de pano branco de cerca de 1 metro. Pendure metade do pano para fora de uma janela de sua casa; a outra metade fica presa dentro de casa. 
Aps duas semanas, retire o pano e compare a parte que ficou para fora com a que ficou dentro de sua residncia. Faa um relatrio de sua experincia, apresentando 
suas concluses.

A poluio da gua

  A gua  um recurso natural vital para a humanidade. Apesar de ser encontrada em grande quantidade em nosso planeta, menos de 3% do total  doce. Alm disso, dessa 
pequena porcentagem, trs quartos encontramse congelados, na forma de geleiras, e outra parte importante est infiltrada no solo, formando os reservatrios naturais 
de gua. Os lagos, rios e pntanos totalizam apenas 0,5% da gua doce do planeta.
  A poluio da gua, que reduz a possibilidade de uso desse precioso recurso, ocorre de diversas maneiras. Uma delas  a chuva cida, que leva resduos txicos 
para crregos, rios e lagos. Os lagos do Canad, por exemplo, recebem poluentes provenientes das indstrias dos Estados Unidos.
  O uso constante de agrotxicos e o descarte incorreto do lixo tambm resultam em poluio. Os defensivos agrcolas penetram no solo, atingindo nveis mais profundos 
at chegar aos aqferos (fig. 9), que acumulam a gua subterrnea.

Figura 9. 

          Aqferos

esquema demostrativo. A seguir, legenda
  Os aqferos so depsitos subterrneos nos quais a gua fica confinada.

  Os depsitos de lixo concentram metais e produtos qumicos, como os fluidos altamente poluidores que escorrem de pilhas eletroqumicas, por exemplo. J os materiais 
orgnicos  restos de alimento, papel etc., que poderiam ser separados e transformados em adubo para a agricultura , formam o chorume, um lquido denso, malcheiroso 
e tambm poluidor, que penetra no solo e atinge o lenol fretico. Para evitar isso,  preciso impermeabilizar o solo e construir canais especiais de drenagem e 
eliminao do chorume.
  Os depsitos de lixo devem ser cobertos por terra para impedir que moscas, mosquitos, baratas, ratos, cachorros etc. entrem em contato com os resduos e depois 
transmitam doenas aos seres humanos.
59
  O lixo oriundo de hospitais e unidades de sade (clnicas, laboratrios, farmcias etc.), conhecido como lixo hospitalar, deve receber um tratamento especial, 
pois contm grandes quantidades de agentes patognicos (vrus e bactrias). Sua manipulao requer cuidados especiais, de modo a evitar o derramamento do material 
e o contato direto dos trabalhadores envolvidos.
  O lixo hospitalar deve ser acondicionado na origem em sacos plsticos especiais, de cor branca leitosa, transportado para depsitos diferenciados e incinerado. 
Outra forma de tratlo  pelo processo chamado microondas, que elimina os agentes patognicos por aquecimento, sem necessidade de queimar o material. Sem esses cuidados, 
que nem sempre so observados, o risco de contaminao por meio do lixo hospitalar  muito alto.
  Os cemitrios tambm so uma fonte poluidora de gua. A decomposio dos corpos enterrados origina um lquido denso, parecido com o chorume, altamente poluidor 
e contagioso, pois contm agentes patognicos. Para evitar que esse lquido penetre no solo,  preciso construir tmulos impermeabilizados, o que nem sempre ocorre.

A desertificao e a perda de solo

  Desertificao  a degradao dos ambientes naturais pela perda de sua cobertura vegetal e conseqente reduo da quantidade de gua, devida  ao humana. A cobertura 
vegetal gera sombra e protege o solo da insolao (2) direta, diminuindo a evaporao da gua. Alm disso, na presena de vegetao, uma quantidade maior das guas 
de chuva penetra no subsolo.
60
  O desmatamento, a utilizao intensiva do solo, a pecuria e a agricultura praticados sem cuidados ambientais podem provocar a desertificao.
  A introduo de prticas agrcolas sem cuidados tcnicos ocasiona o desgaste excessivo e a perda dos nutrientes do solo, constituindo outro fator desencadeador 
da desertificao. Da mesma forma, se um criador de gado mantiver seu rebanho pastando sempre na mesma rea estar colaborando para o avano da desertificao. O 
pisoteio do gado compacta o solo, impedindo o crescimento de novas plantas.
  Em 1994, a ONU estabeleceu a Conveno das Naes Unidas da Luta contra a Desertificao nos Pases Gravemente Afetados pela Seca e/ou pela Desertificao, que 
busca criar mecanismos de cooperao entre os pases para evitar o avano desse problema que ocorre em vrias partes do mundo, como indica o mapa da figura 10.

Figura 10. 

          Desertificao no Mundo

mapa mostrando regies com reas totalmente desertas e reas sujeitas  desertificao: Califrnia, Atacama, Patagnia, Saara, Kalahari, Somlia, Arbia, Ir, Turcomenisto, 
Thar, Gobi e Australiano. A seguir, legenda
  Calculase que o Deserto do Saara (rea 4 do mapa) no livro em tinta esteja aumentando cerca de 100 mil hectares por ano, principalmente devido  utilizao agrcola 
intensiva de faixas de terras situadas em seus limites meridionais. 

  A perda de solo decorre diretamente de uma prtica agrcola inadequada, combinada com o uso intensivo de agrotxicos. So toneladas que se perdem anualmente, carregadas 
pelos ventos ou pelas chuvas para os rios e mares. O resultado  a eroso (fig. 11), principalmente em pases de clima tropical mido, como  o caso do Brasil. As 
intensas chuvas entram em contato com a superfcie descoberta, arrastando as camadas superficiais do solo, justamente as mais frteis, para os rios. A deposio 
de solo no fundo de um rio, ou seja, o assoreamento, por sua vez, diminui a rea de escoamento, torna mais lenta a vazo das guas e provoca a morte de vrias espcies 
aquticas.

61

Figura 11. 

foto mostrando parte de um terreno tomado pela eroso. A seguir, legenda
  Eroso em Botucatu (SP), em 1995. O manejo inadequado dos solos e a ao de fortes chuvas de vero produziram esse estrago.

Os acidentes ecolgicos

  A problemtica ambiental ganha destaque na imprensa sempre que acontece um acidente ecolgico, pois o assunto atrai a ateno do grande pblico.
  Um dos primeiros acidentes ecolgicos de repercusso internacional ocorreu na Blgica, em 1930, quando uma imensa e espessa nuvem de poluentes cobriu o Vale do 
Rio Meuse, ento uma rea industrializada. Aps cinco dias de sofrimento da populao, decidiuse paralisar a produo industrial. Passados alguns dias, o ar melhorou, 
provando que a poluio estava diretamente associada  emisso de resduos industriais.
  Outro caso grave aconteceu em Londres (Inglaterra), em 1952. O lanamento de material particulado e de gases tornou o ar da cidade irrespirvel por quatro dias, 
gerando muitos problemas respiratrios, fatais em alguns casos, na populao.
  No Brasil, problemas semelhantes ocorreram inmeras vezes, principalmente em Cubato (SP), importante plo petroqumico, onde, ao longo das dcadas de 1970 e 1980, 
uma das conseqncias mais srias da poluio ambiental foi o nascimento de bebs sem crebro, problema ocasionado pela inalao de ar extremamente poludo por mulheres 
grvidas.
  Os mais graves acidentes ecolgicos j registrados tiveram origem em vazamentos de radiao nuclear, que geram impactos ambientais de curto, mdio e longo prazos. 
Esse foi o caso de 
 Chernobyl (Ucrnia), em 1986, quando explodiu um reator de uma usina nuclear (fig. 12). De imediato, morreram trinta pessoas. Foi preciso evacuar toda a populao 
da cidade, mais de 100 mil pessoas. Mas os problemas no pararam a: a radiao, transportada pelo vento, atingiu uma 
62
grande rea do continente europeu. A agricultura e a pecuria praticadas nessa rea ficaram contaminadas pela radiao, gerando enormes prejuzos aos produtores 
locais.

Figura 12.

foto da vista area da Usina Nuclear de Chernobyl, em 1991, cinco anos aps o acidente. O reator foi isolado com chumbo para conter a radiao nuclear

  No Brasil j houve um incidente envolvendo radiao nuclear. Ele ocorreu em Goinia, em 1987, quando parte de um aparelho hospitalar foi parar em um ferrovelho. 
O equipamento chamou a ateno de algumas pessoas, que o tocaram e se contaminaram pelo csio97, um elemento qumico radioativo que estava no equipamento. Apesar 
de a rea ter sido isolada, dezenas de pessoas da cidade foram contaminadas.
  Vazamentos de petrleo tambm ocasionam impactos ambientais devastadores, principalmente quando acontecem no mar, como estudaremos no captulo 6.

Atividade 2 

          Desastres ambientais

  Durante duas semanas, pesquise em jornais, revistas e telejornais sobre desastres ambientais. Em grupo, monte um dossi que ser discutido em sala de aula.

O movimento ambientalista

  As primeiras organizaes ambientalistas surgiram nos Estados Unidos, no final do sculo XIX, com o objetivo de reunir pessoas para lutar pela manuteno de reas 
naturais. Seus integrantes pretendiam evitar a destruio total das florestas, devastadas inicialmente pelo avano da colonizao e, depois, pela expanso das cidades 
e dos campos de cultivo no interior do pas. Como resultado dessa iniciativa, foram criados parques nacionais, como o da figura 13.

Figura 13. 

foto mostrando o Parque Nacional de Yellowstone, em 
  Wyoming (Estados Unidos). Dos seus famosos giseres afloram jatos de gua quente vinda do interior da Terra

  O movimento pacifista, que divulga a paz como objetivo maior da humanidade, ajudou a formar o novo ambientalismo. Mahatma Gandhi, lder indiano que, em meados 
da dcada de 1940, pregou a independncia da ndia sem o emprego da violncia contra os britnicos, foi uma das principais lideranas do pacifismo.
63
  No final da Segunda Guerra Mundial, milhes de pessoas estavam alarmadas com o poderio destruidor das bombas atmicas e com a possibilidade da guerra nuclear. 
Essa preocupao reforou o movimento pacifista, que conquistou muitos novos adeptos. 
  Na dcada de 1960, o pacifismo ganhou importncia na Alemanha dividida, ento duplamente ameaada: os msseis nucleares estavam apontados para ela e seu territrio 
alojava artefatos nucleares. Uma parcela significativa da populao da Alemanha Ocidental se organizou para lutar contra a presena dessas armas no territrio alemo. 
Muitos grupos ambientalistas do pas tiveram origem nessas organizaes pacifistas.
  O avano do movimento ambientalista alemo permitiu a organizao do Partido Verde, que chegou ao governo alemo em 1998, numa coalizo com outros partidos. Conhea 
um dos lderes desse partido na figura 14.

Figura 14.

foto mostrando o lder do Partido Verde Alemo, Joschka Fischer, e o primeiroministro alemo Gerhard Schroeder, em foto de 1998. Os "verdes" da Alemanha reivindicam 
a desativao de todas as usinas nucleares instaladas no pas

  Outra fonte de inspirao do ambientalismo foi a contracultura, um movimento que ocorreu em muitos pases, mas principalmente nos Estados Unidos, na dcada de 
1960. Seus militantes negavam os valores da sociedade de consumo e propunham novos comportamentos, novas maneiras de viver, e, nos Estados Unidos, se opuseram a 
participar da guerra contra o Vietn, iniciada na dcada de 1960 e encerrada nos primeiros anos da dcada seguinte. A liberao sexual e a exploso do rock como 
msica de jovens, muitas vezes reunidos em grandes festivais (fig. 15), foram tambm seus produtos.

Figura 15. 

foto mostrando uma multido. A seguir, legenda
  Festival de Woodstock, realizado em uma fazenda perto de Nova Iorque, em agosto de 1968. Ao longo de trs dias e trs noites, bandas de rock revezaramse no palco 
com manifestantes que pregavam a liberdade e a paz para todos.

64
  A principal contribuio da contracultura para o ambientalismo foi a retomada das comunidades alternativas. Negando a sociedade de consumo, muitas delas radicalizaram 
e abandonaram as cidades, passando a viver no campo, onde produziam seus prprios alimentos. Estava lanada a semente que, anos mais tarde, viria formar a ecologia 
profunda, que estudaremos adiante.
  A crise do petrleo de 1973 tambm contribuiu para despertar a populao mundial para os problemas ambientais. Pela primeira vez, grande parte dela teve acesso 
a informaes sobre problemas ligados  escassez de um recurso vital para o funcionamento da economia internacional.

Atividade 3 

          Os anos rebeldes

  Entreviste pessoas que viveram sua juventude na dcada de 1960, os anos da contracultura. Procure conhecer suas opinies sobre o movimento e saber se elas foram 
influenciadas por esse movimento e de que maneira. Escreva um texto relatando os resultados do seu trabalho.

Preservacionismo versus conservacionismo

  O movimento ambientalista passou por alteraes significativas desde o seu incio. Em seu interior, surgiram correntes antagnicas, que acreditam em propostas 
diferentes para garantir as condies da manuteno da vida humana na Terra.
  A principal diferena entre as correntes ambientalistas diz respeito ao tratamento dos ambientes naturais. De um lado, existem os preservacionistas, que acreditam 
que eles devem ficar intactos, sem nenhum tipo de interveno humana. De outro lado, esto os conservacionistas, que propem a utilizao dos recursos naturais, 
porm de maneira menos impactante, de modo a no colocar em risco a nossa existncia.
  O debate no se encerra a. A presena humana em uma unidade de conservao, como so chamadas as reas delimitadas para manter o ambiente natural,  outro ponto 
de discrdia. Nesse caso, os preservacionistas so radicais e defendem a remoo das pessoas dessas reas, mesmo as que vivem h muito tempo nelas. J os conservacionistas 
acreditam que, se uma comunidade conseguiu viver tanto tempo sem afetar muito o ambiente onde se instalou, no h justificativa para retirla.

Atividade 4 

          Identificando bandeiras

  Identifique expresses preservacionistas e conservacionistas veiculadas em material de propaganda da causa ambiental (como 
 slogans divulgados em camisetas, adesivos, cartazes etc.). Anote as frases encontradas. Faa um relatrio apontando as diferenas entre as principais bandeiras 
desses movimentos.

65

Ecologistas profundos versus desenvolvimentistas

  Outra discusso que assistimos no interior do movimento ambientalista envolve os ecologistas profundos (ou radicais) e os desenvolvimentistas.
  Os ecologistas profundos ou radicais, como gostam de ser chamados, pregam o abandono do modo de vida baseado no consumismo, ou seja, lutam pela construo de um 
sistema alternativo de sociedade, no qual se respeite a dinmica dos ambientes naturais. A produo de mercadorias em escala crescente , para eles, responsvel 
pela devastao ambiental da Terra. Defendem, portanto, a mudana do modelo de desenvolvimento econmico, argumentando que os recursos naturais no so suficientes 
para prover todos os seres humanos com os objetos criados pela sociedade de consumo. Propem, como alternativa, um modo de vida voltado para o atendimento das necessidades 
bsicas da espcie humana, como reproduo, moradia, alimentao e vida em sociedade.
  Os ecologistas desenvolvimentistas acreditam que a superao da crise ambiental depende dos avanos da cincia e tecnologia que possibilitam limpar e despoluir 
o planeta. Eles no se preocupam tanto com a escassez dos recursos naturais, pois acreditam que a produo de novos materiais, incorporando recursos naturais que 
ainda no so usados por ns,  apenas uma questo de custo e de conhecimento. 
  Segundo os desenvolvimentistas, quando valer a pena explorar outras fontes energticas ou de matriaprima, os produtores o faro. Essa corrente de pensamento, 
tambm conhecida como ecocapitalista, entende que no  necessrio alterar o modelo vigente, mas sim ajustlo, de forma a permitir a continuidade do desenvolvimento 
econmico, mesmo aps o esgotamento de recursos naturais hoje considerados essenciais, como o petrleo e o carvo. 
  Os desenvolvimentistas possuem muitos aliados entre os empresrios.  que novas oportunidades de negcios surgiram e tm se expandido com a crescente preocupao 
com o ambiente, como a produo de filtros para indstrias, de equipamentos antipoluio, de sistemas de tratamento de dejetos industriais etc. 

A Rio92 e o Frum Global

  Paralelamente  Conferncia das Naes Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, conhecida como Rio92 ou Eco92, realizada no Rio de Janeiro em 1992, os 
ambientalistas organizaram o Frum Global (fig. 16, pg. 66) no livro em tinta, um evento que reuniu durante quinze dias mais de 3 mil organizaes nogovernamentais 
(ONGs) de todo o mundo, envolvendo milhares de participantes.

Figura 16. 

foto mostrando vrias pessoas no portal de acesso ao Frum Global, organizado por ONGs de todo o mundo em 1992, no Rio de Janeiro. Por meio desse evento, as ONGs 
mostraram que a problemtica ambiental no  assunto exclusivo dos governos, mas implica o conjunto da sociedade

  O Frum Global nasceu como uma tentativa de pressionar a reunio promovida pela ONU. Os ambientalistas no gostaram da pauta da Conferncia, que tratava basicamente 
da biodiversidade e das mudanas climticas. No Frum, eles promoveram seminrios para debater outros temas: desarmamento, pobreza, consumo e estilo de vida, a questo 
nuclear, pesca etc. No final desse encontro, as organizaes participantes 
66
assinaram duas declaraes gerais, que sero abordadas no captulo 5, alm de um tratado para cada tema discutido.
  A Rio92 foi responsvel por uma melhor organizao das ONGs. Foi criado um Frum de ONGs Brasileiras Preparatrio para a RIO92, que chegou a reunir mais de 2 mil 
organizaes do gnero. Depois da reunio do Rio, conseguiuse estabelecer um Frum de ONGs Brasileiras permanente, que tem representado a sociedade civil do pas 
em diversas reunies internacionais. Diversas correntes do movimento 

ambientalista do pas esto representadas nesse Frum.

Atividade 5 

          Conhecendo uma ONG ambientalista

  Visite, em grupo, uma entidade ambiental de seu municpio. Procure saber: 

 a) quando foi fundada; 
 b) quantos scios possui; 
 c) como arrecada recursos; 
 d) quais so as suas principais frentes de luta; 
 e) quais as maiores dificuldades que enfrentam para alcanar seus objetivos; 
 f) se produzem publicaes (jornais, boletins, revistas etc.) e quais.
  Ao final, faa com seu grupo um relatrio ilustrado contando a histria da entidade.

Passando a limpo 

  Faa um cartaz ilustrado que sintetize as posies de cada um dos segmentos do movimento ambientalista apresentados neste captulo.

Notas de rodap

 (1) SOS Mata Atlntica  ONG (organizao nogovernamental) criada para mobilizar a populao e sensibilizar o poder pblico para que este tome medidas que evitem 
a devastao do que resta da Mata Atlntica brasileira, mas que participa de muitas outras frentes de luta do movimento ambientalista.
 (2) Insolao  Incidncia de luz solar.

               oooooooooooo
66

Captulo 5

          Os Tratados Internacionais Sobre o Ambiente

  Os impactos causados no ambiente por fontes poluidoras ou pelos acidentes ecolgicos no respeitam as fronteiras polticas internacionais. Em muitos casos, eles 
atingem um grande nmero de pases ou mesmo todo o planeta. 
  Para tentar impedir que um pas crie problemas ambientais em outro e para buscar mecanismos que evitem a degradao do patrimnio ambiental do globo, j foram 
elaborados muitos tratados internacionais sobre o ambiente. Os primeiros visavam proteger espcies animais ameaadas pela caa predatria. 
  Com o avano da industrializao e da urbanizao em muitos pases do mundo, os problemas ambientais multiplicaramse e foram necessrios acordos internacionais 
sobre novos temas, como o da poluio do ar e dos oceanos.

Os primeiros tratados

  No sculo XIX, quando as potncias da Europa colonizaram vastas regies do territrio africano, seus colonos passaram a praticar nelas a caa em larga escala. 
Datam dessa poca os primeiros safris, expedies de caa a animais, que representavam tanto uma forma de diverso quanto uma importante fonte de recursos para 
os que deles participavam.
  No primeiro caso, a caa visava unicamente promover concursos que testavam a habilidade de atirar de colonos.  verdade que essa prtica era comum em seus pases 
de origem, principalmente no Reino Unido. Porm, naquele pas, s os donos de terras tinham autorizao para caar. Na frica, um nmero muito maior de pessoas pde 
"divertirse" com a caa esportiva, abatendo uma infinidade de pssaros e muitos outros animais. 
  As razes econmicas tambm foram relevantes para ameaar as espcies que viviam no continente africano. Nesse caso, o destaque fica para a caa aos elefantes, 
pois o marfim de suas presas tinha enorme valor comercial para os europeus. Alm disso, os grandes mamferos, como os lees, por exemplo, tinham suas peles transformadas 
em objeto de decorao de residncias, como voc pode ver na figura 1.

Figura 1.

foto mostrando uma casa com vrias cabeas de animais pinduradas na parede, no cho muitas peles, sentado no sof um homem segura a cabea de um animal. A seguir, 
legenda
  Casa de fazenda no Texas (Estados Unidos). Parece um cemitrio de animais selvagens.

  Com o passar dos anos, os europeus perceberam que estava cada vez mais difcil encontrar animais para caar. Por isso, propuseram um tratado para regularizar a 
atividade: a Conveno para a Preservao de Animais, Pssaros e Peixes da frica. O documento foi assinado em 1900, em uma reunio em Londres, promovida pela Alemanha, 
Blgica, Frana, Reino Unido, Itlia e Portugal. O objetivo primordial era impedir a extino de espcies animais, de forma a garantir a continuidade da caa no 
futuro. A principal deciso da Conveno foi a criao de um calendrio para essa prtica.
  Dois anos aps essa primeira conveno internacional, surgiu a Conveno para Proteo dos Pssaros teis  Agricultura. Dessa vez, o objetivo era evitar a matana 
de aves que ajudavam a prtica agrcola, fosse transportando sementes, fosse produzindo material para adubar a terra.
  Em 1933, por iniciativa do Reino Unido, a proteo de animais e aves de caa voltou a ser discutida pelas potncias coloniais europias que possuam domnios na 
frica. Elas firmaram um novo acordo, a Conveno para a Preservao da Fauna e Flora em seu Estado Natural. A importncia desse acordo reside no fato de que, pela 
primeira vez em escala internacional, decidiuse criar parques naturais, onde a caa seria absolutamente proibida. A idia preservacionista foi importada dos Estados 
Unidos, que,  como vimos no captulo 4, em 1872 haviam criado o primeiro parque nacional do mundo, o Parque Nacional de Yellowstone. Tratavase de mais uma tentativa 
de barrar a caa predatria no continente africano.

Atividade 1 

          Sesso de cinema

  Muitos filmes disponveis em vdeo contam histrias de safris realizados na frica. Faa um levantamento desses filmes e, junto com seus colegas, selecione um 
deles para assistir na escola. Aps a exibio do filme, discuta como eram organizadas essas expedies e os problemas ambientais originados pela caada.

69
Preservando a Antrtida

  Ambiente extico e misterioso, a Antrtida (fig. 2) imps muitos desafios a seus desbravadores. No era nada fcil chegar at l, pois os viajantes tinham de enfrentar 
icebergs e navegar em guas muito geladas.

Figura 2.

mapa destacando a Antrtida. A seguir, legenda
  A Antrtida resistiu durante sculos ao avano da sociedade urbanoindustrial pelo planeta. 

  Devido a essas dificuldades, a Antrtida permaneceu muito tempo alheia  civilizao urbanoindustrial.  exceo de alguns povos indgenas  como os Onas, que viviam 
no extremo Sul da Amrica do Sul  quase ningum conseguia penetrar naquela imensido branca.
  Como os Onas viviam na Terra do Fogo, em reas pertencentes  Argentina e ao Chile, esses pases reivindicavam o controle territorial da Antrtida. Eles alegavam 
ter chegado primeiro ao chamado continente branco, alm de serem seus vizinhos mais prximos, o que os tornavam os donos legtimos daquela parte do mundo.
  Apesar do desejo de incorporar a Antrtida a seu territrio, tanto o Chile quanto a Argentina tiveram de ceder  presso das superpotncias da poca da Guerra 
Fria. Os Estados Unidos e a Unio Sovitica estavam muito interessados em se estabelecer no extremo sul da Terra. Por isso promoveram uma reunio em Paris, em 1955, 
que ficou conhecida como Conferncia de Paris, com a participao de frica do Sul, Argentina, Austrlia, Blgica, 
70
Chile, Estados Unidos, Frana, Reino Unido, Japo, Noruega, Nova Zelndia e Unio Sovitica. Nesse encontro foi discutida a necessidade de se instalarem bases cientficas 
na Antrtida, para facilitar o desenvolvimento de pesquisas na regio. A deciso a que se chegou foi a construo da base norteamericana Amundsen
Scott e da base sovitica Vostok.
  Nessa poca, estudos realizados por astrnomos indicavam que a Antrtida era o melhor ponto de observao das exploses solares que ocorreriam na passagem de 1957 
para 1958. Em encontros cientficos, decidiuse criar o Ano Geofsico Internacional (AGI), compreendendo dezoito meses de trabalho durante 1957 e 1958.
  Aproveitando o AGI, os Estados Unidos convidaram os pases interessados na Antrtida para discutir as regras de seu acesso e ocupao. Dessas discusses resultou 
o Tratado Antrtico, assinado em 1 de dezembro de 1959, segundo o qual a Antrtida deve ser preservada de qualquer tipo de explorao econmica. Pelo Tratado, tambm, 
os membros consultivos (os que tm direito a expor sua opinio e votar as decises sobre a Antrtida) s manteriam essa condio se instalassem bases cientficas 
e ajudassem a produzir conhecimentos sobre o continente. Aps ser endossado pelos pases signatrios, o tratado entrou em vigor em 23 de junho de 1961. Veja, no 
quadro 1, quais so os pasesmembros do Tratado Antrtico.

Quadro 1

          Pasesmembros do tratado 
          Antrtico

 Pases fundadores e membros consultivos
  frica do Sul, Argentina, Austrlia, Blgica, Chile, Estados Unidos, Frana, Reino Unido, Japo, Noruega, Nova Zelndia e a Unio Sovitica (que foi substituda 
pela Rssia).

 Pases que foram aceitos como membros consultivos
  Alemanha, Brasil, China, Coria do Norte, Coria do Sul, Cuba, Espanha, Holanda, ndia, Itlia, Polnia, Peru, Sucia e Uruguai.

 Pasesmembros sem o status de consultivos
  ustria, Bulgria, Dinamarca, Equador, Eslovquia ( poca integrante da Tchecolosvquia), Finlndia, Grcia, Hungria, Papua, Nova Guin, Repblica Tcheca (ento 
parte da Tchecolosvquia) e Romnia.
 fim do quadro
 
  A partir do Tratado Antrtico, teve incio o intercmbio cientfico entre as bases instaladas no continente. Alm da troca de informaes cientficas entre os 
membros consultivos, a "diplomacia Antrtica" envolvia a ausncia de discusses sobre a diviso territorial ou sobre o aproveitamento dos recursos l encontrados, 
que eram identificados e estudados cooperativamente.
  Para manter o status de membro consultivo, cada pas deveria apresentar descobertas cientficas acerca da Antrtida at meados da dcada de 1980. Assim, foram 
criadas muitas bases cientficas no continente, como mostra a figura 3. E, conforme voc pode ler no quadro 2, o Brasil teve de se apressar para garantir a sua posio 
de membro consultivo.

Figura 3. 

mapa mostrando a localizao das bases cientficas na Antrtida: GB, ARG, BR, CHI, RUS, EUA, RAS, JAP, AUS, FRA, NZL. A seguir, legenda
  Atualmente, o continente gelado  cobiado por muitos pases, que montam bases de pesquisa para garantir sua presena na regio. 

71

Quadro 2

          O Brasil quase perdeu o 
          barco...

  At o final da dcada de 1970, o Brasil no havia produzido quase nada que o credenciasse a permanecer no seleto clube dos que decidem o destino da Antrtida. 
Para evitar a iminente perda do status de membro consultivo, pesquisadores da USP (Universidade de So Paulo), por meio do Instituto Oceanogrfico e do Instituto 
de Geocincias, entre outros, dirigiram seus estudos para o extremo sul do planeta.
  No incio da dcada de 1980, os pesquisadores brasileiros realizaram importantes descobertas sobre as bases geolgicas do continente branco e sobre o krill, um 
crustceo encontrado em abundncia na regio. Eles conseguiram chegar em tempo  Antrtida, a bordo de dois navios oceanogrficos comprados s pressas  o Professor 
Besnard e o Baro de Tef (fig. 4)  e de avies Hrcules, da FAB (Fora Area Brasileira).

Figura 4. 

foto mostrando o navio Baro de Tef, ancorado na Antrtida, em 1991. Com ele, cientistas brasileiros garantiram a presena do pas no fechado clube dos pases do 
Tratado Antrtico

  Em 1990, a USP criou o Centro de Pesquisas Antrticas, que visa estimular as pesquisas referentes ao continente branco, assim como o intercmbio entre professores 
e alunos.
 fim do quadro

72
  Em 1991, houve um encontro de membros do Tratado Antrtico realizado em Madri (Espanha). Na ocasio, alguns pases tentaram aprovar uma flexibilizao dos termos 
do Tratado, de forma a permitir, por exemplo, a explorao dos recursos minerais do continente. Porm prevaleceu o bom senso de que a preservao ainda  a melhor 
alternativa, pelo menos enquanto no se conhecerem bem as conseqncias de possveis impactos ambientais naquela poro da Terra.

Atividade 2 

          Explorando a Antrtida

  Em grupo, organize um painel ilustrado sobre a Antrtida. Para isso, orientese por revistas, jornais, livros etc. Os painis devem tratar de diversos aspectos, 
como os recursos minerais, a fauna e o trabalho realizado pelas bases cientficas. 

A participao da ONU

  A temtica ambiental integra a agenda de trabalhos da Organizao das Naes Unidas (ONU) desde a sua fundao.
  A primeira questo discutida por uma agncia da ONU foi a conservao dos solos. A prtica agrcola sem cuidados tcnicos ou com o emprego exagerado de agrotxicos 
estava destruindo os solos arveis do mundo em uma velocidade muito acelerada. A eroso levava os nutrientes do solo, roubando sua fertilidade por longos perodos, 
alm de abrir profundas ravinas (1) veja a pgina 213, que inviabilizavam o cultivo. Por sua vez, a penetrao continuada dos defensivos qumicos nas camadas do 
solo implicava a poluio dos aqferos, como vimos no captulo 4.
  Essa situao despertou a preocupao da FAO (Organizao das Naes Unidas para a Agricultura e a Alimentao), que passou a organizar eventos com a presena 
de especialistas do mundo todo para propor solues tcnicas que, pelo menos, amenizassem os problemas. Os encontros internacionais resultaram em programas de pesquisa 
de solos e de florestas tropicais, que buscavam conter a eroso e a degradao pelo uso constante de defensivos agrcolas.

A Conferncia da Biosfera

  A Unesco (Organizao das Naes Unidas para a Educao, a Cincia e a Cultura) tambm se envolveu na problemtica ambiental. Dentre suas importantes contribuies 
destacase a realizao da Conferncia da Biosfera, em 1968. Dessa reunio nasceu o Programa de Reservas da Biosfera, que previa a criao de reservas de ambientes 
relevantes em vrios pontos do planeta. Os locais foram selecionados segundo a quantidade de seres vivos que abrigavam e as caractersticas especiais que apresentavam, 
por exemplo, o fato de registrarem espcies inexistentes em outras regies do planeta.
73
  Anos depois, com a participao do Programa das Naes Unidas para o Meio Ambiente, que resultou da Conferncia de Estocolmo, foram criadas mais de trezentas reservas, 
distribudas por mais de oitenta pases. Estudos da ONU indicam que essas reservas contm pouco mais de 90% de todas as espcies vegetais existentes no planeta. 
Entretanto muitas delas foram praticamente desativadas por falta de recursos financeiros para sua manuteno.

A Conferncia de Estocolmo

   medida que crescia a preocupao com o ambiente, o tema foi ganhando destaque dentro da ONU. Um marco nesse processo foi a realizao da Conferncia sobre o 
Meio Ambiente Humano, em Estocolmo (Sucia), em 1972.
  Nessa conferncia, os debates foram bastante acirrados. Os pases ricos defenderam a tese de que a nica forma de impedir a degradao do ambiente do planeta era 
limitar os padres de produo e consumo aos nveis at ento vigentes. Isso impediria o crescimento econmico dos pases pobres, que, por seu lado, argumentaram 
que os pases ricos j tinham usado grande parte das reservas minerais e energticas do mundo, e que agora havia chegado a vez de eles tambm usufrurem do mundo 
do consumo.
  O primeiro grupo ficou conhecido como zerista, j que pregava o crescimento zero, e o segundo, como desenvolvimentista, pois acreditava que os pases pobres tinham 
direito  industrializao, ao crescimento econmico e ao desenvolvimento, mesmo que fosse preciso utilizar mais intensivamente os recursos naturais do planeta e 
se sujeitar a riscos de acidentes qumicos, como o que aconteceu na ndia (fig. 5).

Figura 5. 

foto mostrando os portes de entrada da Union Carbide, em Bophal, ndia, fechados aps o acidente ocorrido em dezembro de 1984. Um vazamento de substncias nocivas 
 sade ocorrido nessa empresa norteamericana do setor qumico causou a morte de milhares de pessoas

  Na Conferncia de Estocolmo foi proposta a criao do Programa das Naes Unidas para o Meio Ambiente, com sede em Nairbi (Qunia). Esse programa passou a coordenar 
uma srie de atividades que de alguma forma tratavam do ambiente.

74

A Conferncia sobre o Mar

  O primeiro grande encontro internacional para discutir os oceanos ocorreu em 1930. Os participantes da reunio concordavam que o oceano  uma herana comum da 
humanidade, mas desejavam continuar a extrair alimento e recursos minerais de suas guas territoriais. At ento, os pases costeiros tinham direito a 3 milhas martimas 
(5,5 quilmetros) a partir da costa.
  O avano tecnolgico passou a permitir a explorao de guas cada vez mais distantes das costas litorneas, fazendo surgir uma srie de conflitos de interesses 
entre os pases. Para tratar desse assunto foram realizadas diversas Conferncias das Naes Unidas sobre o Direito ao Mar.
  A principal delas, realizada em Montego Bay (Jamaica), comeou em 1973 e s foi concluda em 1982. Nela foram delimitadas zonas diferenciadas pelo tipo de uso 
e de explorao econmica.
  A faixa definida como mar territorial  uma zona de 12 milhas (22,2 quilmetros) a partir da costa litornea, na qual o uso e a explorao dos recursos  exclusivo 
do pas costeiro que a possui. Nessa zona, que constitui uma continuidade administrativa do territrio dos pases, a navegao, a pesca e a extrao de petrleo, 
entre outras, s podem ser efetuadas com autorizao do governo que a controla.
  Tambm foi delimitada a zona econmica exclusiva, faixa ocenica de 188 milhas nuticas a partir do limite do mar territorial. Nela, o pas detm a exclusividade 
na explorao da pesca e dos recursos energticos, porm no pode impedir a navegao internacional. As 200 milhas (370 quilmetros) do mar brasileiro correspondem 
 soma das duas faixas (fig. 6).

Figura 6. 

mapa mostrando as 200 milhas do mar brasileiro. A seguir, legenda
  Os recursos naturais da zona econmica exclusiva integram o patrimnio ambiental brasileiro. Pela Conveno das Naes Unidas sobre o Direito ao Mar, para  manter 
esse direito,  o Brasil tem a obrigao de desenvolver pesquisas a respeito desses recursos, alm de controlar a sua explorao. 

75
  Por fim, definiuse o altomar, ou seja, as guas que esto alm de 200 milhas da costa. Nessas guas, a explorao dos recursos marinhos e a pesquisa cientfica 
podem ser realizadas sem autorizao de nenhum governo.
  O fundo do mar, apesar do interesse despertado por sua riqueza e potencialidades para a explorao mineral, foi considerado patrimnio comum da humanidade e, portanto, 
rea de preservao permanente.

Atividade 3 

          Os Recursos Marinhos do 
          Brasil

  Faa uma pesquisa sobre a importncia do mar na economia brasileira. Procure informaes sobre as principais regies de pesca, a explorao de petrleo e as outras 
formas de explorao dos recursos marinhos praticadas no Brasil. Por fim, elabore um cartaz com os resultados de seu trabalho.

A Conferncia do Rio (Rio92 ou Eco92)

  A Conferncia das Naes Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em 1992, no Rio de Janeiro, ajudou a divulgar a problemtica ambiental em todo 
o mundo. Representantes de mais de 180 pases compareceram  reunio, para discutir temas como biodiversidade e mudanas climticas globais, e para traar um plano 
de ao global visando melhorar as condies ambientais da Terra (fig. 7).

Figura 7. 

foto mostrando os Chefes de Estado e representantes dos pases que participaram da Rio92 preparandose para a foto oficial da Conferncia. No centro, Fernando Collor 
de Mello, ento presidente do Brasil. Naquele mesmo ano, Collor seria afastado do governo pelo Congresso Nacional, em meio a denncias de corrupo e de uso indevido 
de recursos pblicos

  Os objetivos da Conferncia do Rio eram estabelecer as Convenes sobre Diversidade Biolgica e Mudanas Climticas e duas declaraes (a Declarao do Rio e a 
de Florestas), e propor a Agenda XXI, um programa de ao para diminuir os problemas ambientais, a ser aplicado at o ano 2000. A idia principal na Rio92 era atingir 
o desenvolvimento sustentvel,  ou seja, uma forma de desenvolvimento econmico que no colocasse em risco a sobrevivncia das geraes futuras. Leia mais sobre 
isso no quadro 3.

76
Quadro 3

          Desenvolvimento sustentvel

  O modelo econmico adotado pelos pases mais ricos do mundo consome muita matriaprima e energia. Imagine, por exemplo, quanto minrio de ferro  usado na produo 
dos milhes de carros que so montados anualmente. Esses automveis, em sua quase totalidade, usam combustveis derivados do petrleo. Como manter a produo de 
carros se tanto a matriaprima quanto o combustvel so produzidos a partir de minerais norenovveis, isto , que vo acabar?
  O Relatrio Nosso Futuro Comum, elaborado em 1987 pela Comisso Mundial de Meio Ambiente da ONU, define desenvolvimento sustentvel como "aquele que atende s 
necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as geraes futuras atenderem s suas prprias necessidades". Para produzir automveis 
de acordo com esse princpio, seria necessrio desenvolver tecnologias de construo que empregassem materiais que pudessem ser repostos. Da mesma forma, seria preciso 
usar um combustvel renovvel.
  Atualmente, j  possvel produzir carros a partir da fibra da folha de bananeira, ainda que em carter experimental. Quanto ao combustvel, o caso do lcool produzido 
a partir da canadeacar, no Brasil, ou do milho, nos Estados Unidos, seriam exemplos de sustentabilidade.
  Esse seria o caminho de um desenvolvimento sustentvel? Muita gente acha que no, acreditando que a verdadeira sustentabilidade s se realizar quando toda a populao 
mundial puder usufruir das vantagens do mundo tecnolgico no qual vivemos.
 fim do quadro
 
  A Conveno sobre Diversidade Biolgica reconheceu a importncia da manuteno de matrizes genticas (os seres vivos, como animais, plantas e microrganismos) que 
permitam o desenvolvimento de um produto. O pas detentor desse estoque seria recompensado com o repasse da tecnologia desenvolvida para o produto. Com essa deciso, 
pases como o Brasil e a Repblica do Congo, entre outros que abrigam grande diversidade biolgica (fig. 8), obtiveram uma vantagem. Entretanto, resta saber se aqueles 
que esto avanados na pesquisa de engenharia gentica e biotecnologia, mas que no possuem tanto estoque gentico, como os Estados Unidos e Japo, vo cumprir o 
que foi determinado na Conveno.

Figura 8. 

mapa mostrando os pases de megabiodiversidade: Alasca (EUA), Estados Unidos, Mxico, Venezuela, Colmbia, Equador, Peru, Brasil, Republic. Democ. Do congo, Madagascar, 
frica do Sul, China, ndia, Filipinas, Malsia, Indonsia, PapuaNova Guin e Austrlia. A seguir, legenda
  Cerca de 70% da diversidade biolgica do planeta est concentrada nos pases representados.

  O tema das mudanas climticas foi abordado na Rio92 em decorrncia das preocupaes acerca do aquecimento do planeta causado pelo lanamento de gases estufa, 
conforme estudamos no captulo 4. Ficou estabelecido no Rio de Janeiro que os pases voltassem aos nveis de 1990 no que diz respeito  emisso de gases estufa na 
atmosfera.
  Cinco anos mais tarde, na Conferncia das Partes, realizada em Quioto no Japo, foram apresentadas novas evidncias do aquecimento do planeta. Decidiuse, ento, 
pela reduo mdia de 6% em relao ao que era emitido em 1990. O prazo para que se atinja essa meta ficou delimitado entre 2008 e 2012.
  A Declarao do Rio foi um documento poltico no qual os pases reafirmaram a necessidade de manter o ambiente em boas condies para as geraes futuras. Como 
no tratou de nada prtico, foi o nico documento que chegou pronto  Rio92, sendo assinado por todos os representantes de pases participantes da reunio.
  A Declarao de Florestas diz respeito  necessidade de conservar as florestas do planeta. Porm esse documento no prev penalidades para o pas que no cumprir 
o acordo. Por isso os analistas o consideram uma carta de intenes, uma manifestao que apenas reconhece o problema mas no aponta solues.
77
  A Agenda XXI propunha, entre outros itens, o reconhecimento da importncia das comunidades locais (povos indgenas, ribeirinhos etc.) na conservao dos ambientes 
naturais, j que eles no causam grandes impactos no ambiente em que vivem. Alm disso, orientava os governos a traarem planos para recuperao de ambientes degradados 
e a envolverem todos os nveis administrativos  incluindo o municipal  na luta contra a devastao do ambiente.
  De acordo com a Agenda XXI, melhorar a qualidade ambiental do planeta, em especial nas grandes cidades, significa melhorar tambm a qualidade de vida de seus habitantes. 
Afinal, muitos problemas ambientais urbanos, como a falta de gua potvel e a precariedade dos sistemas de coleta e tratamento dos esgotos e do lixo, geram problemas 
de sade pblica.

Resultados e perspectivas

  Nunca se mostrou tanto e para tanta gente as questes ambientais como na reunio do Rio. A imprensa e os polticos do mundo inteiro compareceram em massa na reunio, 
respondendo aos apelos dos dirigentes da ONU.
  Algumas resolues importantes foram tomadas na Rio92. O acordo sobre a reduo de emisso de gases estufa, por exemplo, embora seja de difcil implantao, mostra 
que os governos esto, pelo menos, considerando o problema.
  A criao da srie ISO (International Standard Organization) 14000 tambm nasceu de um grupo de trabalho proposto na reunio do Rio. Esse grupo de trabalho criou 
um certificado de qualidade ambiental para os produtos, que, para o merecerem devem, em sua elaborao, 
78
agredir o mnimo possvel o ambiente. Muitos pontos so avaliados, como o impacto ambiental da extrao da matriaprima, as fontes de energia usadas na fabricao 
e o destino final do produto, aps o seu uso. Veja a figura 9.

Figura 9.

foto mostrando uma embalagem com um selo indicando que nem a fabricao nem o consumo nem o descarte aps o uso do produto afetam seriamente o ambiente. Por enquanto 
ele  usado principalmente em produtos alemes

  Do ponto de vista da biodiversidade, o mais importante foi o estabelecimento de regras para a manipulao de seres vivos. De acordo com elas, devem ser tomados 
cuidados na manipulao gentica, de forma a evitar, por exemplo, que culturas alimentares importantes (como o trigo, a soja, o milho e o arroz) se tornem menos 
resistentes a pragas.
  Os acordos internacionais que visam melhorar as condies ambientais do nosso planeta so muito importantes. Entretanto tudo indica que a disposio dos governantes 
e a presso da sociedade civil, atravs de ONGs, associaes, sindicatos etc., so fundamentais para a implementao desses acordos e para a construo de um modelo 
de desenvolvimento que permita s geraes futuras viver com dignidade na Terra.

Atividade 4 

          Elaborando painis

  Com a turma dividida em trs grupos, cada um dever tratar de um dos seguintes aspectos discutidos na Rio92: o desenvolvimento sustentvel, as mudanas climticas 
globais e a conservao da biodiversidade.
  Utilizando materiais coletados em livros, revistas, jornais etc., o seu grupo dever montar um painel sobre o assunto escolhido, para ser exposto ao resto da turma.

Passando a limpo 

  Elabore um quadro sintico com as resolues internacionais que tratam da temtica ambiental estudadas neste captulo. O quadro dever ser ilustrado e apresentar 
o nome da reunio, ano em que ocorreu, os participantes e as principais decises.

Notas de rodap

 (1) Ravina  Sulco produzido na terra devido  ao erosiva das guas superficiais.

               oooooooooooo
79

Captulo 6

          A Conquista dos Mares

  Se voc j observou o mar, certamente deve ter se perguntado: de onde vem tanta gua? O que existe embaixo dela? No so perguntas simples. Nenhum cientista possui 
respostas definitivas para elas.
  O processo de formao dos oceanos  muito antigo. Estimase que ele tenha comeado h mais de 4 bilhes de anos, bem no incio da histria da Terra. Pouco se conhece 
daquela poca, uma vez que as rochas mais antigas j catalogadas formaramse h 3 bilhes e 500 milhes de anos. 
  A teoria mais difundida  a de que os vulces foram os responsveis pela formao da gua do mar. No incio da histria da Terra, os inmeros vulces existentes 
em sua superfcie teriam lanado vapor d'gua na atmosfera em quantidades suficientes para provocar tempestades que duraram mais de 10 milhes de anos. Um verdadeiro 
dilvio.
  Contudo, essa teoria  insuficiente. Ela no explica, por exemplo, a constituio da gua do mar, composta basicamente de hidrognio, oxignio, cloro, sdio, carbono 
e nitrognio. Como as rochas formadas pelos vulces so pobres desses elementos  elas compemse principalmente de silcio, alumnio e ferro , persistem enormes dvidas 
quanto  participao dos vulces na origem dos oceanos.
  Os meteoritos (1)veja a pgina 257, principalmente um tipo especial conhecido por condrito carbonceo, podem conter a chave do mistrio da formao dos oceanos. 
Este  composto por rochas que contm gua, amnia e cloro, e existe h mais de 4 bilhes de anos. 
  No incio de sua histria, a Terra no possuiria uma atmosfera capaz de protegla do bombardeamento de meteoritos. Assim, enormes quantidades de condritos carbonceos 
atingiriam o solo do planeta, ainda aquecido. Isso teria provocado reaes qumicas entre a gua, a amnia e o cloro dos meteoritos, liberando gases. Nos primeiros 
500 milhes de anos da Terra deve ter ocorrido um processo intenso de bombardeamento de meteoritos, liberao de gases e formao da atmosfera. A partir da teriam 
comeado a ocorrer as chuvas, que teriam inundado as partes mais baixas do relevo terrestre. Toda essa gua teria criado um oceano primitivo, chamado pelos cientistas 
de Panthalassa. 
  Inicialmente, o Panthalassa circundava o supercontinente Pangea. H aproximadamente 200 milhes de anos, quando o Pangea comeou a se romper, dando origem aos 
atuais continentes da Terra, o Panthalassa tambm sofreu um ciclo evolutivo (fig. 1, pg. 80) no livro em tinta.

Figura 1. 

          A Origem dos Oceanos a partir do Panthalassa

 quatro mapas mostrando a origem dos oceanos
 Mapa A  A terra h 200 milhes de anos, (Pangea e Panthalassa)
 Mapa B  A terra h 180 milhes de anos, (continentes: Laursia e Gondwana; Mar do Ttis)
 Mapa C  A Terra h 65 anos, (continentes: Amrica do Norte, Amrica do Sul, Europa, sia, frica, ndia, Antrtida, Austrlia; Oceano Pacfico, Oceano Atlntico, 
Oceano ndico)
 Mapa D  A Terra daqui a 50 milhes de anos, (continentes: Amrica do Norte, Amrica do Sul, Europa, frica, sia, ndia, Austrlia, Antrtida; Oceano Pacfico, 
Oceano Atlntico e Oceano ndico) 
  Legenda: O Mar de Ttis formouse entre a Laursia e Gondwana, h aproximadamente 180 milhes de anos. Nos ltimos 65 milhes, o Panthalassa originou o Oceano Pacfico. 
O atual Mar Mediterrneo  o que restou do Mar de Ttis.

  Acreditase, por exemplo, que o Mar Vermelho seja um jovem oceano ainda em formao. A placa tectnica (2) que forma a Pennsula Arbica est pouco a pouco se distanciando 
do continente africano. 
80
O Mar Vermelho, que possui uma cadeia montanhosa submersa no meio do seu piso ocenico, tende a ser cada vez mais largo. Veja a ilustrao (fig. 2).

Figura 2. 

esquema demostrativo.
 A  H cerca de 15 milhes de anos formouse na frica uma grande fenda devido ao movimento das placas tectnicas para lados opostos.
 B  Ao longo dessa fenda formouse o Mar Vermelho, que constinua a se alargar com o afastamento das placas Africana e da Arbia.
  Legenda: em alguns milhes de anos, o movimento das placas tectnicas pode transformar o Mar Vermelho em um oceano to largo quanto o atual Atlntico

  O Mar Mediterrneo, por sua vez,  um exemplo do estgio final do ciclo de vida dos oceanos. Ele est sendo esmagado pelo encontro das placas rochosas da frica 
e da Europa. Daqui a dezenas de milhes de anos, possivelmente sumir do mapa!
81
  Alguns pesquisadores imaginam que o Oceano Pacfico represente a fase de declnio da vida de um oceano. Tratase do maior oceano do mundo, cobrindo um tero da 
superfcie do planeta, mas est sendo engolido pelas bordas. Na zona de contato entre o seu piso e os continentes americano e asitico esto localizadas as maiores 
fossas submarinas (3) do mundo. A Fossa das Marianas, com 11.022 metros,  o ponto mais profundo da crosta terrestre. Acreditase que, nesse tipo de zona de fossas, 
as placas rochosas do piso ocenico estejam mergulhando por debaixo das placas dos continentes (fig. 3). Nos prximos milhes de anos, o Oceano Pacfico tender 
a ficar cada vez menor.

Figura 3. 

          O Encontro das Placas

esquema demostrativo. A seguir, legenda
  O mergulho da placa da crosta ocenica por baixo da placa da crosta continental  chamada de movimento de subduco.  esse movimento que origina as fossas ocenicas.

  J o Atlntico  considerado o melhor exemplo do estgio maduro de um oceano. Nele podem ser observadas todas as formas de relevo caractersticas do fundo do mar.
  Os oceanos vm sendo estudados detalhadamente desde o sculo XIX. A viagem da embarcao britnica HMS Challenger  que, em 1872, zarpou levando a bordo cientistas 
que passaram mais de trs anos estudando os mais diferentes aspectos da fsica, da qumica e da biologia marinha   considerada o marco inicial da oceanografia, 
cincia que trata dos oceanos. Desde ento, a oceanografia passou a contar com tecnologias cada vez mais sofisticadas, que permitem inclusive a explorao das guas 
profundas.
  O primeiro veculo submersvel (fig. 4) foi construdo na dcada de 1930 por Otis Barton e William Beebe. Tratase da Batisfera (esfera de ferro fundido) de Barton, 
que era presa a um navio e transportava duas pessoas. Em 1960, o batiscafo (barco de profundidade) Trieste bateu o recorde de mergulho, submergindo a 10.916 metros 
na Fossa das Marianas. Ainda na dcada de 1960, foram desenvolvidos submersveis mais modernos, tais como o Nautille, o Mir e o Shinkai, alm de modelos operados 
por controle remoto  por exemplo, o Argon , todos monitorados da superfcie por navios de pesquisa e apoio.

Figura 4.

desenhos mostrando veculos subaquticos. Descrio a seguir
 o Batisfera de Barton: mais ou menos 500 m
 o Bentoscpio de Barton: mais ou menos 1.500 m
 o Veculo de Resgate em Profundidade (anos 60): mais ou menos 2.000 m
 o "Disco mergulhador" Cyanea de Cousteau: mais ou menos 3.000 m
 o Alvim: mais ou menos 4.000 m
 o ROV Argo (brao mecnico munido de uma cmera) com Jasom um pequeno rob com cmeras de TV e luzes: mais ou menos 5.000 m
 o Submersvel Mir (Rssia): mais ou menos 6.000 m
 o Submersvel Nautille (Frana): mais ou menos 6.000 m
 o Submersvel Shinkai (Japo): mais ou menos 7.000 m
 o Batiscato Trieste: mais ou menos 11.000 m

  Margeando os continentes, existem grandes plataformas continentais, pisos submarinos que no ultrapassam 200 metros de profundidade. Em direo ao altomar, a plataforma 
continental termina abruptamente, formando uma rampa chamada talude. Na base do talude, a mais de 4 mil metros de 
82
profundidade,  comum a presena de bancos de areia e lama, que foram carregados da plataforma continental por avalanchas submarinas. Esse aglomerado de sedimentos, 
chamado sop continental, marca o fim da margem continental (fig. 5). A partir dali, comeam as imensas plancies abissais. Completamente sem luz, com frio intenso 
e uma presso esmagadora, elas formam a maior parte do piso ocenico.

Figura 5.

          A Margem Continental

esquema demostrativo. A seguir, legenda
  A plataforma continental acompanha as zonas costeiras, apresentando larguras variveis entre os continentes.

  Uma grande cadeia montanhosa corta o Atlntico ao meio, no sentido nortesul. A chamada Cadeia Dorsal MesoAtlntica tem at 4 mil metros de altura e registra intensa 
atividade vulcnica e ssmica. H indcios de que a partir dela, o piso ocenico do Atlntico ainda esteja em expanso num ritmo de 2 a 4 centmetros por ano. Alguns 
dos seus pontos mais altos despontam acima do nvel do mar, formando ilhas 

famosas, como a Islndia, no norte, e a Ilha Bouver, no sul.

Atividade 1

          Estudando o Piso Ocenico

  Observe os perfis dos pisos ocenicos do ndico (fig. 6), do Pacfico (fig. 7) e do Atlntico (fig. 8) e procure comparlos. Quais desses oceanos teriam mais semelhanas 
entre si? Justifique a sua resposta.

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pea orientao ao professor

83
O oceano vivo est em perigo

  A vida no fundo do mar pode ser dividida em zonas de profundidade, conforme a distribuio das formas de relevo submarino. Quanto maior a profundidade, menos espcies 
de seres vivos so encontradas, pois h menos alimento. Alm disso, poucos seres vivos se adaptam  escurido, ao frio e s altas presses. 
  As estreitas margens costeiras so as zonas mais ricas em espcies animais e vegetais. Suas guas pouco profundas recebem grande quantidade de luz solar. Nelas, 
proliferam os fitoplnctons (4), plantas microscpicas que constituem a base da cadeia alimentar marinha (fig. 9). Um camaro, por exemplo, come diariamente milhares 
de diatomceas, uma das espcies mais comuns de fitoplncton. J os camares fazem parte do cardpio dos arenques, que, por sua vez, so as presas prediletas dos 
bacalhaus.

Figura 9. 

grfico demostrativo
  Oceano aberto: 57 g/m/ano
  Plataforma continental: 162 g/m/ano
  Ambientes costeiros:
  Esturios: 810 g/m/ano
  Recifes de corais: 900 g/m/ano
  Costes rochosos: 225 g/m/ano
  Mangues: 1.250 g/m/ano
  Pntanos: 300 g/m/ano
  Legenda: Os ambientes marinhos costeiros ocupam menos de 1% da rea dos oceanos, mas guardam uma imensa riqueza vital.

  A presena de luz tambm  a garantia do desenvolvimento de algas marinhas, incluindo as espcies que florescem debaixo da gua. Elas constituem verdadeiros pastos 
submersos para tartarugas e diversos tipos de peixes.
  Nas margens costeiras, os mangues, os esturios e os recifes de corais destacamse como os ambientes marinhos com maior biodiversidade.
  Os mangues (5) ocupam mais da metade da costa dos pases tropicais e abrigam enormes quantidades de peixes, camares e ostras. Assim como eles, os pntanos costeiros 
dos pases de clima temperado encontramse sob a influncia das mars, sendo alagados periodicamente pelo mar. Ambos funcionam como filtros, limpando as guas marinhas 
de suas impurezas.
84
  Os esturios (6) so ambientes que recebem os sedimentos arrastados pelos rios, muitas vezes por vrios quilmetros mar adentro. Nesses ambientes, nos quais se 
misturam gua doce e salgada, concentramse os caranguejos, as ostras, os mexilhes e os camares. Grande parte das espcies pescadas no mundo passa uma parte de 
suas vidas num esturio, na fase seja da desova ou do crescimento.
  Os recifes de corais (7) so ambientes marinhos muito frgeis. Eles se desenvolvem em condies muito especiais: gua limpa com temperaturas entre 20 e 30C e 
profundidade mxima de 40 metros. Observe no mapa da figura 10 a distribuio mundial dos recifes de corais. Fixados num resistente edifcio de calcrio, milhes 
de animais, chamados de plipos (8), alimentamse de plnctons atravs da filtragem da gua que passa por suas minsculas bocas. Existem mais de mil espcies de corais, 
das mais diversas cores e formas, que fascinam mergulhadores do mundo inteiro.

Figura 10. 

          O Domnio dos Corais

mapa mostrando a localizao dos recifes de corais. A seguir, legenda. A Oceania  uma das regies de maior concentrao de corais do mundo.

  Ao redor dos recifes de corais vive a maior variedade de plantas e animais do fundo mar. Veja um exemplo na figura 11. Abrigando mais de um tero de todas as espcies 
de peixes, esses ecossistemas so fundamentais para a vida marinha e sua poluio pode significar um enorme desastre ecolgico.

Figura 11. 

foto mostrando Recife de corais no mar das Filipinas. No fundo do mar, a vida  mltipla e colorida

85

Impactos ambientais e acidentes ecolgicos

  Muitas atividades humanas exercidas em terra firme provocam grandes impactos nos ambientes marinhos. Veja o mapa da figura 12.

Figura 12. 

          Contaminao Marinha Global

mapa mostrando as reas contaminadas. A seguir, legenda
  O Mar Mediterrneo  uma das reas marinhas mais contaminadas do mundo. Alm da forte carga de guas residuais originadas das indstrias e das residncias localizadas 
nas cidades do sul da Europa, as refinarias de petrleo da Lbia e da Tunsia so grandes focos de poluio.

  Os rios que desguam no mar, por exemplo, carregam at este resduos agrcolas, como os agrotxicos e os fertilizantes. Alm disso, indstrias que empregam gua 
em abundncia em seu processo de produo costumam localizarse nas margens de rios, neles despejando os chamados metais pesados (9). 
  Uma catstrofe ocorrida no Japo, no incio da dcada de 1950, pode dar uma idia do impacto ambiental que os metais pesados provocam no ambiente marinho. Nesse 
caso, a contaminao acabou atingindo tambm as pessoas.
  Uma fbrica localizada na Baa de Minamata despejou resduos de mercrio no mar. O mercrio  um elemento metlico que, uma vez absorvido pelo organismo, nunca 
mais  eliminado. Em grandes concentraes, provoca problemas no sistema nervoso, cegueira e at morte.
  Os moluscos, que filtram a gua para se alimentarem dos fitoplnctons, absorveram mercrio em seu organismo. A cadeia estava iniciada. Crustceos e diversas espcies 
de peixes, que se alimentam de moluscos, foram contaminados.
86
  Os japoneses so grandes consumidores de peixes e frutos do mar, que fornecem mais de 60% das protenas consumidas pela populao do pas. Milhares foram contaminados 
devido ao consumo de atum com grandes concentraes de mercrio. Desde ento, o tipo de doena assim originada passou a ser chamado de sndrome de Minamata, por 
causa do nome da baa onde ocorreu esse desastre ambiental.
  Outro tipo de poluente que atinge os oceanos vem dos esgotos domsticos. Quase a metade da populao mundial vive em cidades costeiras ou em regies prximas ao 
litoral. Poucas so as localidades que possuem emissrios submarinos (10) adequadamente planejados para lanar o esgoto em guas mais profundas e distantes da costa, 
facilitando a disperso dos resduos na imensido dos oceanos. Em geral, o despejo do esgoto ocorre principalmente nas zonas costeiras e nos esturios, que possuem 
guas mais rasas e localizamse em reas litorneas semifechadas, com baixa circulao (veja a figura 13). Essas reas, ricas em biodiversidade, tm sido duramente 
afetadas. 

Figura 13.

foto mostrando o despejo de esgoto no mar, na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. A sujeira ameaa a vida marinha na exuberante Baa de Guanabara

  De todos os impactos ambientais no oceano provocados pelas atividades humanas, o derramamento de petrleo  o que recebe maior destaque nos meios de comunicao. 
No  para menos. O rompimento do tanque de um navio petroleiro forma uma enorme mancha de leo que rapidamente se espalha pelo mar. Com a ajuda dos ventos e das 
correntes marinhas, ela pode chegar aos ambientes costeiros, asfixiando aves e envenenando peixes e mamferos. 
  Calculase que, anualmente, mais de 3 milhes de toneladas de petrleo atingem os oceanos devido a esse tipo de acidente. Somente o desastre provocado pelo navio 
Exxon Valdez, em 1989, despejou 50 mil toneladas de leo nos mares do Alasca, destruindo um santurio ecolgico. A foto (fig. 14) mostra um aspecto desse desastre, 
responsvel pela morte de cerca de 300 mil aves e 3 mil lontras. 

Figura 14. 

foto mostrando a operao de limpeza das reas costeiras atingidas pelo vazamento do Exxon Valdez, em maio de 1989. Esse foi o maior desastre ecolgico j causado 
por um navio petroleiro

87
  A maior parte da poluio provocada por petrleo no aparece nos noticirios da TV. Os gigantescos navios petroleiros so lavados com a gua do mar enquanto retornam 
vazios aos seus pases de origem. Essa gua, com resduos do fundo dos tanques, lanada nos oceanos representa mais da metade da poluio marinha por petrleo. As 
reas mais afetadas por essas manchas de leo localizamse nos mares Mediterrneo, do Norte, Bltico e Vermelho, rotas de intenso trfego de navios petroleiros. 
  A contaminao do mar por lixo atmico tambm  muito grave e preocupante. O plutnio, principal material radioativo utilizado em ogivas nucleares, demora mais 
de 20 mil anos para ser absorvido pelo ambiente. O fundo do mar foi o destino final, por exemplo, de boa parte dos armamentos nucleares desativados da extinta Unio 
Sovitica. Todos os pases do chamado "clube atmico", que desenvolvem a tecnologia nuclear com fins militares, utilizaram o mar como depsito de material radioativo. 
Somemse a todos esses problemas os inmeros testes nucleares feitos em recifes de corais, como a exploso do Atol de Mururoa (fig. 15), em dezembro de 1995, um teste 
realizado pela Frana e condenado por organizaes ambientais do mundo inteiro.

Figura 15. 

mapa mostrando a localizao de Mururoa. A seguir, legenda
  O Atol de Mururoa localizase na Polinsia Francesa, um arquiplago do Pacfico que escapou da marcha da descolonizao.

88
  Desde 1945, quando a primeira bomba atmica atingiu Hiroshima, no Japo, j foram detonados mais de 2 mil dispositivos nucleares, como testes dos programas de 
desenvolvimento de armamentos dos pases do "clube atmico".
  Alguns desses explosivos foram acionados em recifes de corais. Como esses recifes possuem uma resistente base de calcrio, o dispositivo  instalado num poo e 
sua exploso transforma o atol numa dura massa rochosa. Assim, preservase a atmosfera do impacto ambiental provocado pelo material radioativo. 
  Os Estados Unidos inauguraram esse tipo de teste em 1954, no Atol de Bikini, no Pacfico. Ali, o explosivo teve poder destrutivo equivalente ao da bomba de Hiroshima. 
No Atol de Mururoa, os explosivos corresponderam a duas bombas de Hiroshima, e a emisso de radioatividade deve perdurar por mais de 10 mil anos!

Atividade 2

          O mar na voz do poeta

 1. Leia os poemas abaixo em voz alta. Os dois poetas utilizam analogias, isto , comparaes entre objetos, palavras e sons semelhantes. Procure identificar as 
analogias utilizadas por eles.
 2. De qual dos poemas voc gosta mais? Por qu?
 3. E voc, como se sente em relao ao mar? Faa o seu prprio poema, usando o que voc aprendeu at agora neste captulo. 

          O mar

  O mar est sempre em movimento para no sair do lugar. Se o mar sasse do lugar teriam que mudar os mapas. Se o mar ficasse parado ele escorreria para cima das 
cidades e apagaria os vulces. A gua sobe quando o sol a evapora. O sal da gua do mar no evapora. Quando chove sobre o mar a gua recupera o sal que havia deixado 
ali com o resto das guas. H tanta gua na gua quanto a gua evaporada que h no ar. H tanta gua salgada como lgrima dentro do mar. Quando a gua doce do rio 
chega ela deixa de ser doce porque o mar  maior. E quando requebra na praia  bonito. E tem gente que morre de sede no meio do mar. 

Arnaldo Antunes, As coisas, p. 15.

          A onda

 A O N D A 

 a onda anda
 aonde anda
 a onda?
 a onda ainda
 ainda onda
 ainda anda
 aonde?
 aonde?
 a onda a onda

Manuel Bandeira, Estrela da vida inteira, p. 267.

89
A atividade pesqueira

  A pesca  uma das atividades humanas mais antigas. Em todos os continentes existem vestgios de povoamentos costeiros que comprovam a presena de comunidades de 
pescadores durante os ltimos 40 mil anos. 
  Inicialmente, esses povos capturavam o que encontravam nas praias ou o que podiam alcanar com a gua at a cintura. Com o tempo e a prtica, foram criando apetrechos 
de pesca, como o covo, uma armadilha de vara ou vime parecida com um cesto, o curral de pesca, um cercado de estacas fincadas dentro d'gua, onde os peixes entram 
e no podem mais sair, e a tarrafa, pequena rede com pesos de chumbo na borda, que  lanada  mo (fig. 16). 

Figura 16. 

foto mostrando trs apetrechos de pesca. A seguir, legenda
  A pesca  uma das atividades humanas mais antigas. O pescador artesanal confecciona apetrechos para a pesca com tcnica passada de gerao a gerao, h milhares 
de anos. Na ilustrao, alguns exemplos: covo (a); curral de pesca (b); tarrafa (c).

  Atualmente, quase metade da produo de pescado destinada ao consumo humano  realizada por comunidades tradicionais de pescadores, que vivem e trabalham nas proximidades 
da praia. Pequenas embarcaes, como a da foto (figura 17, pg. 90) no livro em tinta, espalhamse por todos os continentes, empregando 95% dos trabalhadores da pesca 
existentes no mundo.

90
Figura 17. 

foto mostrando alguns homens e pequenos barcos. A seguir, legenda
  Pesca artesanal na costa do Qunia, pas situado na frica centrooriental. 

  No final do sculo XIX, aps a inveno do motor a vapor e das redes de arrasto no fundo do mar, a rea de pesca expandiuse mar afora, conquistando guas cada 
vez mais profundas. Com as novas tcnicas (veja as figuras 18 e 19), a atividade pesqueira transformouse num ramo da indstria. A criao de peixes tambm se tornou 
um grande negcio em muitas partes do mundo. Muitas espcies, como o camarotigregigante e o salmo, j so criados intensivamente. Na China e no Japo, vrios tipos 
de algas so cultivados para a alimentao. A prtica da criao de ostras e mexilhes tambm  crescente.

Figura 18. 

foto mostrando dois homens retirando peixes de uma grande embarcao. A seguir, legenda
  Pesca industrial no Mar do Norte. Utilizando enormes redes, os pescadores conseguem rastrear grandes reas ocenicas em busca do pescado.

Figura 19. 

foto mostrando uma rede de arrasto puxada por uma traineira. A seguir, legenda
  O arrasto de fundo  uma prtica pesqueira que provoca enorme impacto ambiental. Puxada por enormes embarcaes, a rede de fundo carrega consigo tudo o que se 
encontra no seu caminho. Os peixes e crustceos que no tm valor comercial so jogados fora pelos pescadores, quando a rede  puxada para dentro da embarcao.

91
  A indstria da pesca, que produz anualmente 80 milhes de toneladas,  dominada por poucos pases. Dentre eles, destacamse a Rssia, a China e o Japo, com 10 
milhes de toneladas por ano cada um, seguidos por Chile e Peru, com produo anual de cerca de 6 milhes de toneladas. Participam desse seleto clube de pesca a 
ndia, a Tailndia, as Filipinas, a Indonsia e a Coria do Sul. Na Europa, a Espanha, a Dinamarca, a Alemanha, a Noruega e a Islndia so os principais produtores 
de pescado. Observe o mapa das principais zonas de pesca no mundo (fig. 20).

Figura 20. 

mapa mostrando a produo pesqueira mundial. A seguir, legenda
  Principais zonas de pesca de: anchova, arenque, sardinha, bacalhau, cavala, crustceos, atum, linguado, salmo, esturjo e moluscos
  Participao da regio na produo mundial de pescado: Amrica do Norte e Amrica Central 9,2%, Amrica do Sul 15,3%, Europa e ExURSS 26,5%, frica 4,2%, sia 
44%, Oceania 0,8%
  Produo da regio em toneladas: Amrica do Norte e Amrica Central 8.372.100 t, Amrica do Sul 14.042.700 t, Europa e ExURSS 23.796.300 t, frica 4.384.800 t, 
sia 40.219.300 t, Oceania 
  641.700 t.
  Legenda: O Mar do Norte, a costa do Chile e o Mar do Japo so regies que se destacam na produo pesqueira h muito tempo. A costa africana, sulamericana e do 
sul da sia so reas de grande expanso da atividade pesqueira.

  A indstria da pesca est voltada para quatro grupos principais de espcies marinhas, que tm enorme aceitao no mercado mundial. Os peixes mais apreciados e 
que alcanam preos melhores habitam guas profundas, como o bacalhau, o badejo e o linguado. Outro grupo de peixes bastante procurado  o de pelgios (que vivem 
prximo  superfcie), por exemplo, o arenque, a anchova, o salmo e o atum. Veja a foto a seguir (fig. 21).         

Figura 21. 

foto mostrando salmes expostos em mercado do Alasca. No Brasil, devido ao seu alto custo,  ingrediente de pratos sofisticados

92
A pesca desses dois grupos representa mais de 70 milhes de toneladas por ano. Anualmente, os crustceos (lagostas e camares) e os mariscos somam mais de 4 milhes 
de toneladas, e os cefalpodes (polvo e lula) sustentam uma produo ao redor de 3 milhes de toneladas. 

Atividade 3 

          Visitando uma peixaria

  Visite uma peixaria e verifique os tipos de pescado do mar que esto sendo comercializados. Compare os preos entre eles e procure se informar com o dono do estabelecimento 
ou algum funcionrio a respeito da origem da mercadoria, das diferenas de preo e da preferncia da freguesia. Elabore um relatrio da visita e exponha seus resultados 
em sala de aula.

  No altomar, longe da costa dos continentes, o oceano no tem dono, sendo livre para circulao e usufruto de todos os povos. Os navios da indstria da pesca realizam 
uma verdadeira corrida para capturar os recursos ali existentes antes dos outros concorrentes. Essas embarcaes so espcies de fbricas flutuantes. Um navio alemo, 
por exemplo, pode pescar no Oceano ndico, armazenando os peixes em imensos frigorficos instalados em seu poro. Em um nico dia  capaz de capturar mil toneladas 
de pescado. Na viagem de volta para a Alemanha, em pleno altomar, o navio pode se transformar numa fbrica de farinha de pescado, que ser vendida na Europa como 
rao para porcos e frangos. 
  A populao dos pases europeus e dos Estados Unidos consome mais carne bovina, suna e de aves do que peixe. Por isso, nesses pases, h uma demanda crescente 
de rao para alimentar os animais. Um tero da produo mundial da indstria da pesca  transformada em rao.
93
  Muitas vezes, a competio dos navios pesqueiros provoca conflitos entre as naes.  o que acontece com freqncia entre os pequenos pases localizados em ilhas 
do Pacfico e os barcos pesqueiros do Japo e da Coria do Sul. Os habitantes das ilhas reclamam que essas embarcaes estariam saqueando seus recursos marinhos. 
O mesmo ocorre no Senegal, em Marrocos e na Somlia, pases africanos que protestam contra a presena constante de navios pesqueiros europeus em guas prximas ao 
continente.
  Com o crescimento da produo do pescado e o desenvolvimento da indstria da pesca, a captura de peixes aumentou cinco vezes na segunda metade do sculo XX. (Aprenda 
um pouco mais sobre as conseqncias desse fato no quadro 1). Esse crescimento desenfreado destruiu muitos ambientes marinhos, principalmente nas regies costeiras, 
onde viviam comunidades de pescadores artesanais. Entre suas vtimas encontramse os pescadores que viviam da captura do bacalhau e do arenque, no Atlntico Norte, 
e da sardinha sulafricana.

Quadro 1 

          Extino: Superexplorao 
          ameaa a vida

  Os oceanos j foram considerados fonte inesgotvel de recursos. Hoje vivem uma de suas maiores crises de escassez. Segundo relatrio da FAO, treze dos maiores 
bancos de peixe do mundo j atingiram ou ultrapassaram sua capacidade de "repor" naturalmente os recursos vivos. Outros nove bancos esto se aproximando desse limite. 
Em outras palavras: os peixes esto cada vez mais raro! O problema comeou na dcada de 1970, poca em que a tecnologia invadiu a frota pesqueira. Em pouco tempo, 
a tecnologia tornou possvel pescar em profundidades antes consideradas inatingveis e "engolir" quantidades cada vez maiores de peixes. Mas o "esvaziamento" dos 
oceanos no se limita ao problema da tecnologia. De acordo com a FAO, a frota pesqueira mundial dobrou entre as dcadas de 1970 e 1990. Excesso de navios e tecnologia, 
uma frmula que no poderia dar em outra coisa: extino. No   toa, portanto, que parte dos estoques mundiais de peixe esteja ameaada de extino ou prxima 
da extino comercial. (Folha de S. Paulo, Especial Oceanos, 17 mai. 1998.)
 fim do quadro

  Para compensar a perda desses ambientes marinhos, a indstria da pesca tem buscado pontos cada vez mais distantes dos oceanos. Na dcada de 1980, as frotas de 
navios pesqueiros se voltaram para a captura da sardinha sulamericana. No Oceano ndico, os naviosfbricas capturam enormes quantidades de camaro, privando os pescadores 
artesanais tradicionais de seu meio de vida. Nesses locais, h ainda outra agravante: a perda das reas de reproduo, devida  poluio do ambiente costeiro causada 
pelo leo dos motores dos navios.
  Essas situaes explicam os muitos conflitos entre pescadores artesanais e a indstria da pesca. Os pescadores artesanais so antigos moradores das praias e ilhas, 
e sua sobrevivncia depende da preservao dos ambientes marinhos ricos em cardumes de peixes. A presena de um navio pesqueiro 
na regio pode significar a destruio de sua forma de vida.

94
Atividade 4 

          Lendo e Interpretando 
          Grficos

  Considerando o que voc aprendeu sobre a explorao econmica dos oceanos, leia e interprete os grficos a seguir.

Figura 22.

          Poluio marinha por petrlio

grfico demostrativo
 Origem da contaminao
  Lanamento de guas e resduos da rede de saneamento: 24%
  Lanamento de resduos industriais: 17%
  Poluio atmosfrica: 11%
  Transporte, incluindo acidentes com petroleiros: 48%

Figura 23.

          Produo de peixes selecionados (19701988)

grfico demostrativo
  Arenque: os nmeros usados neste grfico so do pesqueiro do Mar do Norte que foi totalmente fechado de 1977 a 1982 para permitir a recuperao dos estoques
  Bacalhau: estes nmeros so de bacalhaus do Mar do Norte, principal rea de pesca
  Bacalhau do gelo: para permitir sua recuperao, cientistas recomendam que a pesca seja suspensa. As frotas que pescam o bacalhau do gelo operam na Antrtida.

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pea orientao ao professor

Passando a limpo 

 1. Faa um pequeno comentrio sobre os impactos das atividades humanas sobre os ambientes marinhos, utilizando a figura 24 e o que voc aprendeu neste captulo.

Figura 24.

foto mostrando o tempo necessrio ao mar, para degradar o lixo:
 o Metal  2 anos
 o Plstico  400 anos
 o Borracha  100 anos ou mais 
 o Alumnio  no se degrada
 o Vidro  200 anos ou mais
  Legenda: o mar demora sculos para degradar o nosso lixo

 2. Imaginese realizando uma viagem ao fundo do mar em um submarino. Escreva um dirio de bordo com o relato dessa experincia. Utilize para isso o que voc aprendeu 
no captulo. Ilustre o seu trabalho com desenhos, ilustraes e fotos retiradas de revistas sobre o tema.

Notas de rodap

 (1) Meteorito  Corpo metlico ou rochoso de origem extraterrestre, que cai na superfcie da Terra.
 (2) Placas tectnicas  Placas rochosas em constante movimento, que formam a superfcie da Terra.
 (3) Fossa submarina  Depresso de grande profundidade no piso ocenico.
 (4) Fitoplncton  Colnia de algas Volvox.
 (5) Mangue  Ecossistema caracterstico de ambientes costeiros e estuarinos, no qual predominam as espcies vegetais adaptadas  grande salinidade.
 (6) Esturio  Desaguadouro de um rio no mar, sujeito a forte influncia de correntes marinhas e das mars.
 (7) Recife de corais  Estrutura rochosa formada por uma srie de corais, prxima  superfcie do mar.
 (8) Plipo  Peixes passam por uma comunidade de plipos, em foto obtida com lentes especiais de aumento.
 (9) Metais pesados  Substncias metlicas de peso atmico elevado, geralmente muito txicas  vida e altamente poluentes em sistemas ecolgicos. Os mais abundantes 
so o zinco (Zi), o chumbo (Pb), o cobre (Cu) e o mercrio (Hg).
 (10) Emissrio submarino  Tubulao que transporta o esgoto no mar.

UNIDADE III

          Os Circuitos Mundiais

 o Com base na tabela a seguir, faa um texto sobre as desigualdades no circuito mundial do consumo.

          O consumo no mundo (produtos selecionados)

 Participao no consumo mundial
 o carne e peixe
  20% mais ricos 45,0%
  20% mais pobres 5,0%
 o energia
  20% mais ricos 58,0%
  20% mais pobres 1,5%
 o linhas telefnicas
  20% mais ricos 74,0%
  20% mais pobres 1,5%
 o papel
  20% mais ricos 84,0%
  20% mais pobres 1,1%

 o veculos
  20% mais ricos 87,0%
  20% mais pobres 1,0%

 o As fotos abaixo revelam duas maneiras muito diferentes de fazer turismo.

duas fotos, a primeira mostra um grupo de turistas na Torre Eiffel em Paris (Frana). A segunda foto mostra dois turistas caminhando no deserto em Kluane (Canad)

 a) Em qual dos grupos voc gostaria de estar agora?
 b) O turismo  uma das atividades econmicas que mais crescem no mundo. Voc sabe por qu?

97
 o Leia atentamente o texto abaixo.

  As cidades globais so os lugareschave para os servios avanados e para as telecomunicaes necessrias  implementao e ao gerenciamento das operaes econmicas 
globais. Elas tambm tendem a concentrar as matrizes das empresas, sobretudo daquelas que operam em mais de um pas. O crescimento do investimento e do comrcio 
internacional e a necessidade de financiar e prestar servios a essas atividades impulsionaram o crescimento dessas funes nas grandes cidades. (S. Sassen, As cidades 
na economia mundial, p. 35.)

  Cite algumas cidades que podem ser consideradas globais. Justifique a sua escolha.

 o O poderoso chefo, assim como muitos outros filmes, retrata a vida de grupos mafiosos. Muita gente acredita que a mfia  uma coisa do passado, mas as organizaes 
criminosas desse tipo ainda movimentam negcios poderosos. O que voc sabe sobre 

  as mfias que atuam no mundo de hoje?

 foto mostrando o cartaz de divulgao do terceiro filme da srie O poderoso chefo (1990, direo de Francis Ford Coppola)

  O setor de servios desponta como o mais importante da economia mundial. Em tempos de globalizao, os servios criam circuitos mundiais, pelos quais transitam 
dinheiro, poder, informao, mercadorias e pessoas. Nesta unidade, vamos destacar alguns aspectos da globalizao dos servios. Em "A geografia do consumo", captulo 
7, veremos que as pessoas e os pases participam de forma desigual do circuito do consumo. No captulo 8, "A geografia do turismo", destacamos a emergncia do turismo 
de massa. "A geografia das cidades mundiais e das megacidades" trata dos pontos de transmisso e recepo dessa rede mundial. Finalmente, no captulo 
"A geografia do crime", abordaremos a dimenso dos circuitos ilegais na economia contempornea.

               oooooooooooo
98

Captulo 7

          A Geografia do Consumo

  Vivemos em um mundo de mercadorias  carros, roupas, relgios, livros, brinquedos, mveis, calados, materiais escolares, alimentos, entre tantos outros itens de 
uma lista interminvel. Fomos acostumados a perguntar o preo de tudo, a comprar ou a juntar dinheiro para obter as mercadorias desejadas ou necessitadas. Somos 
levados a participar de uma sociedade de consumo.
  Essa sociedade de consumo caracterizase pela desigualdade. De acordo com estudos realizados pela ONU, quase 90% do consumo individual do mundo so realizados por 
20% da populao do planeta, e uma criana nascida em Nova Iorque, Paris ou Londres vai consumir, em mdia, cinqenta vezes mais durante sua vida do que uma criana 
nascida em um pas pobre. A geografia do consumo  feita de excessos e carncias, de desperdcios e necessidades.

O mundo mgico das mercadorias

  Os japoneses chamam os microchips (fig. 1) de "o arroz da indstria".  fcil entender por qu. Esses pequenos componentes eletrnicos esto presentes na maioria 
dos aparelhos que invadiram as casas dos consumidores de todo o mundo. Desde um simples despertador digital, passando por uma calculadora de bolso at o mais sofisticado 
equipamento de som, em tudo podese identificar a presena da indstria eletrnica (fig. 2).

Figura 1.

foto mostrando o microchip,  uma pequena plaqueta de silcio que contm os circuitos integrados que fazem funcionar aparelhos eletrnicos. Largamente utilizados 
na informtica, eles ativam os computadores (nesse caso, so conhecidos como microprocessadores) e armazenam informaes (chips de memria)

Figura 2. 

foto mostrando duas mulheres olhando uma vitrine de mercadorias eletrnicas. A seguir, legenda
  As mais diversas mercadorias eletrnicas so vendidas no mercado brasileiro.

  Nosso diaadia depende tanto dos produtos eletroeletrnicos que fica difcil imaginar a vida sem eles. A interrupo do fornecimento de energia eltrica nos oferece 
uma rara oportunidade para pensar nesse assunto, pois sem ela muitas atividades cotidianas no podem ser realizadas, e at mesmo sair de casa pode ser complicado 
para quem mora nos andares altos dos prdios de apartamentos.

99
Atividade 1 

          A luz eltrica

  Faa um relatrio das atividades que envolvem o uso de eletricidade em um dia normal de aula, desde o momento em que voc acorda at a hora de dormir. Liste os 
aparelhos eletroeletrnicos que voc usa ao longo do dia.

  At o comeo do sculo XX, as famlias ricas dispunham de muitos empregados para executar as tarefas domsticas. Para se tomar um banho quente, por exemplo, era 
necessrio ferver a gua e encher a banheira. O fogo tinha de ser abastecido com lenha ou carvo. Era preciso limpar os esgotos domsticos com freqncia.
  Com o aperfeioamento dos sistemas de encanamento, difundiuse o uso da gua corrente. O gs e a eletricidade, por sua vez, permitiram o aquecimento da gua, melhoraram 
a iluminao e facilitaram a realizao de tarefas como preparar os alimentos, lavar roupa e fazer faxina. At hoje, porm, muitas famlias no desfrutam dessas 
melhorias, como voc pode ler no quadro 1.

Quadro 1

          Os excludos do mundo do 
          consumo

  A populao dos pases em desenvolvimento  de aproximadamente 4,4 bilhes de habitantes. Desse total, cerca de trs quintos vivem em comunidades sem saneamento 
bsico e um tero no dispe de gua potvel. Um quarto dessas pessoas no tem habitao adequada; para um quinto, o acesso a servios de sade modernos est fora 
de alcance. Um quinto das crianas apresenta carncia nutricional e no chega a concluir os estudos bsicos. Para a maioria da populao mundial em situao de grande 
pobreza, os deslocamentos relativos s tarefas cotidianas, incluindo a obteno de gua e combustvel, so feitos a p. (PNUD, Relatrio de Desenvolvimento Humano 
1998.)
 fim do quadro

100 
  Surgidos numa poca em que a eletricidade era pouco difundida, os primeiros modelos de eletrodomsticos eram pesados, difceis de manejar e caros. Mas, depois 
da Primeira Guerra Mundial (19141918), as ruas comearam a receber iluminao eltrica e o rdio passou a ser ouvido na maioria das casas, sempre com enorme sucesso 
(fig. 3). As residncias norteamericanas  e, em seguida, as europias  foram transformadas por uma avalancha de eletrodomsticos: geladeiras, ferros de passar, foges 
e mquinas de lavar, entre outros.

Figura 3. 

foto mostrando uma mulher e um homem em uma sala olhando para um grande rdio. A seguir, legenda
  Na dcada de 1950, o rdio ainda ocupava o centro da sala e das conversas de muitas famlias. 

  Os fabricantes de aparelhos domsticos logo perceberam o poder da propaganda e o do rdio como veculo de divulgao. Comearam a patrocinar os programas de maior 
audincia, nos quais anunciavam seus produtos, e reforaram as equipes de venda de porta em porta. Dessa forma, no s ampliaram as vendas como expandiram as fronteiras 
do mercado consumidor para muito alm das grandes cidades.
  O ferro eltrico, por exemplo, em pouco tempo se tornou um artigo popular. Pequeno, simples de manusear e barato, tinha ainda a vantagem de ser mais leve do que 
o seu antigo concorrente  o ferro de engomar, aquecido por brasas de carvo, que tinha de ser soprado constantemente para no esfriar. Veja as fotos da figura 4.

Figura 4. 

foto mostrando o ferro de passar em dois tempos: modelos a carvo do sculo XIX, em exposio no Museu Paulista; moderno ferro a vapor: eltrico e de fcil manuseio

  O aspirador de p tambm teve ampla aceitao. Graas a ele, os tapetes puderam ser aspirados no local, diariamente, sem a necessidade de retirlos do cho para 
batlos fora de casa. Outro grande sucesso foram as mquinas automticas de lavar roupa, que amenizaram muito essa rdua atividade.
  Desde meados do sculo XX, um novo padro de vida comeou a ser divulgado nas revistas dirigidas ao pblico consumidor, nas telas do cinema, nos enormes cartazes 
publicitrios dispostos ao longo das estradas e nos aparelhos de televiso que j chegavam s salas da classe mdia do mundo inteiro. Os artigos da moda passaram 
a ser fabricados de acordo com pesquisas de mercado, nas quais se buscava saber o que o pblico queria comprar. Conhea um pouco da vida de uma das pioneiras do 
mundo da moda no quadro 2.

101
Quadro 2

          No mundo da moda

  A costureira Gabrielle Chanel nasceu em 1883 em Moulins, pequena cidade da regio central da Frana. Foi para Paris aos 25 anos de idade, mas somente depois da 
Primeira Guerra Mundial, em 1919, abriu seu primeiro ateli parisiense de alta costura. Chanel tornouse uma celebridade internacional e viveu durante dcadas rodeada 
de artistas e outras personalidades da poca.
  Ela criou um novo estilo de roupas para as mulheres, baseado no conforto, na simplicidade e declaradamente inspirado na vestimenta masculina. At hoje o legtimo 
estilo Chanel  tailleur, longos colares de prolas, chapu bege e preto   considerado um smbolo de elegncia e sofisticao.

Figura 5. 

duas fotos, a primeira mostra uma mulher vestida num modelo da coleo de inverno da griffe em 1990; a segunda foto mostra uma vidro de perfume "n.o 5 Chanel". O 
charme e o estilo 

  da Chanel sobreviveu  passagem do tempo
 fim do quadro

102
  O automvel, a geladeira e a televiso foram os produtos que mais alteraram a vida das pessoas. Um novo modo de vida chegou a ser gerado pelo automvel, impondo 
o mito do transporte individual como smbolo da liberdade de movimentos. O aumento gradativo de seu nmero nas ruas das cidades exigiu a construo de grandiosas 
e custosas obras virias, como viadutos, tneis e grandes avenidas expressas, que transformaram totalmente a paisagem das cidades. Veja um exemplo na foto (fig. 
6). Alm disso, a disseminao de seu uso foi acompanhada pela abertura de lojas de autopeas e acessrios para veculos, companhias de seguro, oficinas mecnicas, 
lavarpidos e estacionamentos. Em conseqncia, incentivou a formao de um nmero cada vez maior de profissionais especializados, como policiais de trnsito e mecnicos, 
entre outros.

Figura 6.

foto mostrando a autopista em Tquio, no Japo. Apesar das pistas expressas, carros cada vez mais potentes e velozes ficam parados nos congestionamentos das grandes 
cidades

  Antes do uso da geladeira, muitos alimentos perecveis (leite e seus derivados, verduras e legumes etc.) no podiam ser estocados. Era comum, ao amanhecer, as 
casas serem abastecidas por um leiteiro, que entregava o leite in natura (1) veja a pgina 297, embalado em garrafas de vidro, e levava os vasilhames vazios deixados 
 porta das casas pelos fregueses na noite anterior. A compra dos alimentos necessrios para as refeies fazia parte da rotina domstica diria, que inclua visitas 
 mercearia, s feiras livres, ao aougue,  padaria ou o contato com fornecedores que batiam de porta em porta. (Conhea um pouco mais sobre o funcionamento desse 
mercado no quadro 3.) Os frangos e porcos eram comprados vivos, e ficavam ganhando peso no fundo do quintal, at o dia de irem para a panela.
  A chegada da geladeira permitiu o armazenamento de produtos alimentcios perecveis por vrios dias. A partir de ento, muitas famlias passaram a fazer suas compras 
apenas uma vez por ms, em um grande supermercado.
  Atualmente, planejase o espao interno das geladeiras visando o aproveitamento mximo, pois comprase muito mais, devido  enorme diversidade de produtos perecveis 
oferecida pelo mercado. Um parceiro da geladeira na cozinha  o freezer, que transformou a venda de produtos e refeies congeladas em um excelente negcio.
  Tais inovaes na vida domstica eliminaram os inconvenientes de se morar longe de um aougue ou mercearia. Muitas famlias de alto poder aquisitivo mudaramse 
para os subrbios das metrpoles e vivem em refinados condomnios fechados, longe da agitao dos grandes centros urbanos, combinando tranqilidade com mais conforto.
103
  Colocada em algum local de destaque nas casas, a televiso ocupa o centro da vida domstica de muitas famlias, sendo a principal fonte de lazer para milhares 
de pessoas em todo o mundo.
  Por meio da televiso, as empresas transformam as unidades familiares em consumidoras de seus produtos e estabelecem padres de comportamento. A "telinha"  capaz 
de formar opinio, derrubar polticos e mudar os rumos de uma eleio. Quem nunca foi surpreendido pelo jeito de vestir ou falar de um personagem televisivo sendo 
repetido nos mais diversos lugares? Quem nunca teve de transferir o horrio de um passeio para antes ou depois de algum programa de TV de sucesso?

Quadro 3

          Os personagens de fora

  O historiador e cientista poltico Boris Fausto conta, em um livro, a histria de sua prpria famlia, que, como tantas outras, veio para o Brasil durante as primeiras 
dcadas do sculo XX. Ele relata, por exemplo, como a campainha da sua casa era tocada vrias vezes ao dia por fornecedores, prestadores de servios e vendedores 
de todo tipo.
  Um personagem bemrecebido era o sr. Ceccato, que trazia o po nosso de cada dia, em dose dupla, pois ia  casa da Avenida Anglica duas vezes por dia. Logo de 
manh deixava um filo ou pezinhos franceses, em uma visita trivial. Mas, na hora do almoo, esse italiano vermelho, de bon branco na cabea, chegava conduzindo 
uma cesta, com a graa de um garom de restaurante de luxo. Nela alinhavamse as bisnagas assadas no ponto certo, os pes doces, as broas, alternativas que tornavam 
difcil a escolha, mesmo porque no nos era dado escolher de tudo.
  Antes da entronizao da geladeira eltrica, quem se encarregava da conservao da carne e de outros comestveis era um grande mvel de cabriva (2) forrado por 
dentro com folhadeflandres (3). Havia um compartimento especial para se colocar o gelo, fornecido pela Companhia Antarctica e trazido pelas mos do "geladeira", 
apelido do entregador. (B. Fausto, Negcios e cios.)
 fim do quadro
 

Atividade 2 

          D para viver sem uma 
          geladeira?

 1. Que tipo de produto armazenado na geladeira de sua casa no resiste por mais de sete dias sem refrigerao? D para viver sem esses produtos? Existem substitutos 
para eles? 
 2. Entreviste pessoas mais velhas e procure se informar sobre as alternativas para a conservao de alimentos sem o uso da geladeira. Faa um relatrio da sua pesquisa.

104
  A associao entre o carto de crdito, o telefone e a TV tem integrado ainda mais a vida domstica ao mercado de consumo. As pessoas passaram a adquirir produtos 
e servios sem sair de casa: basta selecionar o item desejado em algum programa televisivo de ofertas e fazer sua compra por telefone, fornecendo o nmero do carto 
de crdito. No comeo dos anos 90 havia mais de 1 bilho de cartes de crdito em circulao nos Estados Unidos, o que representa uma mdia de nove cartes por cidado!
  Recentemente, uma nova mania de consumo passou a ameaar o domnio da televiso na vida domstica: o computador. Nos pases ricos, mais de 20% das residncias 
j esto equipadas com um. As compras via internet, a rede mundial de computadores, j representam 30% do total das transaes efetuadas em lojas de discos, artigos 
eletrnicos e livrarias. Tambm  significativo o crescimento da movimentao de contas bancrias feita a partir de casa, atravs de computadores pessoais, no mundo 
todo.
  O computador tem sido utilizado, ainda, nas chamadas "casas inteligentes", que so monitoradas por sofisticados softwares. A manuteno da temperatura ambiente 
no grau desejado, a regulagem da iluminao artificial e o controle do estoque de mantimentos so algumas tarefas que eles realizam na casa de pessoas de alto poder 
aquisitivo.

Atividade 3

          O sonho de consumo de cada um

  Em 1980, um advogado norteamericano de 27 anos enumerava com simplicidade suas ambies: "Quero casar, ter dois filhos, dois carros, dois televisores e viver no 
subrbio de Los Angeles". (Citado em O mundo domstico, p. 160.)

  E voc, o que gostaria de consumir? Voc acha que os meios de comunicao influenciaram os sonhos de consumo do jovem advogado? E os seus? Escreva no caderno suas 
concluses.

Um mundo de consumidores

  A produo e o consumo ocorrem num espao e tempo determinados. Esse espao  dotado de condies desiguais de quantidade e qualidade da infraestrutura, e de volume 
e poder de consumo da clientela.
  Voc pode ter uma idia dessa desigualdade analisando os dados sobre padres de consumo vigentes em pases e regies do mundo. O consumo de gua encanada pode 
ser um bom indicador. Calculase que a manuteno de uma qualidade de vida razovel, com o atendimento das necessidades bsicas de higiene pessoal e alimentao, 
requer o consumo de aproximadamente 80 litros de gua por pessoa/dia. Mas o consumo domstico mdio varia de 5,4 litros dirios, em Madagascar, at mais de 500 litros 
por dia, nos Estados Unidos. Enquanto um britnico consome 175 litros dirios de gua aquecida, um aldeo de Bangladesh extrai 45 litros de um poo. Mais da metade 
da gua consumida por um cidado norteamericano  utilizada para lavar o carro e regar as plantas do jardim. Veja outros exemplos no grfico da figura 7.

105
Figura 7. 

          Consumo Dirio de gua por pessoa (litros/dia)

contedo do grfico a seguir
  Tanznia: 96
  uso domstico: 55
  uso industrial: 14
  uso agrcola: 27
  Frana: 2.360
  uso domstico: 770
  uso industrial: 740
  uso agrcola: 850
  Mxico: 2.652
  uso domstico: 165
  uso industrial: 137
  uso agrcola: 2.350
  Estados Unidos: 6.302
  uso domstico: 603
  uso industrial: 3.014
  uso agrcola: 2.685
  Legenda: Nos pases mais pobres, a populao  excluda at do consumo de bens bsicos, como a gua. O consumo apontado neste grfico  o de gua de uso domstico, 
industrial e agrcola.

  Outro indicador que pode ser utilizado para identificar desigualdades  o consumo de protenas. Em mdia, um francs consome 115 gramas/dia de protena, enquanto 
um habitante de Moambique consome apenas 32 gramas/dia.
  O enorme fosso que separa os pases pobres e os pases ricos, no que diz respeito ao consumo de gua e protenas, fundamentais para a manuteno da vida humana, 
 tambm evidente quando se trata da oferta de determinados servios. O caso do telefone  bastante elucidativo: na Sucia, na Sua e nos Estados Unidos existem 
cerca de seiscentas linhas telefnicas para cada mil pessoas; no Afeganisto e no Camboja, existe apenas um telefone para cada mil habitantes.

A sociedade do desperdcio

  O consumo no depende apenas do poder aquisitivo do indivduo, mas de sua compulso de comprar, ou seja, ele no se resume a uma questo de dinheiro   tambm 
uma atitude e um modo de vida. Os nmeros relativos ao aumento do consumo so realmente impressionantes: no final da dcada de 1990, o consumo mundial de bens e 
servios girava em torno de 24 trilhes de dlares anuais, quantia seis vezes maior do que a registrada em 1975.
  As empresas de propaganda e marketing estudam as tendncias de consumo e usam essas anlises para planejar as campanhas publicitrias de seus produtos. Muitas 
vezes, as pessoas so levadas a consumir no por necessitarem de um determinado bem ou servio, e sim pelo desejo da renovao ou pelo status que adquirem ao possuir, 
por exemplo, o modelo mais sofisticado
106
de um determinado artigo. No lixo das grandes cidades dos pases industrializados,  cada vez mais comum encontraremse objetos em boas condies de uso, como voc 
pode ver na foto (fig. 8).

Figura 8. 

foto mostrando um homem e vrios computadores desmontados. A seguir, legenda
  Cemitrio de computadores em Toyota, no Japo. Devido  rapidez das inovaes tecnolgicas na rea de informtica, os computadores so considerados ultrapassados 
e descartados com um tempo de uso cada vez menor.

  O crescimento desenfreado do consumo tem um custo: o uso cada vez mais intensivo, e muitas vezes desnecessrio, dos recursos naturais do planeta. Quantas rvores 
so derrubadas para produzir as toneladas de papel que, por exemplo, vemos ser desperdiado por estudantes que no cuidam de seus livros e cadernos?
  Certas mudanas no perfil da populao tambm contribuem para o aumento do consumo. O envelhecimento da populao dos pases da Europa, por exemplo, tem provocado 
o aumento progressivo de tempo livre e mudanas nas formas de desfrutar o lazer. Na prtica do turismo, que  uma atividade amplamente disseminada entre os europeus, 
a compra de lembranas e artesanatos do local visitado, o ensaio fotogrfico de cenas cotidianas, o consumo de refeies e servios de todo tipo, transformam 
uma viagem turstica num verdadeiro ritual de consumo.

Atividade 4 

          O Consumo e a Cidadania

  O consumidor no  o cidado. Nem o consumidor de bens materiais, iluses tornadas realidades como smbolos: a casa prpria, o automvel, os objetos, as coisas 
que do status. Nem o consumidor de bens imateriais ou culturais, regalias de um consumo elitizado como o turismo e as viagens, os clubes e as diverses pagas; ou 
de bens conquistados para participar ainda mais do consumo [...].
  O cidado  multidimensional. Cada dimenso se articula com as demais na procura de um sentido para a vida. Isso  o que faz dele o indivduo em busca do futuro, 
a partir de uma concepo de mundo, [...] dotada de uma nova sensibilidade [...]. (M. Santos, Espao do cidado, p. 4142.)

  Esse texto estabelece uma importante distino entre o consumidor e o cidado. Em seu caderno, procure explicar essa distino com suas palavras. 

107

Shopping center, templo do consumo

  Os shopping centers so estabelecimentos comerciais que renem num mesmo prdio vrias lojas de departamento, supermercado, butiques e prestadores de servios. 
Um dos maiores smbolos da sociedade de consumo, eles comearam a ser construdos a partir da dcada de 1960, em cidades de diversos pases do mundo (fig. 9). Seu 
sucesso pode ser associado  imposio do automvel como o principal meio de transporte da populao de maior poder aquisitivo e, ao mesmo tempo,  expanso das 
atividades dos hipermercados instalados nos grandes centros urbanos.

Figura 9.

foto mostrando um Shopping center em Los Angeles, nos Estados Unidos. Templos de consumo como esses so cada vez mais comuns na paisagem norteamericana, mesmo nas 
estradas e nas periferias das grandes cidades

  Todo shopping center possui as lojasncoras, que so supermercados ou lojas de departamentos que atraem clientes com a oferta de promoes, preos mais baixos 
e maior diversidade e quantidade de produtos. Os donos dos estabelecimentos menores so beneficiados pelo enorme afluxo de pessoas que as procuram. A localizao 
sempre privilegiada e a facilidade de estacionamento tambm so fatores de atrao de consumidores.
  No Brasil, o primeiro shopping center  o Iguatemi, na cidade de So Paulo  foi inaugurado em 1966 (fig. 10). Desde ento, muitos outros foram construdos nessa 
e em vrias cidades brasileiras. Lojas como a C&A (moda), Po de Acar (hipermercado), Lojas Brasileiras e Casas Pernambucanas (lojas de departamento) figuram entre 
as principais lojasncoras.

Figura 10. 

foto mostrando o Shopping Center Iguatemi, em So Paulo, no ano em que foi inaugurado. Pioneiro entre os shoppings do pas, o Iguatemi continua sendo um dos mais 
sofisticados centros comerciais e de lazer da capital paulistana

108
  A instalao de um shopping center provoca grandes transformaes no espao urbano: em seus arredores, residncias vo dando lugar a edifcios e proliferam estabelecimentos 
comerciais e de servios de todo tipo. Alm disso, o aumento da circulao de pessoas  clientes e funcionrios  na regio muitas vezes exige o redimensionamento 
da infraestrutura viria, com alargamento de ruas, construo de avenidas, criao de linhas e terminais de nibus etc.

Passando a limpo 

  Em vrios pases do mundo, os consumidores organizaram entidades para defender os seus direitos. O Cdigo de Defesa do Consumidor tem sido utilizado como um instrumento 
para atendimento a esses interesses na Justia. Contudo, exercer a cidadania no se restringe necessariamente ao exerccio dos direitos de consumidor.

 1. Analise a lista a seguir e separe os direitos do consumidor dos direitos do cidado.
 a) Informao adequada e clara sobre os diferentes produtos e servios, com especificaes corretas de quantidade, caractersticas, composio, data de fabricao, 
prazo de validade, qualidade e preo.
 b) Proteo contra publicidade enganosa e abusiva.
 c) Homens e mulheres so iguais em direitos e obrigaes.
 d) Ningum ser submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante.
 e)  inviolvel a liberdade de conscincia e de crena, sendo assegurado o livre exerccio dos cultos religiosos.
 f) Manuteno das clusulas contratuais estabelecidas para pagamento de mensalidades escolares e de convnios mdicos.
 g) Educao, sade, trabalho, lazer, segurana, proteo  maternidade e  infncia.

2. Procure explicar as diferenas e semelhanas entre os direitos do consumidor e os do cidado.

Notas de rodap

 (1) In natura  Sem processamento industrial.
 (2) Cabriva  rvore tpica da Mata Atlntica, de madeira pardoescura, com tons avermelhados, pesada e muito resistente.
 (3) Folhadeflandres  Folha de ferro estanhado, comumente chamada de "lata".

               oooooooooooo
109

Captulo 8

          A Geografia do Turismo

  O turismo est entre as atividades econmicas que mais cresceram desde o final da Segunda Guerra Mundial (1945). Anualmente, cerca de 600 milhes de turistas circulam 
pelo mundo, movimentando um negcio de 300 bilhes de dlares. Isso representa 8% de todo o comrcio mundial e gera duas vezes mais dinheiro do que as exportaes 
de todos os pases africanos juntos.
  O turismo de massa, tal como o conhecemos hoje, comeou a ganhar forma na dcada de 1960. Com ele, os turistas transformaramse em consumidores de "pacotes" vendidos 
por agncias de viagem. Passagens areas, refeies, hotis, ingressos de shows e de museus, tudo passou a ser minuciosamente planejado e comprado com antecedncia. 
Leia mais sobre esse tipo de turismo no quadro 1.
  Os turistas modificam bastante a vida econmica dos pases e regies que os recebem. Eles so consumidores de alimentos, de servios de transporte e do artesanato 
local. Alm disso, utilizam hotis, pousadas, agncias de viagem, restaurantes, butiques, bazares e casas de dana. Turistas geram negcios e empregos.

Quadro 1

          City Tour

  Um dos grandes prazeres de viajar nas frias est em no ter horrios ou compromissos e poder caminhar sem pressa, ouvindo outros sotaques e outras lnguas, e 
descobrindo lugares interessantes. Muitas viagens tursticas no proporcionam essa despreocupao, conforme observou a gegrafa Ana Fani Alessandri Carlos:
  Cidade de Buenos Aires, manh ensolarada. Dentro de um nibus que ia iniciar um city tour um turista se dirige  guia: de manh vamos conhecer a cidade (duas horas 
como se isso fosse possvel, mas os city tour parecem ter poder de convencer o turista dessa possibilidade),  
noite vamos ouvir tango para o qual fizemos a reserva com voc,  tarde passeio ao Tigre (1) veja a pgina 334, amanh pela manh vamos fazer compras,  noite outro 
show de tango (tambm com reserva feita pela guia numa outra casa de tango para turista, com jantar includo). O que vamos fazer  tarde? No tem nada programado? 
(A. F. A. Carlos, O lugar no/do mundo, p. 119.)
 fim do quadro

110 
  Calculase que em todo o mundo devam existir mais de 130 milhes de empregos direta ou indiretamente ligados ao turismo, como os de garom, motorista de txis, 
arrumadeira, recepcionista, balconista, msico, danarino, tradutor e intrprete. Na Europa, o turismo emprega diretamente 5 milhes de pessoas, nmero maior do 
que o de trabalhadores agrcolas do continente. S na Frana so mais de 500 mil pessoas.
  Os alemes so o povo que mais viaja no mundo. Eles gastam, fora do pas, cerca de 25 bilhes de dlares por ano. So seguidos pelos japoneses (fig. 1), que gastam 
mais de 15 bilhes de dlares anuais.

Figura 1.

foto mostrando um grupo de pessoas sendo fotografado. A seguir, legenda
  Turistas japoneses na base da pirmide de Giz, no Cairo (Egito). Devido ao poderio da indstria eletrnica do Japo, os turistas do pas costumam carregar sofisticadas 
mquinas de filmar e de fotografar em suas viagens.

Atividade 1 

          Escolhendo um pacote turstico

  Se voc tivesse um ms de frias, dinheiro para gastar e pudesse optar por um desses pacotes anunciados nos cadernos de turismo dos jornais, qual escolheria? Pesquise 
as alternativas e exponha na sala de aula a sua opo.

Turismo: um fenmeno urbano

  O turismo j foi muito diferente daquilo que  hoje. Ele foi criado pelos ingleses no sculo XIX, como alternativa de descanso longe da agitao das cidades.
  Nos meados desse sculo, cerca de 85% da populao inglesa j era urbana, sendo ento crescente o nmero de advogados, mdicos, engenheiros, funcionrios pblicos 
e comerciantes que podiam trabalhar na cidade e morar ou, ao menos, passar os finais de semana no campo. Os moradores das cidades sonhavam com uma casa no campo, 
cercada de flores e de tranqilidade.
  Era tambm comum a busca da inspirao artstica em cenrios naturais, como as montanhas e mares realados pela luz do sol. Fazer um tour  palavra francesa  significava 
excursionar para o campo ou para a praia (fig. 2), como forma de descansar e escapar do correcorre das grandes cidades.

Figura 2.

foto mostrando pessoas na praia usando roupas do cotidiano. A seguir, legenda
  Banho de mar em um balnerio em Norfolk (Inglaterra), em 1892. Muito antes das sungas e dos biqunis cavados.

111
  Mas isso no era para qualquer um. Os nobres, por exemplo, que dispunham de mais tempo livre, tinham seus locais e perodos preferidos. Nada era mais chic do que 
passar uma temporada de inverno no sul da Frana e visitar Nice (fig. 3) ou Cannes. Para l se dirigiam as famlias reais da Inglaterra, da Rssia, da Blgica, da 
ustria. Nas colinas dessa regio mediterrnea francesa, duques, condes e princesas construram belos e confortveis castelos, cercados de exuberantes jardins. Ao 
mesmo tempo, o desenvolvimento da indstria naval permitiu que os turistas europeus ganhassem os mares. Suntuosos navios (fig. 4) passaram a cruzar o Mediterrneo 
e o Atlntico em grandes tours  frica e  Amrica.

Figura 3. 

foto mostrando pessoas de mais ou sungas em uma praia. A seguir, legenda
  Nice, na Frana, em 1993. A costa francesa do Mar Mediterrneo, conhecida pelas praias e pelos veres ensolarados,  chamada de Cot d'Azur.

Figura 4. 

foto mostrando os compartimentos de um transatlntico: popa, tombadilho, salo, chamin, reas de jogos, ginsio, piscina, antena de rdio, radar, terrao aberto, 
bombordo, proa, estbordo, leme, hlice, casa das mquinas, cinema, barco salvavidas, camarote, salo de jantar e salo de baile. A seguir, legenda
  At hoje, grandes transatlnticos como esse levam milhares de turistas em cruzeiros pelas mais diferentes rotas ocenicas. 

Atividade 2 

          O campo e a cidade na viso do artista

  A figura 5 reproduz uma obra de Honor Daumier, um dos primeiros artistas franceses a desenvolver o romantismo na pintura. Nesse trabalho, ele procurou expressar 
a condio humana de quem vivia em grandes cidades. J a segunda reproduo (fig. 6), de Caspar David Friedrich, reflete o fascnio do artista alemo pelas foras 
da natureza.

Figura 5.

reproduo de um quadro mostrando vrias pessoas sentadas, usando trajes simples. A seguir, legenda
  O vago de terceira classe (1862), de Honor Daumier.

Figura 6.

reproduo de um quadro mostrando um homem em p sobre uma pedra, olhando a neblina que cobre quase tudo, deixando visvel apenas algumas pontas de pedras. A seguir, 
legenda
  O caminhante acima da neblina, de Gaspar David Friedrich.

  Responda em seu caderno:

 1. Que sensaes cada uma dessas pinturas provoca em voc?
 2. De qual delas voc gosta mais? Por qu?
 3. "O desenvolvimento urbano e industrial acentuou, num primeiro momento, a separao entre cidade e campo". Explique essa frase.

O espao turstico mundial

  Atualmente, os principais plos do turismo internacional so os pases europeus e os Estados Unidos, que registram 75% do total de sadas e chegadas de turistas 
que circulam entre os pases, e acolhem seis vezes mais turistas do que a China e trinta vezes mais do que a Tailndia, por exemplo.
  As populaes da Europa e dos Estados Unidos, de poder aquisitivo mais elevado, so as que mais viajam. Veja o mapa (fig. 7). Os franceses, por exemplo, gastam 
em mdia 2 mil dlares por ano em frias e pelo menos 70% deles j realizaram alguma viagem turstica na vida. Em contrapartida, por exemplo, apenas 7% da populao 
da Tunsia teve essa oportunidade.

113

Figura 7. 

mapa mostrando os fluxos internacionais do turismo:
  Principais fluxos do turismo
 Principais plos (em nmero de turistas)
 o Pases de partida
 o Pases de destino
  Centros tursticos
  Legenda: Os pases da Europa e os Estados Unidos so, ao mesmo tempo, os principais pontos de partida e de destino do turismo internacional

  Os europeus destacamse nas estatsticas internacionais pelo grande movimento turstico entre os pases do prprio continente. Em especial no vero, os do norte 
se dirigem para a regio do Mar Mediterrneo, principalmente para os balnerios da Costa do Sol e da Costa Brava, na Espanha (fig. 8), de Cte d'Azur, na Frana 
e da Riviera italiana (2), e para as ilhas gregas. Nessas localidades, eles se misturam aos visitantes norteamericanos, japoneses e de vrias outras nacionalidades. 
O nmero de turistas que entra e sai do continente tambm  o maior do mundo.

Figura 8.

foto mostrando a vista area de Tossa del Mar, na Costa Brava (Espanha). A alternncia das estaes regula o calendrio turstico da Europa: no vero, os balnerios 
mediterrneos so os lugares mais visitados

  As cidades europias apresentam uma grande variedade de estilos arquitetnicos, museus, jardins, parques, praas e monumentos histricos, que constituem fortes 
atrativos tursticos.
  A intensa atividade desenvolvida em museus, teatros e bibliotecas  shows, encenaes de peas e peras, exposies de arte etc.  explicam a importncia do turismo 
cultural de 
114
Londres, Paris e Amsterd. Veneza, na Itlia,  tambm se destaca nesse setor, atraindo milhes de turistas anualmente.
  Toda essa movimentao altera bastante o cotidiano das cidades, principalmente na primavera e no vero. Em julho, o auge do vero no Hemisfrio Norte, o nmero 
de turistas aumenta significativamente. Nessa poca, muitos moradores abandonam suas casas nas cidades e partem para a praia ou a montanha, estendendo suas frias 
at setembro, quando voltam s aulas e ao trabalho.
  Quatro pases europeus dividem o movimento turstico de inverno: a Frana, a Sua (fig. 9), a ustria e a Itlia. Todos eles oferecem bemequipadas estaes de 
esqui em suas vertentes alpinas. O esqui tambm  praticado nas estaes romenas, eslovenas, tchecas e alems.

Figura 9.

foto mostrando a maratona de esqui em Saint Moritz, nos Alpes suos. Durante o inverno, os turistas procuram praticar esportes e se divertir no gelo

  Os maiores fluxos de europeus para fora do continente direcionamse para os Estados Unidos, seguidos pela frica (Marrocos, Tunsia e Egito, alm de Senegal, Costa 
do Marfim e Qunia). Outros fluxos importantes seguem para o Oriente Mdio, a ndia e o Sudeste Asitico.
  Na Amrica do Sul, os turistas europeus demonstram um forte interesse pelo Peru, devido s runas da civilizao incaica, como as existentes em Machu Picchu. O 
Brasil tambm tem sido um local de muita procura, principalmente em funo do carnaval e das praias do Rio de Janeiro e do Nordeste. Para os apreciadores de belezas 
naturais, o Brasil oferece ainda a Floresta Amaznica, o Pantanal Matogrossense e a foz do Rio Iguau (fig. 10).

Figura 10.

foto mostrando as Cataratas do Iguau, na fronteira da Argentina com o Brasil, formam uma das mais belas e imponentes paisagens naturais do planeta

  Nos Estados Unidos, promovese uma atividade turstica bem diferenciada da europia. Seus parques temticos, como a Disneylndia, e cassinos, como os de Las Vegas, 
tornam o pas o maior centro do turismo internacional em termos de movimentao de dinheiro.
  Os parques temticos da empresa Disney vendem uma sensao de aventura, que pode ser desfrutada com conforto e segurana. Isso ajuda a entender o sucesso do empreendimento. 
A Disneyworld, por exemplo, compese de vrios parques temticos, com dezenas de opes de entretenimento. Tratase de uma gigantesca mquina de 
115
diverso e de fazer dinheiro, onde o visitante pode participar de experincias virtuais, como descer a corredeira de um rio no mundo prhistrico ou passear por 
cenrios com construes tpicas de diversos pases (Mxico, Noruega, China, Alemanha, Itlia, Japo, Marrocos), repletos de restaurantes e atraes culturais. Para 
quem aprecia o mar, a Disney oferece passeios de transatlntico at uma ilha particular da empresa nas Bahamas.
  Um dos mais recentes empreendimentos da Disneyworld  o Animal Kingdom (Reino Animal), parque que custou um investimento de 800 milhes de dlares e levou oito 
anos para ficar pronto. Sua produo envolveu o recrutamento de animais silvestres numa quantidade e variedade que foram comparadas pela imprensa norteamericana 
 "arca de No". Ao todo so cerca de mil animais vivos de duzentas espcies. Os visitantes embarcam num caminho e passeiam por uma rea que reproduz a vegetao 
da savana africana.  possvel ver elefantes e hipoptamos se refrescando na gua, lees descansando  sombra e girafas se alimentando com folhas das copas das rvores 
e sem correr os riscos de um verdadeiro safri  frica!
  Mas nem tudo  diverso nos parques da Disney. A morte de alguns animais no transporte ou na adaptao ao novo ambiente motivou protestos de vrias entidades ecolgicas 
do mundo.
  O turismo interno  muito intenso nos Estados Unidos, sendo os estados da Flrida e da Califrnia os principais centros do turismo balnerio. Os parques naturais 
norteamericanos  como o das Cataratas do Nigara e o do Grand Canyon (fig. 11)  tambm so muito visitados.

Figura 11. 

foto mostrando o Grand Canyon, no Arizona (Estados Unidos). Tratase de uma srie de gargantas rochosas esculpidas pela ao do vento e da gua, atravessada pelo 
Rio Colorado

  Nova Iorque, com seus museus, bibliotecas e teatros, concorre com as cidades europias em termos de atrativos do turismo cultural.
  O Museu de Arte Metropolitan (fig. 12, pg. 116 no livro em tinta) possui mais de 2 milhes de objetos, expostos numa rea de 130 mil metros quadrados de sales, 
alas e anexos. O acervo permanente apresenta desde peas datadas do sexto milnio a.C. at exemplares da arte contempornea, passando pelas obras dos mais importantes 
pintores da histria da arte europia. Alm disso, abriga mais de 4 mil instrumentos musicais, mveis e peas de vesturio, que 
116
podem transportar o visitante a diferentes pocas da histria. At mesmo um jardim imperial, nos moldes dos construdos na China antiga, foi reconstitudo numa ala 
dedicada  cultura oriental.

Figura 12. 

foto mostrando a fachada do Metropolitan, em Nova Iorque, guarda a memria de sculos de  histria de povos das mais diferentes regies do planeta. Por isso,  um 
dos museus mais importantes do mundo

  Outro museu que impressiona o turista  o Museu de Histria Natural, que possui o maior acervo mundial do gnero. As exposies so um show de tecnologia, com 
seqncias dinmicas de fenmenos da natureza e cenas do passado da Terra. Nesses verdadeiros "espetculos", o visitante  convidado a interagir com as informaes 
e imagens. Ningum ali  um mero espectador. O visitante pode buscar informaes adicionais em terminais de computador e participar dos inmeros cursos e palestras 
oferecidos todos os dias.

Atividade 3 

          CartoPostal

  O cartopostal tornouse uma marca registrada da atividade turstica, pois  um jeito de compartilhar a viagem com parentes e amigos. Rena com sua turma os cartespostais 
que tenham em casa e organize uma exposio. Discuta antes com seus colegas um critrio para classificar os vrios tipos de cartespostais encontrados.

O turismo no Brasil

  O turismo no Brasil representa uma parcela pequena do fluxo internacional. Em meados da dcada de 1990, cerca de 1 milho e 500 mil turistas estrangeiros entravam 
no pas anualmente, o que no ultrapassa 0,5% do movimento internacional. Contudo, a atividade tem potencial para se tornar uma importante fonte de captao de recursos 
externos. Tendo isso em vista, a Embratur (Empresa Brasileira de Turismo) vem adotando uma poltica mais agressiva de incentivo ao turismo, incluindo o estmulo 
a novas modalidades de atividade turstica, como o chamado ecoturismo. Leia mais sobre o ecoturismo no quadro 2.

117

Quadro 2

          O ecoturismo no Brasil

  O ecoturismo, considerado por muitos especialistas o turismo do futuro, tem sido tema de vrias reunies internacionais. No Congresso Mundial de Ecoturismo realizado 
em Belize, na Amrica Central, em 1992, ele foi definido como "o turismo dedicado ao desfrute da natureza de forma ativa, com o objetivo de conhecer e interpretar 
os valores naturais e culturais existentes em estreita integrao e interao com as comunidades locais e com o menor impacto sobre os recursos, sob a gide de apoiar 
os esforos dedicados  preservao e manejo das reas naturais onde se desenvolve, ou daquelas prioritrias para a manuteno da biodiversidade".
  O Brasil possui uma ampla e detalhada legislao de proteo ambiental, alm de inmeras unidades de conservao ambiental sob proteo da lei. As estaes ecolgicas, 
as reservas biolgicas e as ecolgicas, os parques nacionais, as reservas indgenas e as extrativistas, entre outras unidades de conservao espalhadas pelo territrio 
nacional, oferecem muitas alternativas para os turistas.  cada vez maior a oferta de pacotes tursticos que incluem caminhadas em trilhas ecolgicas no meio da 
Mata Atlntica, visitas a mangues, banhos de cachoeira, passeios de barco, excurses em serras de picos rochosos e grutas, observao de pssaros etc. O ecoturismo 
tem enorme potencial de desenvolvimento no pas. (Baseado em A. B. Rodrigues (org.), Turismo e ambiente.)
 fim do quadro

  Como resultado dessa poltica de incentivos, j se observa o crescimento da entrada de turistas vindos dos pases do Mercosul, dos Estados Unidos e da Europa. 
Segundo as previses da Embratur, o nmero de turistas estrangeiros dobrar nos prximos anos. Aos poucos, os fluxos em direo ao Rio de Janeiro vo dividindo espao 
com outros portes de entrada, como Porto Alegre, Manaus, So Paulo e Salvador.
  As iniciativas de implantao de infraestrutura bsica para o turismo (abertura de novas estradas de acesso, melhoria da rede eltrica, implantao de rede de 
esgoto) e a revitalizao de centros histricos em vrios ncleos urbanos vm atraindo a iniciativa privada, que participa com investimentos diretos na expanso 
da estrutura hoteleira e de servios.
  A regio que mais tem se beneficiado com esse tipo de poltica  o Nordeste, que est se transformando na principal porta de entrada dos visitantes norteamericanos 
e europeus, e se afirmando como plo turstico de projeo internacional (fig. 13).

Figura 13. 

foto mostrando a Praia de Ponta Negra, em Natal, Rio Grande do Norte. As praias paradisacas do Nordeste brasileiro esto na mira dos organismos criados para incrementar 
o turismo no pas

118
Impacto socioambiental

  Praticamente todos os lugares possuem algum potencial turstico. Mas, para atrair visitantes,  preciso garantirlhes conforto e segurana, o que exige uma moderna 
rede hoteleira, boa infraestrutura de transportes e de telecomunicaes, alm de acesso fcil s informaes (guias, mapas e roteiros culturais).  o que vem fazendo 
o governo cubano, por exemplo. Graas a parcerias com redes hoteleiras espanholas e italianas, e  intensiva divulgao publicitria da beleza natural de suas praias, 
Cuba obtm, hoje, mais de 500 milhes de dlares com o turismo, sendo seu objetivo atrair 10 milhes de turistas ao ano.
  O chamado turismo de eventos tambm tem atrado a ateno de governos e empresrios. A realizao de eventos esportivos (como os Jogos Olmpicos), festivais de 
msica ou de teatro, feiras e congressos cientficos promovem a atividade turstica por representarem um forte atrativo para inmeras pessoas. Veja um exemplo na 
foto (fig. 14).

Figura 14.

foto mostrando as festividades de abertura das Olimpadas de Barcelona, em 1992. Durante os jogos Olmpicos, a cidade onde eles se realizam recebe um grande nmero 
de turistas, alm de delegaes esportivas e de jornalistas do mundo inteiro

  So Paulo  o melhor exemplo brasileiro do turismo de eventos, graas  combinao de oportunidades de negcios, opes de compras e lazer sofisticado que oferece 
a seus visitantes. Veja a foto (fig. 15). S a Bienal do Livro atrai para a capital paulista cerca de 500 mil turistas. Mais de 40 mil congressos, seminrios, feiras 
e shows so realizados anualmente em So Paulo. Calculase que isso represente um afluxo de cerca de 10 milhes de turistas, sendo a maioria brasileiros.

Figura 15. 

foto mostrando a XXIII Bienal de Arte Moderna de So Paulo, em 1998. Artistas do mundo inteiro expem trabalhos artsticos inovadores nessa bienal

119
Atividade 4 

          Turismo e propaganda

  Analise a reproduo de uma propaganda do turismo em Cuba, veiculada em maio de 1998.

 1. Qual  a mensagem visual que a propaganda procura passar?
 2. Que atrativos o texto acrescenta para o turista?

Figura 16.

a reproduo mostra parte de uma praia paradisaca, com coqueiros, um barquinho e poucas pessoas. A seguir, legenda
  Cuba: Aqui  tudo camarada. Inclusive os preos!
  Se para voc Cuba se resume a Fidel Castro e charutos, camarada, est na hora de descobrir os segredos desta belssima ilha. Um povo alegre e hospitaleiro, praias 
paradisacas, hotis de primeira classe, vida noturna agitadssima, enfim, tudo que um bom capitalista adora. Mas os preos continuam camaradas.
  Este  apenas um dos novos produtos com a qualidade Visual.Confira.

  Embora o turismo sempre represente uma boa fonte de recursos, ele pode trazer problemas sociais e ambientais para os pases que no possuem infraestrutura e rede 
de servios dimensionadas para receber grandes contingentes de visitantes.
  As Bahamas, o Hava, as Ilhas Canrias, Seychelles e outros chamados parasos tropicais, por exemplo, so lugares que qualquer pessoa sonha conhecer. Eles recebem 
milhes de turistas a cada ano, o que representa mais de seis vezes a sua populao local. Em poca de alta temporada, o destino do lixo, a preservao das matas 
e das fontes de gua limpa tornamse srios problemas de degradao ambiental. A atividade turstica deixa para trs um rastro de latas, garrafas plsticas e outros 
tipos de lixo nobiodegradvel (3).
  A invaso de turistas pode provocar, ainda, choques culturais. Em geral, o visitante traz hbitos culturais diferentes daqueles que predominam na comunidade que 
o recebe. Nem sempre essas diferenas so tratadas com respeito pelos turistas. Uma criana catando caranguejo na lama do mangue, as casas dos pescadores ao lado 
das dunas ou mulheres lavando roupa na beira do rio podem virar um espetculo aos olhos do turista. Os moradores do local perdem sua privacidade e passam a ser observados 
e fotografados.
120
  Alm disso, o poder de compra do turista costuma encarecer a vida nos lugares tursticos. No perodo da temporada, os preos de aluguis, vesturio e alimentos 
sobem, e a populao local no tem como se abastecer. Tudo vira souvenir, ou seja, uma lembrana do lugar, que o turista leva para casa: arcos e flechas dos ndios, 
corais arrancados dos recifes, potes de barro  etc. Outro problema referese ao "turismo sexual" (leia o quadro 3).
  Muitos dos empregos gerados pelo turismo so sazonais. Passada a temporada, bares, restaurantes e hotis ficam vazios e os fregueses desaparecem das lojas. Assim, 
as oportunidades de trabalho costumam ir embora junto com os turistas.

Quadro 3

          Os corpos de nossas meninas

  A prostituio infantojuvenil vem sendo tratada como questo ligada ao turismo sexual. Muito se fala do absurdo de homens virem de outros pases em busca dos corpos 
de nossas meninas. A indignao frente aos pacotes que vendem o Brasil como um paraso sexual, onde todos podem usufruir de corpos morenos ou loiros, na flor da 
adolescncia, motivou a realizao da campanha nacional contra a perversa realidade. [...]
  A falta de polticas bsicas de educao, sade, capacitao profissional e promoo social agrava a excluso social de milhares de crianas e adolescentes. Forados 
pela necessidade de trabalhar, muitos abandonam a escola. Sem conseguir insero no mercado de trabalho, encontram na prostituio uma das nicas formas de sobrevivncia 
econmica. [...] A sociedade precisa encarar esse drama, cobrar das autoridades, participar. Precisamos tambm utilizar e fortalecer os mecanismos de defesa da cidadania 
de crianas e adolescentes, como os Conselhos de Direito, Conselhos Tutelares e Ministrio Pblico. (Maria Lcia Prandi, Folha de S. Paulo, 2 maio 1997.)
 fim do quadro

Passando a limpo 

 1. Considerando o captulo estudado e o grfico da figura 17, discuta a importncia da atividade turstica no mundo contemporneo.
R

Figura 17.

          Entrada anual de turistas e 
          arrecadao da atividade 
          turstica

 Contedo do grfico
 o Itlia:
  47 milhes de turistas
  9 milhes de dlares norteamericanos
 o Espanha:
  41 milhes de turistas
  7 milhes de dlares norteamericanos
 o Frana:
  33 milhes de turistas
  7 milhes de dlares norteamericanos
 o ustria:
  14 milhes de turistas
  5 milhes de dlares norteamericanos
 o ExTchecoslovquia:
  14 milhes de turistas
  1 milho de dlares norteamericanos
 o Reino Unido:
  12 milhes de turistas
  6 milhes de dlares norteamericanos
 o Alemanha:
  10 milhes de turistas
  5 milhes de dlares norteamericanos
 o Sua:
  9 milhes de turistas
  3 milhes de dlares norteamericanos
 o Estados Unidos:
  20 milhes de turistas
  11 milhes de dlares norteamericanos
 o Canad:
  12 milhes de turistas
  3 milhes de dlares norteamericanos
 o China:
  9 milhes de turistas
  1 milho de dlares norteamericanos
 o Antiga URSS:
  7 milhes de turistas
 o Mxico:
  4 milhes de turistas
  2 milhes de dlares norteamericanos
 o Cingapura:
  3 milhes de turistas
  2 milhes de dlares norteamericanos
 o Marrocos:
  2 milhes de turistas
  1 milho de dlares norteamericanos
 o Brasil:
  1,5 milhes de turistas
  2 milhes de dlares norteamericanos
 o Austrlia:
  1 milho de turistas
  1 milho de dlares norteamericanos

 2. Faa um cartaz que possa ser usado como propaganda turstica do Brasil para a populao da Europa, dos Estados Unidos e do Japo.

Notas de rodap

 (1) Tigre  Cidade situada a 32 quilmetros de Buenos Aires, na desembocadura do Rio Paran de Las Palmas.
 (2) Riviera italiana  Regio turstica da costa da Itlia voltada para o Mar Tirreno.
 (3) Biodegradvel  Substncia que pode ser decomposta por microrganismos.

               oooooooooooo
121

Captulo 9

          A geografia das cidades mundiais e das megacidades

  Nem sempre o maior pode mais, pelo menos quando se analisam as cidades. Frankfurt, na Alemanha, por exemplo, tem cerca de 500 mil habitantes e  menor do que Campinas, 
no Estado de So Paulo, onde vive quase 1 milho de pessoas. Apesar disso, a cidade alem aparece no cenrio internacional com muito mais destaque do que a brasileira. 
E no  para menos: Frankfurt est entre as principais praas financeiras do mundo e sua bolsa de valores (fig. 1) ocupa o terceiro lugar europeu e o quinto lugar 
mundial em volume de capitais negociados. Campinas, apesar de ser um dos principais plos de produo de tecnologia do Brasil e de abrigar a Universidade Estadual 
de Campinas, uma das melhores do pas, no participa intensamente dos fluxos globais de capitais, no oferece servios especializados para o mundo inteiro e no 
sedia grandes corporaes internacionais.

Figura 1.

foto mostrando algumas pessoas na Bolsa de Valores de Frankfurt  um dos centros do mercado financeiro internacional

  As cidades que exercem uma influncia decisiva no mercado global de capitais e de servios so conhecidas como cidades mundiais. Por sua vez, as aglomeraes urbanas 
que possuem grandes contingentes populacionais, ocupam extensas reas e esto conurbadas (1) veja a pgina 373 com as suas vizinhas so conhecidas como megacidades. 
Observe que so duas situaes completamente diferentes: existem cerca de duas dezenas de megacidades no mundo, mas poucas delas, como Tquio e Nova Iorque, so 
tambm cidades mundiais. Neste captulo, vamos conhecer mais de perto duas cidades mundiais e duas megacidades.

122
As cidades mundiais

  Londres, Nova Iorque, Paris e Tquio figuram entre as mais importantes cidades mundiais da atualidade. Elas abrigam sedes de grupos empresariais e instituies 
financeiras que atuam em muitos pases do mundo. Nelas so tomadas decises que afetam a vida de centenas de milhes de pessoas, entre as quais os trabalhadores 
de suas filiais e os consumidores de seus produtos. Em todas elas encontramse importantes bolsas de valores, pelas quais circulam milhes de dlares todos os dias.
  As cidades mundiais so fruto das inovaes tecnolgicas das ltimas dcadas nos campos da telecomunicao e da informtica. Para que elas existam,  fundamental 
que as informaes sobre os diversos mercados de capitais e as decises empresariais possam ser enviadas simultaneamente para vrias partes do mundo. Ou seja, as 
cidades mundiais dependem de um sistema globalizado de informaes (leia mais sobre isso no quadro 1). Por isso elas podem ser consideradas pontos de emisso de 
sinais para outras partes do mundo.
  Para fazer a informao fluir para vrias partes do mundo ao mesmo tempo, avanados sistemas de telecomunicao funcionam em conjunto com sistemas de informtica 
nas cidades mundiais. Isso facilita os negcios do setor de servios  como os de propaganda e marketing, os de seguros (no apenas de automveis e casas, mas principalmente 
de empreendimentos)  e tambm as transaes financeiras.
  Uma agncia de propaganda localizada em Nova Iorque, por exemplo, responsvel pela publicidade de uma empresa transnacional, pode enviar para vrias partes do 
mundo o material da campanha (anncios, slogans etc.) que criou para seu cliente. O mesmo ocorre com uma seguradora que, usando a informtica e as telecomunicaes, 
faz reunies virtuais com clientes do mundo inteiro.
  Nas sedes das instituies financeiras e dos grandes bancos definemse polticas que iro nortear a ao de suas unidades dispersas pelo mundo. Para l convergem, 
em tempo real, dados referentes aos resultados dos negcios realizados nas agncias. Assim, os diretores ficam sabendo a situao, por exemplo, do pagamento de ttulos, 
da concesso de emprstimos, dos juros cobrados dos clientes etc.

Quadro 1

          A era da informao globalizada

  O gegrafo Milton Santos acredita que a simultaneidade da informao, que conecta as cidades mundiais umas com as outras e com o resto do mundo,  uma das principais 
caractersticas do perodo em que vivemos.  De acordo com ele:
  Durante milnios, a histria do homem fezse a partir de momentos divergentes, como uma soma de aconteceres dispersos, disparatados, desconexos. J a histria do 
homem de nossa gerao  aquela em que os momentos convergiram, o acontecer de cada lugar podendo ser imediatamente comunicado a qualquer outro, graas a esse domnio 
do tempo e do espao em escala planetria. A instantaneidade da informao globalizada aproxima os lugares, torna possvel uma tomada de conhecimento de imediato 
de acontecimentos simultneos e cria entre lugares e acontecimentos uma relao unitria  escala do mundo. Hoje, cada momento compreende, em todos os lugares, eventos 
que so independentes, includos em um mesmo sistema global de relaes. (M. Santos, A natureza do espao, p. 162.)
 fim do quadro 

123
  Apesar de muitos negcios serem fechados a longa distncia, por meio de mensagens enviadas por computador ou telefone, a assinatura de contratos ou a definio 
de seus pontos polmicos costuma exigir o encontro direto entre clientes e vendedores. Por isso as cidades mundiais possuem uma extensa rede de hotis, grandes aeroportos 
e inmeros restaurantes, que recebem executivos do mundo inteiro.
  As cidades mundiais tambm se destacam pela grande oferta de equipamentos culturais. Museus, cinemas, centros culturais, monumentos arquitetnicos, parques e teatros, 
entre outros, so opes de entretenimento cultural e de lazer para os que vivem ou esto de passagem por uma cidade mundial. Veja as fotos (figuras 2, 3 e 4).

Figura 2. 

foto mostrando a vista do Centro Georges Pompidou, em Paris. Seus museus, teatros, salas de concerto, bibliotecas e livrarias ajudam a tornar ainda mais intensa 
a vida cultural da capital francesa

Figura 3. 

foto mostrando a esplendorosa Catedral de Notre Dame, em Paris,  um dos templos religiosos mais visitados do mundo

Figura 4. 

foto mostrando parte do Hyde Park, em Londres (Inglaterra). Durante a primavera, os famosos jardins londrinos emprestam o colorido das flores  paisagem predominantemente 
cinza da cidade

Atividade 1

          As cidades mundiais

  A partir de pesquisas em atlas e livros, faa um dossi (em grupo) sobre uma das cidades mundiais citadas no texto. O relatrio deve incluir informaes histricas 
e dados atuais sobre a extenso da cidade, sua populao, principais atividades, grupos empresariais que sedia etc. Cada grupo deve dar uma aula para a turma acerca 
da cidade escolhida.

Nova Iorque

  Os ndios alonquianos foram os primeiros a se estabelecerem no sul da ilha formada pelo esturio do Rio Hudson, hoje mundialmente conhecida como Ilha de 
 Manhattan. Em 1629, os holandeses compraram a ilha dos nativos e nela fundaram uma pequena cidade porturia, Nova Amsterd. Em 1664, j dominada pelos britnicos, 
a cidade foi rebatizada como New York, em homenagem ao duque de York. Ningum podia imaginar que a pequena cidade fundada pelos holandeses, espremida em uma ilha, 
iria se espalhar pelas bacias e 
 ilhas adjacentes e se transformar em um dos mais importantes plos industriais dos Estados Unidos e, mais tarde, em uma cidade mundial que sedia grandes empresas 
transnacionais e produz servios e informaes que circulam no mundo inteiro. A presena da sede da ONU refora a importncia poltica da cidade no cenrio mundial.
  Atualmente, Nova Iorque e seus cinco distritos  Bronx, Brooklyn, Manhattan, Queens e Staten Island  ocupam uma rea urbana superior a 750 quilmetros quadrados. 
Veja o mapa (fig. 5).

Figura 5. 

mapa da cidade de Nova Iorque mostrando os distritos e o limite estadual. A seguir, legenda
  Um complexo sistema de tneis e pontes liga a Ilha de Manhattan aos outros distritos de Nova Iorque.

  Mais de 9 milhes de pessoas, das mais diversas origens e culturas, habitam a cidade. Essa diversidade talvez seja o que Nova Iorque tem de mais espetacular. No 
h, nem em Israel, nenhuma cidade com tantos judeus, assim como no  provvel que exista, mesmo no continente africano, um contingente to grande de negros morando 
na mesma cidade. Alm dessas, outras importantes comunidades (de origem hispnica, italiana, asitica e at mesmo brasileira) ajudam a garantir o to caracterstico 
colorido cosmopolita de Nova Iorque.
  O distrito de Manhattan  o corao comercial, cultural e financeiro da cidade. Cerca de 30% dos negcios com aes realizados diariamente no mundo inteiro so 
fechados nas instituies financeiras de Wall Street, no sul da ilha. O distrito tambm ficou conhecido como a capital mundial dos arranhacus: entre os milhares 
de prdios famosos que o distrito aloja destacase o 
 Empire State Building (fig. 6), que j foi o maior edifcio do mundo com seus 102 andares. Mais de 85 milhes de pessoas j visitaram o seu topo, que oferece uma 
viso privilegiada da paisagem urbana. Outro de seus prdios imponentes  o Chrysler Building, construdo em 1930, com 77 andares.

Figura 6. 

foto mostrando o Empire State Building, construdo em 1931,  um dos mais imponentes cartespostais de Nova Iorque

126
  As atividades culturais tambm ocorrem em larga escala na cidade, em especial na Ilha de 
 Manhattan. Espetculos ao ar livre, realizados no Central Park (fig. 7), mostras especiais de cinema, peas de teatro, apresentaes de msicos de jazz, galerias 
de arte, entre tantos outros itens fazem de Nova Iorque o mais importante plo cultural do mundo.

Figura 7. 

foto mostrando o Central Park. A seguir, legenda
  Os parques novaiorquinos ocupam uma rea superior a 20 mil hectares, o que equivale a cerca
de trs vezes a rea total da Ilha de Manhanttan. O Central Park, localizado na ilha,   o mais famoso deles, mas existem outros ainda maiores no Bronx, no Brooklyn 
e no Queens.

Tquio

  Em 1603, um poderoso chefe militar japons chamado Ieyasi Tokugawa foi nomeado xogum (uma espcie de general) e passou a ter mais poderes do que o imperador. Enquanto 
a famlia imperial permanecia em Quioto, Tokugawa elegeu Edo, vila de pescadores situada numa baa na costa leste da Ilha de Honshu, para sediar seu comando militar 
sobre o arquiplago japons. Durante a dinastia dos xoguns Tokugawa, que durou at 1867, a pequena e pacata Edo no parou de crescer em importncia e em populao, 
pois permaneceu como a capital do 
 xogunato. No final do sculo XVII, j era a maior cidade japonesa.
  Em 1868, com o fim da era dos xoguns e a restaurao do poder do imperador, Edo foi rebatizada como Tquio e transformouse na nova capital imperial. Comeava um 
perodo de rpida modernizao e de grandes investimentos industriais no Japo, grande parte dos quais direcionados para Tquio.
  Apesar de ter sido praticamente destruda duas vezes  primeiro, em conseqncia de um forte terremoto que arrasou a cidade em 1923 e, depois, devido aos intensos 
bombardeios sofridos durante a Segunda Guerra Mundial , Tquio (fig. 8)  hoje uma das maiores e mais importantes cidades mundiais. A cidade  tambm o corao de 
uma imensa rea urbana, que se estende por uma zona costeira de 70 quilmetros e engloba Yokohama, Kawasaki e Chiba. Cerca de 35 milhes de pessoas vivem nessa grande 
rea (fig. 9).

Figura 8.

foto mostrando uma ponte sobre a Baa de Tquio, Japo

Figura 9.

mapa da cidade de Tquio mostrando: rea urbanizada, limite de Tquio, limite entre municpios; ferrovias e rodovias. A seguir, legenda
  Devido  carncia de espao, os terrenos de Tquio so os mais valorizados do mundo.

  Na dcada de 1980, poca em que o Japo emergiu como uma grande potncia financeira e econmica, a Bolsa de Valores de Tquio passou a ter grande importncia no 
mercado financeiro internacional. Hoje ela
127
ocupa o terceiro lugar mundial em volume de aes negociadas. Devido  diferena de fuso horrio, quando a compra e venda de aes se encerra no Japo, o mercado 
ainda no comeou a funcionar nos Estados Unidos e nos pases da Europa. Por isso, as bolsas de valores norteamericanas e europias possuem analistas de planto 
que, durante a noite, acompanham as cotaes de Tquio para planejar os negcios a serem realizados ao longo do dia seguinte.
128
  A cidade concentra as sedes de grande parte das empresas e organismos internacionais que atuam no Japo. Alm disso, dispe de um vultoso poderio financeiro: dos 
cem maiores bancos do mundo, trinta esto sediados em Tquio, de onde comandam agncias dispersas por todo o planeta e as mais diferentes transaes no mercado mundial 
de capitais.
  Alm de ser a capital poltica e econmica, Tquio  tambm a capital cultural do pas. A cidade abriga centenas de salas de espetculo e de grupos de teatro, 
que encenam peas tradicionais do Japo e textos da dramaturgia ocidental. Diversos e importantes museus de artes e cincias encontramse nas proximidades do palcio 
imperial e em outros pontos da cidade. Na dcada de 1990, como parte de uma estratgia de incentivo ao turismo no pas, foram abertos o Museu da Histria de Tquio 
(tambm chamado Museu EdoTquio), cuja instalao consumiu 550 milhes de dlares, e o Museu de Arte Contempornea, que contou com investimentos da ordem de 600 
milhes de dlares.

Atividade 2

          Cultura e cidade

  Como estudamos, as cidades mundiais dispem de numerosos equipamentos culturais, como centros culturais, museus, galerias de arte, teatros etc. Faa, com seu grupo, 
um levantamento dos equipamentos culturais existentes na cidade mundial selecionada na atividade 1. Depois, construa um cartaz para expor para a turma os resultados 
da pesquisa.

As megacidades

  O surgimento das megacidades, grandes aglomeraes urbanas com mais de 10 milhes de habitantes, est associado  rpida urbanizao da populao mundial. Para 
voc ter uma idia, Londres levou mais de 130 anos para passar de 1 milho para 8 milhes de habitantes. Por sua vez, Lagos (Nigria) tinha pouco mais de 290 mil 
habitantes em 1950 e deve chegar, segundo projees da ONU, a mais de 24 milhes em 2015!
  Nos pases pobres, a urbanizao  uma realidade recente, que se acelerou aps a Segunda Guerra Mundial. Mesmo naqueles que no se industrializaram, os baixos 
salrios agrcolas e a concentrao da propriedade da terra empurram um nmero cada vez maior de trabalhadores do campo em direo s cidades. Clculos da ONU indicam 
que, a cada semana, cerca de 1 milho de pessoas deixam as zonas rurais e os pequenos ncleos urbanos em direo s grandes metrpoles do mundo.
  Atualmente, muitas das vinte maiores cidades do mundo  por exemplo, Cairo e Jacarta  esto localizadas em pases pobres (fig. 10), nos quais o poder pblico no 
tem recursos suficientes para investir em servios e em infraestrutura. Problemas como falta de moradia, aumento da poluio do ar, falta de gua e grandes enchentes 
tornamse cada vez mais comuns nessas imensas aglomeraes urbanas.

Figura 10

grfico demostrativo da populao das vinte maiores aglomeraes  1970200: ParisFrana, TianjimChina, MoscouRssia, OsakaJapo, LondresInglaterra, Los AngelesEstados 
Unidos, CairoEgito, PequimChina, Buenos AiresArgentina, JacartaIndonsia, Rio de JaneiroBrasil, TeerIr, SeulCoria do Sul, XangaiChina, Nova IorqueEstados Unidos, 
Mumbaindia, Calcutndia, TquioJapo, So PauloBrasil, Cidade do MxicoMxico. A seguir, legenda
  Em 1970, Tquio e Nova Iorque eram as cidades mais populosas do mundo. Atualmente, a Cidade do Mxico e So Paulo ocupam as primeiras posies.

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pea orientao ao professor

Calcut

  Calcut foi fundada em 1690 pelos ingleses. A localizao da cidade foi estrategicamente calculada: situada nas margens do Rio Hugli, um dos braos do delta do 
Rio Ganges, e a cerca de 150 quilmetros do Golfo de Bengala, Calcut seria a base de penetrao dos colonizadores britnicos sobre toda a plancie do Rio Ganges. 
Observe o mapa (fig. 11, pg. 130 no livro em tinta).

Figura 11.

mapa mostrando a ndia

  Em 1773, j transformada em um importante plo dos negcios britnicos na regio, Calcut foi escolhida como capital da ndia Britnica, condio que perderia 
para Nova Dlhi em 1911.
  Ao longo do sculo XX, Calcut viveu um intenso processo de industrializao, ligado principalmente aos setores txtil, de transformao mineral e qumico. Seu 
crescimento populacional intensificouse a partir da independncia da ndia, ocorrida em 1947, quando a cidade recebeu muitos refugiados vindos do Paquisto.
  Atualmente, ela  o corao de uma grande regio metropolitana, que se estende por 1.380 quilmetros quadrados e abriga cerca de 11 milhes de pessoas. Embora 
a maior parte da populao pertena  religio hindu, os cristos e os muulmanos formam minorias importantes.
  Calcut enfrenta uma srie de problemas comuns s outras megacidades, talvez agravados pelo fato de ser um dos lugares mais densamente povoados do mundo. A maior 
parte de suas ruas so estreitas e esto mal conservadas, o que ajuda a tornar o trnsito catico (fig. 12, pg. 130 no livro em tinta). Faltam moradias decentes: 
cerca de um tero da populao vive nos barracos apertados e mal ventilados das centenas de favelas existentes na cidade, conhecidas localmente como bustees. A oferta 
de gua potvel tambm no  suficiente para atender a todos; principalmente nos bairros mais pobres, as redes de esgoto e a coleta do lixo so precrias ou inexistentes.

130

Figura 12. 

foto mostrando o Centro de Calcut, na ndia. Nas ruas, milhares de pessoas disputam lugar com os automveis e caminhes

  Apesar dos problemas, Calcut  a capital cultural da ndia. A cidade abriga o mais importante centro de produo cinematogrfica e teatral do pas, alm de trs 
importantes universidades, institutos de pesquisa reconhecidos internacionalmente e as mais importantes bibliotecas pblicas. A ampla maioria dos livros, revistas 
e jornais em circulao na ndia  publicada na cidade, que tambm foi bero do poeta e humanista Rabindranath
131
Tagore (18611941), ganhador do Prmio Nobel de Literatura de 1913. Na Grande Calcut existem mais de trinta museus, sendo o Museu Indiano (fig. 13), fundado em 1814, 
o mais antigo. Seu acervo rene objetos arqueolgicos e documentos raros de extremo valor para a histria do pas.

Figura 13.

foto mostrando o Museu Nacional Indiano, em Calcut. Parte da longa histria da civilizao indiana est registrada nas imagens e objetos expostos nesse museu

Atividade 3

          Descobrindo Calcut

  Organize um debate com os colegas, comparando a vida em Calcut com a do municpio em que voc vive, principalmente em relao aos aspectos sociais, ambientais 
e culturais.

So Paulo

  Em 25 de janeiro de 1554, So Paulo foi fundada por jesutas portugueses, com a celebrao de uma missa. O lugar onde ocorreu a celebrao religiosa ficou conhecido 
como Ptio do Colgio (fig. 14).

Figura 14. 

foto mostrando parte de uma cidade. A seguir, legenda
  Ptio do Colgio, marco inicial da histria da cidade de So Paulo.

132
  Bem mais tarde, no sculo XIX, So Paulo se transformou em um entreposto comercial, ligando as reas de produo de caf do interior com o Porto de Santos. No 
final do sculo XIX, o caf era a principal mercadoria de exportao do Brasil, gerando muita riqueza para os fazendeiros e para os comerciantes. A cidade cresceu 
rapidamente, recebendo imigrantes de vrias partes do mundo. Muitos deles, assim que desembarcaram, foram encaminhados para a Hospedaria dos Imigrantes (fig. 15). 
Chegaram italianos, japoneses, portugueses e libaneses, entre todos os que ajudariam a transformar So Paulo em uma cidade cosmopolita.

Figura 15. 

foto mostrando a fachada da antiga Hospedaria dos Imigrantes, situada no bairro do Brs, em So Paulo, foi transformada em museu e, hoje, guarda parte da histria 
das muitas geraes de imigrantes que ajudaram a construir a cidade

  Entre o final do sculo XIX e o incio do sculo XX, surgiram as primeiras indstrias, principalmente no setor txtil. Na dcada de 1920, a cidade j abrigava 
uma montadora de automveis, a Ford.
  A industrializao do local ganhou impulso na dcada de 1950, quando o governo federal incentivou a instalao de novas indstrias de automveis. Um importante 
complexo metalrgico foi montado nas cidades vizinhas de Santo Andr, So Bernardo do Campo e So Caetano do Sul, cujo conjunto  conhecido por ABC paulista. Diadema 
sempre foi cidadedormitrio do ABC e faz parte do ABCD. Para abastecer as montadoras de carros, muitas fbricas de peas foram abertas na capital paulista, que viu 
crescer novos e importantes ramos industriais. Em pouco tempo, So Paulo tornouse um centro eminentemente industrial. Enquanto isso, novos moradores chegavam  cidade: 
dessa vez eram brasileiros, vindos principalmente da Regio Nordeste, em busca de emprego nas fbricas e na indstria de construo em expanso.
  A partir da dcada de 1970, a cidade sofreu outra mudana. As instituies financeiras e as empresas prestadoras de servios cresceram de tal forma que passaram 
a ser mais importantes do que as indstrias para o cotidiano da cidade. O centro industrial se transformava em metrpole, capaz de oferecer servios especializados 
para todo o Brasil.
  Atualmente So Paulo abriga cerca de 10 milhes de habitantes, que vivenciam de forma dramtica os problemas urbanos das megacidades. As imensas favelas denunciam 
uma situao crnica de falta de moradias. As redes de transporte coletivo so insuficientes para atender  enorme demanda. Grandes congestionamentos paralisam a 
cidade quase que diariamente. Na estao chuvosa, enchentes de propores a cada ano mais devastadoras causam destruio em bairros inteiros. Com o aumento do desemprego, 
a violncia urbana tem crescido significativamente.

Atividade 4
 
          A violncia urbana em questo

 1. Em maio de 1999, o jornal Folha de S. Paulo publicou um caderno especial a respeito do futuro das cidades. Nessa edio, o jornalista Gilberto 
 Dimenstein, ao analisar as taxas de homicdio no mundo, observou que os dados da violncia urbana contrariam o senso comum, concluindo que no  correto afirmar 
que h uma relao direta entre baixa renda e a violncia e criminalidade.
 a) Observe o mapa da figura 16 e procure explicar as razes que levaram o articulista a tirar essa concluso.

Figura 16.

mapa mostrando a taxa de homicdio no mundo (por 100 mil habitantes). A seguir, descrio
  Amrica do Norte 6,1 
  Nova Iorque 18,4
  Amrica Latina e Caribe 19,8 
  Rio de Janeiro 59,4
  So Paulo 55,6
  Europa (Oeste e Sul) 1,9 
  Paris 4,1
  Moscou 19,8
  Pases rabes 1,7
  frica Subsaariana 13,0
  Europa (Leste) 8,6
  sia (Leste) 5,5 
  Tquio 0,6
  sia (Sudeste) 5,6 
  Mumba (antiga Bombaim) 2,4
  sia (Sul) 2,2
  Mdia Mundial 8,5

 b) Qual seria a posio de So Paulo num ranking das cidades mais violentas, indicadas no mapa? 

 2. Como no se pode afirmar que h uma relao direta entre populao de baixa renda e criminalidade, o Ilanud (entidade da ONU que estuda a questo da violncia 
urbana) vem desenvolvendo uma idia que procura explicar melhor o problema da violncia urbana: ela estaria associada ao baixo capital social, medido pelo grau de 
integrao do indivduo em espaos de convivncia comunitria. Sobre esse assunto, Dimenstein concluiu seu artigo dizendo que "a capacidade de as cidades lidarem 
com a violncia vai estar diretamente associada  sua habilidade em aumentar o capital social, no s distribuindo renda, mas apostando em espaos de convivncia 
e integrao". (Folha de S. Paulo. Caderno Ano 2000  Cidades, 2 maio 1999.)
 a) Discuta com seus colegas a respeito do capital social da rea em que est inserida a sua escola. Existem espaos de convivncia e integrao entre os jovens?
 b) Que propostas a turma poderia apresentar para aumentar o capital social dos arredores da escola?

134
  So Paulo dispe de uma intensa vida cultural. O Teatro Municipal de So Paulo (fig. 17) e o Teatro Cultura Artstica esto entre os mais tradicionais da cidade. 
No setor de museus, os destaques so o Museu de Arte de So Paulo (Masp), que abriga obras de artistas do mundo inteiro, e a Pinacoteca do Estado. Salas de cinema 
no faltam, embora elas estejam concentradas nos shopping centers e na regio da Avenida Paulista (fig. 18). Vale lembrar ainda os restaurantes, para muitos o que 
a cidade tem de melhor a oferecer.

Figura 17. 

foto mostrando a fachada do Teatro Municipal. A seguir, legenda
  No palco do Teatro Municipal de So Paulo, apresentamse grupos teatrais e de dana e msicos reconhecidos internacionalmente.

Figura 18. 

foto mostrando a vista area da Avenida Paulista. A seguir, legenda 
  Aberta h mais de cem anos, a Avenida Paulista  hoje o corao financeiro de So Paulo, alm de abrigar uma grande quantidade de salas de cinema. 

  Alm disso, devido  promoo de um grande nmero de feiras especializadas, congressos e eventos esportivos, So Paulo  uma das cidades brasileiras que mais recebe 
turistas. Por isso, dispe de dezenas de hotis de alto padro.
  H muita polmica acerca da classificao da megacidade de So Paulo como cidade mundial. Muitos estudiosos argumentam que ela no sedia um nmero significativo 
de empresas transnacionais e sua praa financeira no est entre as principais do mundo. Outros pesquisadores, porm, afirmam que ela pode ser considerada uma cidade 
mundial devido  influncia que exerce no cenrio sulamericano.
  Alm de So Paulo, o Rio de Janeiro integra o time das megacidades brasileiras. Leia mais a respeito no quadro 2.

135
Quadro 2

          A cidade maravilhosa

  Conhecido internacionalmente por sua bela paisagem, o Rio de Janeiro cresceu em meio a uma rea extremamente acidentada. A populao de baixa renda instalouse 
predominantemente nos morros que cercam a cidade. Apenas os bairros de Santa Teresa e Laranjeiras, tambm encrustados nos morros, abrigam camadas com maior poder 
aquisitivo. A populao de alta renda ocupou preferencialmente a regio da orla martima.
  Antiga capital do pas, o Rio  sede de importantes atividades administrativas que, somadas ao turismo, caracterizamno como uma cidade terciria, apesar da presena 
de indstrias importantes em seu territrio.
  A Cidade Maravilhosa possui vrios teatros e casas de espetculos, alm de inmeros pontos de visitao pblica, como o Corcovado e o Po de Acar (fig. 19). 
Na dcada de 1980 foi construdo o Sambdromo, um lugar destinado ao desfile das escolas de samba, considerado um dos maiores espetculos da Terra. Alm disso, o 
Rio conta com o estdio do Maracan, o maior do mundo, palco de memorveis partidas de futebol.

Figura 19.

foto da vista do Po de Acar no Rio de Janeiro

Atividade 5

          Por dentro de So Paulo

  "A fora da grana que ergue e destri coisas belas"  um dos versos da msica Sampa, na qual o compositor baiano Caetano Veloso retrata a So Paulo da dcada de 
1960. Pesquisando a histria da cidade, encontre exemplos de coisas belas que tenham sido erguidas e destrudas na cidade. Exponha o resultado de seu trabalho em 
sala de aula.

Passando a limpo

 1. Descreva no seu caderno as principais caractersticas de uma cidade mundial.
 2. Promova uma discusso com os colegas sobre as vantagens e desvantagens de viver em uma megacidade.

Notas de rodap

 (1) Conurbadas  Que sofreram conurbao, processo em que um grupo de cidades, cujas reas urbanas ultrapassam os limites administrativos dos municpios que as integram, 
forma uma mancha urbana contnua.

               oooooooooooo
136

Captulo 10

          A geografia do crime

  Em 1919, uma emenda  Constituio dos Estados Unidos, que ficaria conhecida como Lei Seca, proibiu a produo e comercializao de bebidas alcolicas em todo 
o pas. Os polticos conservadores e as organizaes religiosas puritanas (1) veja a pgina 409 esperavam com isso resolver de uma vez por todas o problema do alcoolismo, 
visto como a maior ameaa ao bemestar da sociedade norteamericana. Mas o tiro saiu pela culatra. As bebidas continuaram a ser vendidas, s que ilegalmente, e o mercado 
clandestino passou a ser disputado por grupos criminosos rivais. Uma nova ameaa ganhou fora com a proibio: o crime organizado.
  O personagem mais conhecido desse perodo  Al Capone (fig. 1), tambm chamado de Scarface por causa de uma cicatriz que possua no rosto, sinal de que no levava 
desaforos para casa. Foi com esse tipo de "poltica" que Capone, um imigrante italiano que havia chegado sem um tosto aos Estados Unidos, conseguiu controlar, com 
sua organizao, os pontos de venda de bebidas, a prostituio e o jogo ilegal na Chicago da dcada de 1920. A histria de Capone e de outros chefes serviu de inspirao 
para vrios livros e filmes. Leia mais sobre essa relao entre a arte e o crime no quadro 1.

Figura 1. 

foto mostrando a capa da Revista "Time", com Al Capone, o gangster mais famoso de todos os tempos

137

Quadro 1

          Hollywood e os poderosos 
          chefes

  Talvez nenhum outro assunto tenha rendido tantos bons filmes quanto a luta contra a mfia nos Estados Unidos. J na dcada de 1960, a srie Os intocveis, que 
contava a histria dos agentes especiais do FBI que perseguiram Capone e outros chefes, fez considervel sucesso. Mais recentemente, a trilogia de O poderoso chefo 
tratou o tema com mais seriedade, abrindo espao para um enorme nmero de outras produes, como Era uma vez na Amrica (1984), Os bons companheiros (1990) e at 
mesmo uma refilmagem de Os intocveis (fig. 2). Filmes como Cassino (1995) tematizaram a influncia da mfia no controle do jogo em Las Vegas. O interesse de Hollywood 
pela mfia tambm lana luzes sobre o interesse da mfia por Hollywood, como mostra o bem humorado O nome do jogo (1995). E mesmo um assunto to srio rendeu boas 
comdias, como Tiros na Broadway (1994), de Woody Allen, e Um novato na Mfia (1990), pardia protagonizada por Marlon Brando, e at um musical infantil, Quando 
as metralhadoras cospem, em que os tiros foram substitudos por tortas na cara.

Figura 2. 

foto mostrando quatro homens sentados, cena de Os intocveis (1987), filme dirigido por Brian de Palma, que reconta a histria do grupo de policiais que prendeu 
Al Capone

  Depois de anos aterrorizando a cidade, assassinando adversrios, corrompendo policiais e juzes e expandindo seus "negcios", Capone acabou sendo preso em 1931. 
Foi julgado e condenado, mas no por esses delitos, e sim por ter fraudado o fisco (2) norteamericano. Os chefes raramente deixam as mos sujas com o sangue de 
seus crimes.
  Apesar de Capone ter conseguido acumular uma fortuna estimada em 40 milhes de dlares, seu poder era restrito a algumas cidades. Cada cidade norteamericana importante 
tinha a sua prpria famlia mafiosa e, ainda que elas eventualmente se auxiliassem em operaes conjuntas, poucas vezes ultrapassavam as fronteiras do pas.

Atividade 1

          A mfia no cinema

  Voc j assistiu a algum filme sobre a mfia? Escreva em seu caderno uma sinopse do filme e comente com seus colegas o modo como o crime organizado foi retratado.
138
A globalizao do crime

  Muita coisa mudou desde os tempos da Lei Seca norteamericana. Acompanhando a tendncia da globalizao econmica e da mundializao dos capitais, o crime organizado 
no conhece mais fronteiras: est presente em todo o mundo com uma importncia que nunca teve antes.
  Dados do final da dcada de 1990 indicam que o faturamento anual das mfias internacionais deve oscilar entre 750 e 900 bilhes de dlares por ano. Para se ter 
uma idia do que isso significa, basta lembrar que est prximo do Produto Interno Bruto brasileiro, ou seja, a soma de tudo o que  produzido anualmente em nosso 
pas.
  Os novos chefes ganham dinheiro com o mesmo princpio que fez a fortuna de Capone: o trfico e a oferta daquilo que  proibido pelas leis da maioria dos pases, 
controlando organizaes baseadas na lealdade de seus integrantes e no suborno ou assassinato de seus inimigos.
  A proibio do consumo de lcool foi revogada em 1933 nos Estados Unidos, mas desde ento o crime organizado sempre tem encontrado novos produtos e servios para 
vender. As organizaes criminosas atuais no se contentam com apenas um ramo de atividade. Alm de atuarem em todos os ramos tradicionalmente dominados pelo crime 
(trfico de drogas, explorao da prostituio e do jogo ilegal, seqestros e cobrana de taxas de proteo), investem tambm em negcios "limpos", especulando no 
mercado financeiro, construindo hotis e centros de lazer, e mesmo financiando campanhas polticas em vrios pases.
  O combate ao crime tornouse muito mais difcil, pois o dinheiro obtido de forma ilegal passa rapidamente de um pas a outro, e a rede de produo e consumo de 
drogas abrange praticamente o mundo todo. At mesmo a captura de mafiosos e de mercadorias ilegais s  possvel com a cooperao das polcias de diferentes pases 
(fig. 3).

Figura 3.

foto mostrando a fachada da Sede da Interpol em Lyon, na Frana. A Interpol  um organismo de cooperao que visa combater e reprimir o crime organizado internacionalmente. 
Dela participam corpos policiais de 125 pases, espalhados em todos os continentes

  O problema tornouse to srio que a ONU j realizou duas conferncias sobre o assunto: a de Npoles, em novembro de 1994, e a do Cairo, em maio de 1995. O objetivo 
era diagnosticar a nova situao e propor acordos internacionais para facilitar o intercmbio de informaes e a coordenao de aes conjuntas contra o crime. Se 
as mfias so agora transnacionais, o combate a elas no pode mais ficar restrito ao mbito nacional. Os chefes de hoje em dia tm negcios no mundo inteiro, e 
suas organizaes so verdadeiras "transnacionais do crime".

139

Os novos poderes das velhas mfias

 
  Quando se ouve falar em mfia, pensase logo nas mfias italianas. De fato, o sul da Itlia foi o bero histrico de vrias dessas organizaes criminosas. Sua 
origem remonta  Idade Mdia, quando famlias se uniam para manter, com o uso da violncia, o controle sobre a economia de determinadas regies.
  As mfias italianas mais importantes so a Cosa Nostra, baseada na ilha da Siclia; a Camorra, com sede em Npoles; e a 
 Ndranghetta, da regio da Calbria. Veja o mapa (fig. 4). A relao entre essas famiglias (famlias) sempre foi marcada pelo respeito mtuo, embora no faltem episdios 
de violncia entre seus membros. 

Figura 4. 

mapa destacando a Calbria e a Ilha da Siclia. A seguir, legenda
  Existe uma grande disparidade econmica entre o norte e o sul da Itlia. O norte concentra grande parte das indstrias e da riqueza; no sul agrrio, nasceram as 
organizaes mafiosas mais antigas do mundo. 

  As famlias mafiosas italianas mantm rituais de iniciao e rgidos cdigos de conduta. O apadrinhamento garante laos que se igualam aos de parentesco: o ttulo 
original de O poderoso chefo, protagonizado por Marlon Brando (fig. 5, pg. 140 no livro em tinta),  The godfather, "O padrinho". A lealdade deve ser total, e 
qualquer traio  punida com violncia. Alm disso, h um pacto de silncio, conhecido como omert, que dificulta muito a captura dos grandes chefes.

Figura 5. 

reproduo do cartaz de divulgao do primeiro filme da trilogia O poderoso chefo, lanado em 1972

  Organizaes criminosas do tipo da mfia no se desenvolveram apenas na Europa e nos Estados Unidos. As mfias orientais so tambm muito antigas e poderosas.
140
  No Japo, o fim da estrutura feudal de poder levou os samurais, que haviam perdido a funo de soldados dos cls, a se organizarem em grupos violentos, que passaram 
a agir por conta prpria no submundo do crime. A Yakuza, a famosa mfia japonesa, tambm possui rgidos cdigos de conduta. Seus membros passam por diversos rituais 
de iniciao e tm seus corpos cobertos por tatuagens que simbolizam a fora e a lealdade ao grupo (fig. 6). Quando falham em alguma misso, perdem a falange do 
dedo mindinho; quando falham novamente, perdem a vida.

Figura 6. 

foto mostrando um homem com as costas tatuada. A seguir, legenda
  Membro da Yakuza preso no Brasil pela Polcia Federal em outubro de 1994.

  As mfias tambm se desenvolveram na China, a partir de antigas sociedades secretas. So as chamadas trades chinesas, que, alm da extorso e da prostituio, 
obtiveram poder e dinheiro com o controle da venda de pio e herona.
  Todas essas mfias tradicionais ampliaram muito seus negcios com as grandes correntes migratrias que marcaram os sculos XIX e XX. Os mafiosos italianos se estabeleceram 
em vrias cidades dos Estados Unidos, principalmente em Nova Iorque, Chicago e So Francisco. Os chineses e os japoneses passaram a controlar atividades criminosas 
por todo o Sudeste Asitico e tambm nos bairros orientais das cidades mais importantes da costa oeste da Amrica do Norte, como o famoso Chinatown, de San Francisco 
(fig. 7). At hoje as mfias conquistam colaboradores explorando a precariedade da condio de vida de alguns refugiados e imigrantes ilegais. O policial federal 
norteamericano James Galipeau comenta o problema no quadro 2.

Figura 7. 

foto mostrando parte de um bairro muito movimentado. A seguir, legenda
  O bairro chins de San Francisco  um dos principais centros de atuao das mfias orientais nos Estados Unidos.

Quadro 2

          A mfia e os imigrantes

  Os refugiados e imigrantes ilegais chegam aqui sem ningum. As mfias so suas famlias, dolhes dinheiro, carinho, proteo, amor. Os jovens cooptados por essas 
mfias vem em seus lderes seus salvadores. Fazem tudo por eles, inclusive matar. As gangues e mfias do servio aos famintos, dolhes amigos e tomam o lugar dos 
servios sociais que o Estado deveria oferecer, mas no pode bancar monetariamente. Essa  a pior coisa desses anos. As mfias preenchem o lugar que tradicionalmente 
era dos pais, irmos e familiares. (Citado por J. Arbex Jr. e C. J. Tognolli, em O sculo do crime, p. 43.)
 fim do quadro

O narcotrfico

  Atualmente, a maior fonte de renda do crime organizado  o trfico de drogas, o chamado narcotrfico. A cocana e a herona movimentam centenas de milhes de dlares 
em todo o mundo, garantindo um enorme poder a quem controla a produo e a distribuio da droga. Por isso as mfias tradicionais aprenderam a negociar com os dois 
maiores cartis produtores de cocana do mundo: o de Cli e o de Medelln. Essas cidades colombianas  veja o mapa (fig. 8) na pgina 142 (no livro em tinta)  eram 
as sedes dos grupos que controlavam a produo e o trfico da cocana a partir da 
 Amrica do Sul.

Figura 8. 

mapa da Colombia destacando as cidades de Cli e Medelln. A seguir, legenda
  Os narcotraficantes transformaram Cli e Medelln em cidades conhecidas internacionalmente.

  Os maiores produtores da folha de coca so o Peru e a Bolvia, onde a planta  consumida h sculos como parte da cultura local. Os povos andinos mascam a folha 
de coca para disfarar a fome e regular a temperatura do corpo devido ao frio.
  A cocana  obtida por meio de um processo qumico de refino da folha da coca, geralmente feito em laboratrios e instalaes clandestinas
142
no meio da floresta. A droga  ento enviada por uma extensa rede de traficantes para todo o mundo (fig. 9), especialmente para o enorme mercado consumidor norteamericano.

Figura 9. 

          O comrcio de cocana no mundo

mapa mostrando as plantaes de coca e principais rotas da cacana. A seguir, legenda
  A cocana produzida e processada na Amrica Latina abastece o mundo inteiro.

  Os cartis colombianos atingiram o auge de seu poder e influncia na dcada de 1980, atraindo a ateno de todo o mundo. Polticas de combate ao crime organizado, 
inclusive com a participao de polcias internacionais, levaram  condenao e  rendio, em 1991, do chefo do cartel de 
 Medelln, Pablo Escobar, que acabou fuzilado na luxuosa casa que lhe servia de "priso", em 1993.
  O cartel de Cli tambm teve vrios de seus lderes presos ou mortos, mas o desmantelamento dos dois cartis no significou o fim do narcotrfico. Novas lideranas 
e organizaes surgiram para tomar conta do negcio, pois  difcil acabar com a produo e o comrcio de drogas quando h tantos consumidores dispostos a pagar 
pelo vcio.
143
  Nos ltimos anos, os grupos colombianos tm se associado aos tradicionais produtores de herona do Sudeste Asitico, como uma estratgia para aumentar seus lucros, 
introduzindo nos mercados consumidores de cocana essa outra droga, muito mais cara e potente.
  A herona  produzida a partir da pasta de pio, que  extrada da papoula (fig. 10). O pio  cultivado h vrios sculos na sia, sendo consumido na Europa desde 
o sculo XIX. Durante muito tempo, Mianma (antiga Birmnia), Tailndia e Laos praticamente monopolizaram a produo de papoula e herona no mundo, tanto que essa 
regio ficou conhecida como o Tringulo de Ouro (3). Atualmente, porm, o plantio de papoula se espalhou por outros pases, como a ndia, o Afeganisto e a Turquia. 
No incio da dcada de 1990, a 
 Scotland Yard (4) encontrou provas de que os chefes colombianos haviam importado mudas de papoula da sia, passando a plantlas na Colmbia e na Venezuela.

Figura 10.

foto mostrando a belssima papoula  matriaprima para a fabricao da herona, uma das drogas alucingenas mais perigosas

  Alm da cocana, da herona e da maconha (tabela 1), uma srie de outras drogas, como as anfetaminas, o crack e o LSD, contribui para um faturamento estimado em 
mais de 200 bilhes      de dlares em todo o mundo.
  As conseqncias do trfico e do consumo de drogas ilegais no afetam apenas os consumidores e suas famlias, mas toda a sociedade, e de diferentes formas.

Tabela 1

          O mercado mundial das drogas (1998)

Tipo de droga/Produo mundial/Montante de negcios/Consumidores

  pio e herona
  3.100 toneledas
  70 bilhes de dlares
  3 a 4 milhes de consumidores
  Cocana
  430 toneladas
  30 bilhes de dlares
  1 a 2 milhes de consumidores
  Maconha e haxixe
  24.000 toneledas
  50 bilhes de dlares
  60 milhes de consumidores

144
  As drogas so um dos maiores problemas atuais de sade pblica. Milhares de usurios tm de ser atendidos pelos sistemas mdicos dos pases que sofrem com o trfico. 
O tratamento para a dependncia e para os efeitos colaterais  muito complicado, caro e demorado. Entre os jovens, a morte por consumo excessivo vem aumentando a 
cada ano (fig. 11). A introduo de drogas mais fortes, como a herona e o crack, tende a complicar ainda mais a situao.

Figura 11.

reproduo da capa da revista Veja mostrando vrios jovens. Manchete "Eles precisavem morrer? Como as drogas esto matando os jovens e o que os pais podem fazer. 
A seguir, legenda
  Capa da revista Veja de 27 de maio de 1998. Esses jovens brasileiros morreram devido ao uso de drogas ilegais.

  Um segundo problema est diretamente relacionado com o poder das mfias e do crime organizado. As fortunas conseguidas com o narcotrfico acabam financiando outros 
tipos de atividades ilegais, como corrupo de autoridades pblicas, extorses, roubos a bancos e compras de armas cada vez mais potentes (fig. 12). Desesperados 
para conseguir acesso s drogas, os jovens viciados acabam sendo utilizados pelas organizaes como modeobra para o prprio trfico e para outras atividades ilegais.

Figura 12. 

foto mostrando um fuzil AR15 usado pelos traficantes e apreendido pela polcia militar em fevereiro de 1996, no Morro do Borel, Rio de Janeiro

A lavagem do dinheiro

  Movimentando uma fortuna superior ao PIB de muitos pases, o crime organizado tem de tomar providncias para camuflar a origem ilegal de tanto dinheiro. Esse processo 
passou a ser chamado de "lavagem
145
de dinheiro", pois torna legal, e portanto "limpo", o dinheiro "sujo" obtido pelo narcotrfico e pelo crime.
  H vrias maneiras de "lavar" o dinheiro. Uma grande soma obtida ilicitamente pode ser dividida em montantes menores e depositada em centenas de contas "fantasmas" 
(abertas com documentos falsos em nome de pessoas inexistentes) ou de "laranjas" (pessoas que voluntaria ou involuntariamente tm suas contas utilizadas para a transferncia 
de dinheiro "sujo"). Esse dinheiro  ento transferido de diversas formas (saques, ordens de pagamento, cheques de viagem, cartes de crdito) para outras contas, 
at que fique impossvel rastrear a origem ilegal do dinheiro. Veja o esquema da figura 13.

Figura 13.

          Lavagem de dinheiro

  Atividade ilcita
 o Produo e trfico de drogas
 o Outras atividades (Transferncia de alto risco)
  Colocao do dinheiro (transferncia de alto risco)
 o Depsito de dinheiro vivo para evitar controle bancrio (at 10 mil dlares)
 o Sada ilcita de moedas do pas
 o Mistura de ganho ilcito com depsitos legtimos
 o Depsitos de quantias inferiores a 10 mil dlares
 o Diviso do dinheiro por diferentes bancos ou transaes comerciais
  Acomodao (transferncia de baixo risco)
 o Disfarce da origem do depsito inicial atravs de: transferncias multiplas e transaces mltiplas
  Integrao (transferncia de baixo risco)
 o Uso dos fundos "acomodados" para compra de valores "limpos e legtimos": monetrios/financeiros, fixos (ex.: imveis), negcios

  Preocupados com a falta de controle sobre a movimentao de dinheiro "sujo", vrios pases tentam adotar medidas para dificultar a "lavagem", como a quebra do 
sigilo bancrio, a identificao dos clientes dos bancos e uma maior vigilncia sobre as instituies financeiras.
146
  Mas com a globalizao financeira ficou cada vez mais fcil a transferncia de dinheiro entre os sistemas financeiros de diversos pases.  possvel transferir 
fortunas de um banco a outro simplesmente apertando a tecla de um computador. Em minutos, o dinheiro pode passar por vrios bancos em diversos pases, at atingir 
um destino seguro.
  O erro de Al Capone alertou as geraes seguintes. Hoje a mfia procura evitar a possibilidade de condenao por fraudes no imposto de renda. Um modo de fazer 
isso  depositar o dinheiro, j devidamente "lavado", em parasos fiscais.
  Os parasos fiscais so pases ou regies que garantem o total sigilo das operaes bancrias e tambm a quase completa iseno de impostos, criando condies 
perfeitas para o investimento do dinheiro conseguido ilegalmente. Veja a localizao desses parasos no mapa da figura 14.

Figura 14. 

          Os parasos fiscais

mapa mostrando a localizao dos parasos fiscais: Ilhas Cayman, Costa Rica, Aruba, Ilhas Virgens, Saint Maarten, Antgua, Ciudad del Este, Andorra, Luxemburgo, 
Mnaco, Sua, Chipre e Hong Kong. A seguir, legenda
  Os bancos situados nos parasos fiscais no perguntam a origem do dinheiro e no revelam o  tamanho da fortuna de seus investidores.

  No final de todo esse processo, o dinheiro fica  disposio para investimentos em negcios legais. No passado, as mfias concentravam suas fortunas principalmente 
na compra de restaurantes, hotis e imveis. Com as facilidades de "lavagem do dinheiro" e um faturamento centenas de vezes maior, seus "negcios" concentramse agora 
em investimentos especulativos, como a compra de aes de empresas em bolsas do mundo inteiro, o jogo com as flutuaes cambiais (5) e a participao em processos 
de privatizao de empresas estatais.

147
As mfias russas

  O fim da Guerra Fria e a desagregao da Unio Sovitica criaram condies para o crescimento de grupos mafiosos na Rssia. Como a economia da antiga Unio Sovitica 
era estatal, todas as indstrias e a maior parte dos servios eram controlados pela burocracia que governava o pas. Com a abertura econmica e poltica, houve uma 
transio para a economia de mercado e uma rpida e catica privatizao de empresas estatais.
  Os grupos criminosos que antes atuavam ilegalmente no mercado e vrias organizaes de militares russos descontentes com os baixos salrios e a perda de prestgio 
acabaram assumindo o comando de grande parte dos negcios privados e das antigas empresas pblicas.
  Hoje h mais de 5 mil gangues e grupos criminosos na Rssia. Muitos deles se juntam em organizaes maiores e negociam diretamente com as mfias tradicionais da 
Europa e da sia e tambm com os narcotraficantes. Com o dinheiro obtido ilegalmente, as mfias russas conseguiram controlar mais da metade do sistema bancrio do 
pas, o que torna muito mais fcil a lavagem dos lucros.
  Alm do trfico de drogas, as mfias russas tambm vendem armamentos roubados do poderoso exrcito do pas (fig. 15). Esse problema  muito grave, pois h o risco 
de armas poderosas e at mesmo ogivas nucleares serem vendidas a grupos terroristas e a pases dispostos a ampliar seu poder por meio da ameaa nuclear.

Figura 15.

foto mostrando ogivas nucleares e militares. A seguir, legenda
  Desfilando em Moscou (URSS), em 1984. Com o fim da Unio Sovitica, algumas dessas ogivas nucleares podem ter ido parar nas mos de mafiosos.

  O leste da Europa, onde esto os pases que ficaram dcadas sob forte influncia do regime sovitico,  hoje um grande campo para a ampliao dos negcios da mfia 
russa. O dinheiro sujo  usado para subornar os funcionrios desses pases, que tm salrios muito baixos. A mfia vai assim conquistando cada vez mais espao, comprando 
patrimnio pblico a preos subfaturados e vendendo "proteo" s empresas estrangeiras que querem se estabelecer na regio.
  O dinheiro da mfia russa j est presente em toda a Europa. Na Riviera francesa, um dos locais de veraneio mais caros do mundo, os novos milionrios russos compram 
casas e hotis de luxo. A Interpol, as organizaes internacionais de combate ao trfico e o prprio governo russo esto assustados com o rpido crescimento dessas 
mfias, que constituem um enorme perigo para a paz no mundo.

148
O Brasil na rota das mfias

  Com o cerco aos cartis colombianos e a maior vigilncia sobre as rotas que os traficantes utilizavam para exportar a droga, o Brasil passou a ser um mercado consumidor 
e um entreposto importante para o transporte de cocana e a lavagem dos narcodlares, como mostra o mapa (fig. 16).

Figura 16. 

mapa da Amrica do Sul mostrando as principais rotas da droga; via navio, transporte rodovirio, jatinho para a Europa e Estados Unidos. A seguir, legenda
  O Brasil , ao mesmo tempo, mercado de consumo e rota de passagem para o narcotrfico internacional.

  O fato de o territrio brasileiro ser muito grande, possuir extensas regies pouco povoadas, como a regio amaznica, e fronteiras pouco vigiadas com os pases 
produtores da droga, dificulta bastante o combate ao trfico. Centenas de pistas de pouso clandestinas na floresta servem para o transporte de um volume anual estimado 
em 15 toneladas de cocana.
149
  Desde a dcada de 1980, a polcia brasileira vem trabalhando em conjunto com a Interpol na perseguio de pessoas envolvidas com a mfia. Vrios lderes mafiosos 
importantes, tanto da mfia italiana quanto da japonesa, foram presos fazendo negcios no Brasil. A apreenso de drogas pela polcia tem aumentado a cada ano (fig. 
17), mas os traficantes sempre desenvolvem novos mtodos de fazer a droga chegar a seu destino. 

Figura 17.

foto mostrando um lote de cocana aprendido em So Paulo pela Polcia Federal em 1998

  Em junho de 1998, foi criada a Secretaria Nacional Antidrogas, subordinada diretamente  Casa Militar da Presidncia da Repblica, com o objetivo de articular 
as diversas aes federais, estaduais e municipais de combate ao crime organizado. O governo e a sociedade civil tambm se juntaram para veicular diversas campanhas 
publicitrias alertando para o perigo do uso de drogas. Alm disso, h uma maior presso da Receita Federal e do Banco Central para coibir a lavagem de dinheiro, 
com medidas como o recadastramento nacional das contas bancrias e a quebra de sigilo de contas suspeitas.

Atividade 2

          Drogas? T fora!

  As drogas tambm fazem parte do cotidiano das escolas. O traficante que tenta vender a droga para os estudantes  o elo final de uma rede complexa, que envolve 
vrios pases e afeta toda a economia e a sociedade.
  Para no se tornar uma presa fcil desse esquema, a informao  a melhor arma. Voc se considera bem informado sobre os danos  sade causados pela droga? Discuta 
em sala de aula, com o auxlio do(a) professor(a) e dos materiais das campanhas governamentais contra o consumo de droga, quais as conseqncias do uso das drogas 
ilegais para a sade e para a vida das pessoas. Elabore um relatrio a esse respeito.

Passando a limpo

 1. Explique o significado dos seguintes termos ligados  "lavagem de dinheiro":
 a) "laranja"
 b) "conta fantasma"
 c) "paraso fiscal"
 d) "narcodlares"

 2. Discuta as relaes entre a expanso do crime organizado e a globalizao da economia mundial.

Notas de rodap

 (1) Puritana  No contexto, referese  religio puritana, uma das correntes do protestantismo.
 (2) Fisco  Termo usado para designar o sistema de arrecadao de impostos de um pas.
 (3) Tringulo de Ouro  Regio tringular formada entre Mianma, Tailndia e Laos.
 (4) Scotland Yard  Polcia de Londres (Reino Unido).
 (5) Flutuaes cambiais  Variaes no preo da moeda de um pas no mercado financeiro internacional.

UNIDADE IV

          Diversidade cultural e conflitos regionais

 o Observe as fotos abaixo. Elas retratam locais visitados por milhares de pessoas todos os anos. O que voc sabe a respeito desses lugares? Por que eles despertam 
tanto interesse para tantas pessoas?

trs fotos. Descrio a seguir
 Foto 1  mostra um grupo de pessoas na Caaba em Meca, Arbia Saudita;
 Foto 2  mostra quatro homens de frente para o Muro das Lamentaes, em Jerusalm, Israel;
 Foto 3  mostra uma multido no Rio Ganges, em Varanasi, ndia.

 o Comparando os mapas a seguir, voc pode observar que algumas das antigas repblicas da Iugoslvia se tornaram independentes. O que voc conhece dessa histria? 
Poderia mencionar algum fato recente ocorrido nesse pas?

151
          A Iugoslvia e pases vizinhos (1985)

mapa mostrando a Iugoslvia: limite entre repblicas e limite das provncias da Srvia

mapa mostrando a Iugoslvia e pases vizinhos (1998)

  Nesta unidade, vamos estudar a diversidade cultural e alguns conflitos regionais do mundo contemporneo. O captulo 11, "O mundo islmico", apresenta as origens 
histricas da religio que mais cresce no mundo  o islamismo , destacando sua importncia cultural e poltica. Em "Israel e a questo palestina", captulo 12, so 
abordados o desenvolvimento da cultura judaica no seio do mundo muulmano e o conflito entre rabes e judeus. "A ndia e o Paquisto", captulo 13, discute as origens 
desses dois pases e as razes da permanente tenso poltica que marca a relao entre eles. Finalmente, o ltimo captulo, "A imploso da Iugoslvia", trata do 
processo de formao territorial da Iugoslvia e dos conflitos armados que ocorrem na Pennsula Balcnica.

               oooooooooooo
152

Captulo 11 

          O mundo islmico

  O islamismo (Isl)  a religio com maior nmero de seguidores, alm de ser a que mais cresce no mundo. Possui, hoje, aproximadamente 1 bilho de adeptos, espalhados 
por dezenas de pases. Isso representa nada menos que cerca de 20% da populao mundial. Todos os anos, um nmero cada vez maior de fiis engrossa as fileiras do 
islamismo.
  De acordo com os preceitos dessa f, cada fiel deve rezar pelo menos cinco vezes ao dia. La 
 Ilaha il Al. Mohamed rasl 
 Al! so as palavras rabes repetidas por eles para dizer que "s h um Deus, Al, e que Maom  o seu Profeta". Conhea um pouco da vida do Profeta no quadro 1.

Quadro 1

          O Profeta

  Maom (ou Mohamed) nasceu em Meca, a cidade mais importante da rabia, por volta de 570 ou 580 d.C.  a dvida  inevitvel, j que, naquela poca, os nascimentos 
no eram registrados e as idades dependiam da memria coletiva. rfo, foi criado pelo tio, chefe de um modesto porm respeitado cl (1)veja a pgina 461, o hashemita, 
que integrava a tribo dos coraixitas, que governava a cidade. [...]. Foi atravs do casamento com Cadija, viva de um bemsucedido comerciante, que Maom adquiriu 
riqueza e prestgio.  provvel que tenha se dedicado aos negcios e dessa maneira entrado em contato com judeus e cristos e suas crenas. Relatos posteriores  
vida do Profeta descrevem um mundo que aguardava o advento
de um novo guia e Maom como um homem em busca da iluminao.
  Tomado por essa busca, passou a fazer retiros nas montanhas e, segundo o que a tradio passou a chamar de Noite da Revelao ou Noite do Destino, estava numa 
gruta do Monte Hira quando recebeu uma mensagem do arcanjo Gabriel.
  Comeou, ento, a pregar. Inicialmente, entre os seus parentes mais prximos e entre os mais humildes: o mundo iria acabar e Al (o nome de Deus em rabe) julgaria 
a todos; aqueles que seguissem os fundamentos da nova f, fizessem as preces regulares e fossem benevolentes receberiam Sua misericrdia e desfrutariam das delcias 
do Paraso; caso contrrio o Inferno pela eternidade! Os que se convertiam passavam a ser chamados muslim, muulmanos, cujo significado  "aquele que se submete, 
o crente". Do mesmo 
radical lingstico deriva o nome da nova religio: Isl. (E. S. Barbosa, A encruzilhada das civilizaes, p. 4650.)
 fim do quadro

153
  As oraes podem ser realizadas em qualquer lugar, mas as mesquitas (fig. 1) so os espaos destinados a rezas em grupo. O ritual comea quando est amanhecendo 
e deve se repetir ao meiodia, no meio da tarde, no momento do prdosol e  noite. Ajoelhado, o fiel ergue e abaixa a cabea e as mos (fig. 2) em direo a Meca, 
centro religioso do islamismo, localizado na Arbia Saudita (2).

Figura 1. 

foto mostrando parte do interior de uma mesquita em Edessa, na Turquia

Figura 2. 

foto mostrando crianas orando em uma escola muulmana de Bombaim (atual Mumbai), na ndia

  A peregrinao a Meca  o acontecimento mais importante do ano para os muulmanos. Ela expressa a unidade dos fiis e  uma oportunidade para o intercmbio de 
notcias e idias trazidas de todas as partes do mundo. Todos os muulmanos devem se esforar para realizar essa peregrinao pelo menos uma vez na vida.
154
  Para aqueles que conseguem visitar Meca, o centro das atenes  a rea sagrada, o haram, onde se encontra a Caaba (fig. 3), o prdio retangular onde Maom pregava. 
A Pedra Negra, transformada num smbolo da tradio islmica, est incrustrada numa de suas paredes. Os muulmanos contornam a Caaba sete vezes, e sempre tocam ou 
beijam a Pedra Negra quando passam por ela.

Figura 3.

foto mostrando a Caaba visitada por peregrinos islmicos, em julho de 1988. Muito antes de Maom, a Pedra Negra, provavelmente um meteorito, incrustada na Caaba, 
j era considerada sagrada pelos povos rabes. Maom transformoua no principal smbolo da regio islmica

  Outra prtica comum entre os muulmanos  a do jejum, no ms do Ramadan, em que os islmicos comemoram a revelao das palavras de Deus, escritas num livro chamado 
Coro, que sintetiza as leis da vida religiosa, poltica e social do povo islmico (leia mais sobre ele no quadro 2). Todos os muulmanos devem absterse de comer, 
beber e manter relaes sexuais, do amanhecer at ao anoitecer, durante o ms inteiro.

Quadro 2

          As Escrituras Sagradas

  O Coro no foi diretamente escrito por Maom. A sua verso atual corresponde, praticamente sem modificaes, a uma compilao feita no ano 652 pelo terceiro sucessor 
do Profeta, o califa Otman (embora haja polmica em relao a isso, pois vrias seitas do Isl se acusam mutuamente de terem alterado trechos do livro sagrado).
  O livro tem 6.226 versculos agrupados em 114 captulos (suras). Os captulos no esto organizados segundo uma ordem cronolgica (como no caso da Bblia), mas 
segundo o seu tamanho (dos maiores aos menores), com exceo da ftiha, a orao bsica.
  Originalmente, o rabe era a lngua dos intelectuais, poetas e de grande parte da populao urbana residente na Pennsula Arbica, principalmente em Meca e Medina, 
consideradas cidades santas e mantidas pela generosidade dos povos vizinhos. Para a maioria dos estudiosos (rabes ou no), o Coro , tambm do ponto de vista esttico, 
a mais
importante obra da literatura em idioma rabe, tanto pela beleza de seu estilo quanto pelo ritmo de sua poesia. Por essa razo, principalmente, o Coro resiste a 
qualquer tentativa de reviso, atualizao ou traduo de seu texto. Por meio dele, o rabe se transformou na lngua que unificou os muulmanos. (Baseado em J. Arbex 
Jr., O Isl hoje, p. 18.)

Figura 4. 

foto mostrando trecho do Coro, reproduzido na Mesquita 

  dos Rochedos, em Jerusalm

 fim do quadro

155
  A peregrinao  Meca e o jejum do Ramadan fazem parte de deveres rituais que vm sendo obedecidos desde o sculo VII pelos seguidores do profeta Maom. So demonstraes 
pblicas de amor a Al.
  Faz parte da doutrina islmica a idia de que o muulmano deve expandir a sua f pelo mundo. " tu que crs, combate o infiel que tens perto de ti", so palavras 
do Coro encaradas como obrigao pela comunidade.  por isso que o poder religioso transformouse rapidamente em poder poltico e que as tribos rabes existentes 
na Pennsula Arbica foram unificadas em torno da f em Al, o deus nico.

A diviso do Isl

  Desde a morte de Maom, os muulmanos passaram a viver um dilema. Como se deveria escolher o califa, o sucessor do profeta Maom? Se ele agisse injustamente, deveria 
ser desobedecido ou deposto?
  Os sunitas no encaram o califa nem como Profeta nem como intrprete infalvel da f. Ele deve ser um chefe com a tarefa de manter a paz e a justia na comunidade 
e possuir profundos conhecimentos da lei religiosa.
  Os xiitas no concordam com essa interpretao. Para eles, somente pode ser lder aquele que pertena  estirpe do Profeta: um descendente direto do Profeta certamente 
 uma pessoa especial, fonte de conhecimento e sabedoria.
  Segundo eles, o ltimo homem que reuniu tais qualidades foi Husayn, segundo filho de Ali e neto de Maom. Ele morreu em 680, numa emboscada de guerreiros sunitas. 
Inconformados com o assassinato de Husayn, seus seguidores, formaram um movimento poltico chamado Xiat Ali  o Partido de Ali, o mesmo que xiita. Eles constituram 
uma das seitas muulmanas mais importantes do mundo islmico, menor apenas do que a dos sunitas.
  Os sunitas acreditam que o comportamento do Profeta (Suna) deve ser tomado como exemplo de conduta para os fis, principalmente quando se deparam com uma situao 
no prevista pelo Coro.
  Os xiitas exigem a instaurao de uma sociedade regida pela lei do Coro, a charia, excluindo qualquer referncia a legislaes estranhas ao mundo muulmano e 
ao livro sagrado. Para eles, o islamismo  concebido ao mesmo tempo como religio, sistema jurdico e Estado. Por isso os xiitas buscam a criao do que consideram 
os Estados islmicos "puros", sob o comando dos aiatols, doutores das leis muulmanas.

Atividade 1

          A divindade e a contagem do tempo

  Os muulmanos consideram os ateus (aqueles que no acreditam em nenhum deus) e os politestas (aqueles que cultuam vrios deuses) como seus verdadeiros inimigos. 
Os judeus e os cristos so considerados povos especiais e suas escrituras tambm so respeitadas.

 a) Qual  a principal semelhana entre as religies islmica, judaica e crist?
 b) Pesquise de que forma esses povos incorporam a religio a seus calendrios.

A difuso do islamismo

  Aps a morte de Maom, seus sucessores, os califas, criaram um vasto imprio, governado pelos preceitos da religio. O islamismo cresceu junto com esse imprio: 
em 750 d.C., j havia se imposto na Sria, no Norte da frica, na Espanha, na Prsia e no oeste da Pennsula Indiana (na rea que atualmente corresponde ao Paquisto). 
Veja o mapa (fig. 5).

Figura 5. 

mapa mostrando a fundao e expanso do islamismo:
  Conquistas at a morte do profeta Maom (622632): Arbia
  Conquistas dos quatro primeiros califas (632656): Imprio Persa (Jerusalm) e Egito
  Conquistas da dinastia Omada (661750): Magreb (Fez), Reino dos Visigodos (Crdoba) e parte da sia
  Sede dos califas: Cairo, Medina, Meca, Damasco e Bagd
  Expanso do Isl
  Legenda: Maom unificou a Pennsula Arbica sob o poder do Isl. Seus sucessores,  frente de poderosos exrcitos, iriam estender esse poder para vastas regies 
da sia, da frica e da Europa

  Com a ascenso da dinastia abssida, em 750, a sede do califado foi transferida de Damasco, na Sria, para Bagd, na Prsia (atual Iraque). Bagd transformouse 
no centro poltico mais importante do mundo islmico e a cultura persa passou a exercer enorme influncia sobre todos os povos islamizados. O persa tornouse uma 
das duas lnguas do imprio, junto com o rabe.
  Entretanto, o imprio j apresentava sinais de enfraquecimento e fragmentao. Inmeras dinastias independentes tomaram o poder em seus vastos territrios. Em 
muitas das regies islamizadas, o poder civil dos sultes (3) e emires (4) se tornou mais importante do que o poder religioso dos califas. A unidade poltica do 
Isl teve uma histria curta, mas a religio no parou de se disseminar entre povos das mais diferentes origens tnicas e culturais.
  No sculo IX, muitos povos turcos na sia Central j haviam se convertido ao islamismo. No sculo XI, esses turcos islamizados ocuparam a Pennsula da Anatlia, 
na sia Menor, unificando os vrios principados da regio sob seu poder. No incio do sculo XIV, um lder militar turco da Anatlia fundou a dinastia otomana, sob 
a qual os turcos anexaram vastas extenses do Imprio Bizantino (quadro 3) e se expandiram rumo  regio dos Blcs, na Europa. Em 1453, os turcos otomanos tomaram 
Constantinopla, capital do Imprio Bizantino, que passou a se chamar Islambol (Istambul)  que significa "difuso do Isl".
  No incio do sculo XVI, o Imprio TurcoOtomano dominava vastas extenses territoriais (fig. 7). O islamismo esteve no centro do poder desse imprio, que iria 
perdurar at o final da Primeira Guerra Mundial (19141918). At hoje Istambul (fig. 8) guarda a memria das glrias imperiais otomanas.

Figura 7. 

          O Imprio TurcoOtomano (Sc. XVI)

mapa destacando a extenso do Imprio em 1520, 1566 e as regies vassalas. A seguir, legenda
  O islamismo chegou junto com o domnio turcootomano na Pennsula Balcnica.

Figura 8. 

foto mostrando parte do Forte em Istambul, na Turquia. A cidade, que os fundadores gregos chamaram de Bizncio, foi rebatizada como Constantinopla, quando se tornou 
a capital do Imprio Bizantino, e de Islambol, quando passou a ser capital do Imprio Turcootomano. Atualmente, Istambul  um dos principais plos tursticos da 
Turquia

157
Quadro 3

          Imprio Bizantino

  O Imprio Romano foi fundado em 27 a.C. Em 395 d.C. ele foi dividido em dois: de um lado, ficou o Imprio Romano do Ocidente, com capital em Roma; de outro, o 
Imprio Romano do Oriente, cuja capital, Bizncio, foi rebatizada como Constantinopla. Foi por isso que o Imprio Romano do Oriente ficou conhecido como Imprio 
Bizantino. O Imprio Romano do Ocidente deixou de existir em 476 d.C., quando Roma foi tomada por povos invasores vindos do norte da Europa. O Imprio Bizantino 
se manteve at a chegada dos turcos otomanos, no sculo XV.

Figura 6. 

mapa mostrando o Imprio Romano do Ocidente e o Imprio Romano do Oriente

fim do quadro

158
rea de influncia do Isl

  No sculo X, viajando pelo Oriente Mdio e pelos pases banhados pelo Mediterrneo, seria possvel reconhecer a existncia de um "mundo islmico". Uma teia de 
grandes cidades existentes at hoje crescia de um extremo ao outro: Bagd, no atual Iraque; Meca e Medina, na Arbia; Damasco, na Sria; Cairo, no Egito; Tnis, 
na Tunsia; Fez e Marrakesh, no Marrocos; Crdoba, Sevilha e Granada, no sul da Espanha (fig. 9). Algumas dessas cidades j existiam, outras foram criadas com a 
conquista islmica. Mas todas guardavam algo em comum: um certo estilo de vida, que em muitos casos se conserva at hoje. Leia um exemplo no quadro 4.

Figura 9. 

          Os pricipais centros urbanos da cultura islmica

mapa mostrando a localizao dos principais centros urbanos da cultura islmica. A seguir, legenda
  A expanso do Isl foi tambm a expanso de um modelo arquitetnico e urbanstico, cujas marcas ainda esto presentes em muitas cidades importantes.

  Durante sculos, as cidades sob domnio do Isl estiveram entre os principais centros comerciais do mundo: pimenta e outras especiarias, pedras preciosas, marfim 
e ouro, tecidos finos e porcelanas provenientes da ndia e da China, peles do norte da sia. Tudo o que se podia imaginar ou desejar do comrcio de longas distncias 
era possvel encontrar em algum desses centros urbanos.
  Elas eram as maiores cidades do Ocidente. As mais bem equipadas em escolas, bibliotecas, hospitais. Uma elite rica compartilhava das tradies da cultura grega 
e romana, e ostentava seu poder no luxo da arquitetura dos palcios.
  A populao urbana crescente exigiu cada vez mais alimentos e matriasprimas para a manufatura e o artesanato, o que impulsionou as atividades agropastoris nos 
arredores dos principais centros urbanos. As caravanas de comerciantes, como as da figura 11, necessitavam de camelos, mulas e jumentos, criados por pastores nas 
estepes. Camponeses cultivavam arroz, canadeacar, algodo, melancia, berinjela, laranja e limo em vastas reas.

Figura 11. 

foto mostrando comerciantes cruzando o territrio do Ir montados em camelos e mulas, meios de transportes utilizados at hoje

  Os rabes se estabeleceram nas regies conquistadas como classe dominante, ostentando sabedoria e riqueza. Mas geralmente no destruam a cultura do povo dominado. 
Deixavamno viver com certa liberdade, praticar sua prpria religio e seus costumes. Aos poucos, acabavam convertendo grande parte para o islamismo e absorvendo 
muitos de seus conhecimentos.

159

Quadro 4

          A arte da barganha

  Nas feiras de Marrakesh, Bagd e Istambul barganhase tudo. De um saquinho de tempero a um tapete de 500 mil ns por m. No se deve, nem se pode comprar coisa 
alguma sem conversa. Eis um bom comeo:
   Merhab (Ol). Bu ka lira? (Quanto custa?).
  O "" tem som de "tch". Indiferentemente  resposta do vendedor, diga sempre:
   Hayir, ok pahali. (No, muito caro).
  A partir desse ponto, voc j est negociando. A conversa segue em qualquer lngua. O preo final pode chegar  metade, ou menos. Todos devem sair satisfeitos. 
O vendedor se sente
valorizado porque voc se empenhou para adquirir a sua mercadoria. O comprador pagou bem mais barato do que o preo inicial. (Folha de S. Paulo, 1 abr. 1996.)

Figura 10.

foto mostrando uma feira em Marrakesh, no Marrocos

 fim do quadro

  Os mercadores, os tcnicos e os sbios islmicos foram disseminadores das culturas grega, romana, persa, chinesa, hindu. Introduziram na Europa o papel, trazido 
da China, traduziram para o latim e difundiram os clssicos gregos, como os pensamentos do filsofo Aristteles. Transformaram o estudo da matemtica, introduzindo 
o zero, os algarismos e a lgebra. Ensinaram qumica nas academias europias e construram suas primeiras bibliotecas. Alm disso, criaram obras de arte de valor 
inestimvel. Leia mais sobre isso no quadro 5.

160

Quadro 5

          Arte muulmana

  O mundo islmico possui uma enorme importncia cultural. A arte muulmana  testemunho vivo de que o Isl  um elo com o passado e uma ponte entre o Ocidente e 
o Oriente. Executados por volta do ano de 706, os mosaicos da mesquita de Damasco, na Sria, mostram como os artesos islmicos absorveram com rapidez e percia 
as tcnicas artsticas dos pases conquistados, em especial as do Imprio Bizantino, com sua longa tradio na arte do mosaico, herdada dos artistas do cristianismo 
primitivo.
  A msica floresceu como nunca durante o perodo de ascenso do Isl. Uma parte dela era solenemente litrgica, como os cantos gregorianos da Igreja crist, a mais 
antiga msica ainda em uso. Escondemse em suas melodias fragmentos dos hinos cantados nos templos gregos e dos salmos que acompanhavam o culto no Templo de Jerusalm. 
Mas a maior parte teve a influncia da Prsia e de outros pases orientais. Dessas regies disseminaram vrios instrumentos (32 variedades de alade, 28 de flauta 
e 22 de obo), tocados em festas e festivais ou acompanhados de acrobatas e palhaos em seus nmeros de rua. (Baseado em A marcha do Isl  600 a 800, p. 31 e 36.)

Figura 12.  

foto mostrando parte do interior da Mesquita de Damasco

 fim do quadro

  A Espanha  um documento vivo dessa influncia, principalmente no sul do pas, na regio de Andaluzia. As cidades possuem traado e estilo arquitetnicos comuns 
ao mundo islmico (fig. 13). Sevilha e, principalmente, Crdoba so cidades que preservam muito dessa memria.

Figura 13. 

foto mostrando uma construo na cidade de Alhambra, regio de Granada, Espanha. O emprego de arcos em forma de ferradura e os jardins internos so marcas da arquitetura 
islmica

161
  Crdoba foi a sede do poder islmico na Europa durante quase trezentos anos, entre 756 e 1031 d.C. Era o centro do comrcio entre a Europa e o Oriente. Era tambm 
um dos principais centros culturais do mundo islmico. Com mais de 100 mil habitantes ao final do sculo X, era uma das cidades mais populosas do mundo islmico 
e a mais importante da Europa Ocidental. As mesquitas da cidade possuam escolas superiores com numerosas bibliotecas, que chegaram a reunir mais de 400 mil livros!
  No seu centro histrico, encontrase preservado um labirinto de ruelas com vrias mesquitas, o mercado central e casas de banho, cercado por uma muralha erguida 
sobre as runas da muralha romana.
  A casa de banho (hamman)  uma caracterstica da cidade islmica. Herana das termas romanas, era muito requisitada devido  necessidade de purificao do corpo 
imposta pelos rituais da religio. Tambm era um espao para o cio e para o convvio social. Havia mais de seiscentas casas de banho em Crdoba!
  A mesquita da cidade  uma das mais notveis do mundo muulmano. Foi construda no ano de 784 sobre a antiga igreja crist de So Vicente e ampliada posteriormente. 
A sala de rezas  formada por dezenove naves, que ocupam uma enorme rea sustentada por 850 colunas de granito e mrmore. Parte de seu interior foi destruda aps 
a reconquista crist para a construo de uma catedral, concluda no sculo XVI (fig. 14).

Figura 14. 

foto mostrando parte da grande Mesquita de Crdoba, que atualmente  um templo da Igreja Catlica

Atividade 2

          A arquitetura islmica

  Os palcios dos califas e sultos, dotados de aquedutos, fontes e termas, lembravam as maravilhas de Roma ou as propriedades reais da Prsia. Faa uma pesquisa 
em enciclopdias a respeito dos palcios dos califas e sultos. Organize um mural com seus colegas em sala de aula.

162
  As atividades econmicas e culturais do Imprio Islmico deixaram marcas profundas, presentes at hoje nos pases originados de seus antigos territrios. As relaes 
econmicas entre o campo e a cidade, e entre regies e povos to diversos, exigiram o desenvolvimento de um sistema comum de conduta. Os proprietrios de terras 
e cultivadores precisaram de regras claras e aceitas sobre a propriedade, a diviso da produo, os impostos e os direitos sobre a gua.
  Das prticas agrcolas tradicionais, trs tipos de cultivo ainda so comumente encontrados: o das oliveiras, o do trigo e o da tmara.
  As oliveiras concentramse nas faixas costeiras mais midas. Delas se extraem o leo comestvel e o combustvel para iluminao.
  O cultivo de trigo  destinado ao consumo humano, sendo realizado em reas irrigadas ou nas vrzeas dos rios. Juntamente com o trigo so cultivados cereais utilizados 
na produo de rao animal. A tmara  o principal produto agrcola dos osis (fig. 15).

Figura 15.

foto mostrando tamareiras em Lxor, osis do Egito. Tudo na rvore  aproveitado: as sementes, para alimentao do gado; as folhas e caules, nas construes; as 
fibras, na fabricao de colches e cestas. A fruta  um alimento essencial para os povos do deserto, pois contm 70% de acar

O Isl, hoje

  A religio islmica se originou na Pennsula Arbica. Porm nem todo muulmano  rabe. A Indonsia  o maior pas muulmano, com mais de 200 milhes de pessoas, 
mas a sua populao  de origem malaia ou javanesa. Os iraquianos so de origem persa. Os turcos, por sua vez, tambm foram islamizados e criaram um imprio regido 
pelas leis do Isl. At mesmo a China possui uma comunidade de cerca de 50 milhes de muulmanos.
  Em toda parte existem cada vez mais muulmanos. Somente na Inglaterra (fig. 16) so mais de 1 milho de pessoas, originadas principalmente do Paquisto e de Bangladesh. 
O islamismo  a segunda maior religio da Frana, congregando mais de 4 milhes de pessoas, provenientes em sua maioria de pases do Norte da frica. Na Amrica 
do Sul, o Suriname  o pas com maior porcentagem de muulmanos na populao.

Figura 16.

foto mostrando parte da fachada do centro islmico em Londres, Inglaterra

163
  Apesar da expanso acelerada do islamismo por todos os continentes  possvel delimitar um mundo predominantemente islmico (fig. 17).

Figura 17. 

mapa mostrando o mundo islmico. Descrio a seguir
  Populao islmica
  Maioria: Casaquisto, 
  Uzbequisto, Quirquisto, Turcomenisto, Tadjiquisto, Afeganisto, Ir, Paquisto, Bangladeste, Indonsia, Turquia, Eritria, Sudo, Somlia, Moambique, Saara 
Ocid, Mauritnia, Mli, Nger, Senegal, Gmbia, GuinBissau, Serra Leoa
  Pases rabes: Lbano, Sria, Iraque, Jordnia, Kuwait, Barein, Eau, Om, Lbano, Egito, Catar, Arbia Saudita, Imen, Djibuti, Tunsia, Lbia, Marrocos, Arglia
  Minoria importante: ndia, Iugoslvia, Bulgria, BosniaHerzegovina, Etipia, Uganda, Tanznia, Nigria, Benim, Togo, Libria, Costa do Marfim, Gama, Malsia
  Legenda: Os muulmanos so maioria da populao em muitos pases africanos e asiticos.

  Nem todas as pessoas que se dizem muulmanas levam suas obrigaes religiosas a srio ou do o mesmo sentido ao seu cumprimento. O nvel de convico  individual 
e existem diferenas entre o Isl da cidade, o do campo e o do deserto.
  A Arbia Saudita e o Ir disputam, com estratgias diferentes, a liderana do mundo islmico.
  A Arbia Saudita  a sede do principal santurio muulmano, Meca, para onde todo fiel deve peregrinar pelo menos uma vez na vida. Gasta, anualmente, milhes de 
dlares arrecadados com a exportao de petrleo para conquistar novos fiis. Constri mesquitas, hospitais e escolas muulmanas em toda parte, principalmente na 
frica, continente em que o islamismo mais cresce e onde esse tipo de assistencialismo  muito eficaz.
  O islamismo que a Arbia Saudita difunde  o sunita. O pas adota a lei islmica. Bebidas alcolicas so proibidas e  vedada a prtica de qualquer outra religio. 
Mas o governo do pas procura se aproximar cada vez mais dos Estados Unidos e das demais potncias da comunidade internacional.
  O Ir, por sua vez, busca a expanso da seita xiita, que representa cerca de 10% dos muulmanos do mundo. No Ir, assim como no Azerbaijo e no Iraque, os xiitas 
so a maioria da populao.
164
  O Estado Islmico Fundamentalista foi instaurado no Ir em 1979, quando uma revoluo derrubou o governo prEstados Unidos do x Reza Pahlevi. O pas encontravase 
aberto ao contato com a cultura ocidental. As msicas tocadas no rdio eram norteamericanas, os filmes que passavam na televiso eram de Hollywood, as mulheres conquistavam 
direitos iguais aos homens.
  Os xiitas deram amplos poderes a Khomeini, o aiatol, doutor das leis islmicas. Khomeini recuperou as instituies e costumes da tradio islmica, e modificou 
a vida cotidiana dos iranianos em seus mnimos detalhes. Sob o rgido controle do aiatol, todas as mulheres foram obrigadas a usar o tradicional chador (vu para 
cobrir o rosto), como a jovem da figura 18. As msicas ocidentais foram proibidas nos rdios e as festas passaram a obedecer ao calendrio religioso.

Figura 18.

foto mostrando uma mulher usando um vu cobrindo o rosto. A seguir, legenda
  A revoluo iraniana representou uma volta s tradies do islamismo no pas.

  Para os xiitas, a vitria da revoluo islmica no Ir  apenas o comeo de uma longa histria, pois eles esperam formar repblicas islmicas em todo o mundo muulmano, 
reproduzindo o modelo iraniano. Os xiitas esto solidamente implantados no Tadjiquisto, no Afeganisto e no Lbano, e tambm lutam para tomar o poder no Egito e 
na Arglia, ainda que, nesses dois ltimos pases, a imensa maioria dos muulmanos seja seguidora do rito sunita.
  Todo muulmano deve estar atento para que a ordem social corresponda aos princpios islmicos. O Jihad, ou guerra santa,  a luta ativa para esse fim. Mas ningum 
leva to ao p da letra a guerra santa como os xiitas, que usam os meios de comunicao, desde o rdio at os livros escolares, para promover o fundamentalismo (5) 
no mundo islmico. Ao mesmo tempo, praticam atos de terrorismo e de perseguio poltica aos seus opositores. O escritor Salman Rushdie, por exemplo, foi obrigado 
a viver como fugitivo, pois uma de suas obras foi considerada ofensiva ao Profeta e aos muulmanos (fig. 19). Os atos de violncia dos xiitas atingem muitos intelectuais, 
jornalistas e artistas do mundo islmico.

Figura 19. 

foto mostrando a capa do livro Versos satnicos. Seu autor, Salman Rushdie, foi jurado de morte pelos fundamentalistas muulmanos

A economia dos pases islmicos

  Os pases islmicos possuem uma vida econmica bastante diversificada. O Iraque, o Ir, a Arbia Saudita e a Arglia, por exemplo, so grandes produtores de petrleo. 
O Egito, com as vrzeas frteis do Rio Nilo,  produtor de algodo e o Paquisto apresenta vastos campos de trigo e juta. A Indonsia  produtora de borracha, mas 
tambm explora petrleo e minas de estanho.
  Mas  o petrleo a maior riqueza da rea de influncia do Isl. O mundo islmico produz 40% de todo o leo bruto extrado no mundo. O capital gerado pelo leo 
 o principal responsvel pela modernizao econmica dos pases islmicos, em especial aqueles pertencentes ao mundo rabe. Com os petrodlares, so construdas 
novas cidades, estradas, aeroportos e sistemas de telecomunicao. Desde a dcada de 1970, h um esforo para diversificar mais a economia, diminuindo a dependncia 
da exportao de produtos primrios e aumentando a importncia da indstria (fig. 20).

Figura 20. 

          Pases rabes: evoluo da atividade industrial (19701980)

mapa mostrando a participao da indstria na produo de riquezas:
 o Em declnio  Marrocos e Sria
 o Estvel  Arglia, Egito, Iraque e Djibuti
 o Aumento significativo  Lbia, Jordnia, Arbia Saudita, Catar, EAU, Om, Imen, Kuwait, Tunsia e Barein
 o Dados no disponveis: Lbano
  Legenda: Entre 1970 e 1980, o setor industrial ampliou a sua participao na economia dos principais pases produtores de petrleo do mundo rabe

  Mas a riqueza gerada com a extrao do petrleo no garante o bemestar da populao mesmo nos pases produtores, j que permanece fortemente concentrada nas mos 
de um grupo relativamente pequeno de famlias milionrias. Alm disso, ela no  suficiente para superar as enormes desigualdades entre os pases rabes. Pelo contrrio, 
as diferenas econmicas entre eles aumentam cada vez mais.
  Os desertos e as estepes ocupam 96% das terras dos pases rabes muulmanos (fig. 21, pg. 166 no livro em tinta). A presso demogrfica sobre as terras frteis 
 enorme. O Egito, por exemplo, possui oito camponeses por hectare de terra cultivvel, o que representa uma densidade maior do que a de Bangladesh.

166

Figura 21. 

          Os desertos do mundo rabe

mapa destacando desertos e estepes, e as terras arveis. A seguir, legenda
  Legenda: H sculos, os rabes utilizam as estepes para o pastoreio. O aproveitamento do deserto para a agricultura depende de sofisticadas tcnicas de irrigao, 
atualmente utilizadas em muitos pases do mundo rabe.

  Os projetos de irrigao no Egito, na Lbia e nos Emirados rabes Unidos (fig. 22) tornaram possvel a produo de milhes de toneladas de ch, algodo e cereais 
em pleno deserto. Mas a modernizao das atividades agrcolas acentuou ainda mais a concentrao de terras nas mos das empresas agroexportadoras, agravando o problema 
do emprego no campo.

Figura 22. 

foto mostrando a agricultura irrigada em Abu Dabi, capital dos Emirados rabes Unidos. Esse pequeno pas da Pennsula Arbica tambm transformou o deserto em campo 
de cultivo, por meio da irrigao

  A ineficcia da poltica agrria em gerar alimentos e empregos suficientes para a populao transformou uma parte dos pases islmicos em fornecedores de modeobra 
migrante para outros pases. O Egito, o Imen, a Jordnia e a Sria fornecem modeobra para a Arbia Saudita, o Kuwait e o Iraque. A Arglia, o Marrocos e a Tunsia, 
por sua vez, compem um foco de expulso de trabalhadores, que migram para a Europa.
167
  A criao do Banco Islmico de Desenvolvimento foi uma tentativa de diminuir essas desigualdades e exemplifica a relao entre produo de petrleo e islamismo. 
Criado em 1975, com a participao de 44 pases islmicos, tem como principais acionistas a Arbia Saudita (26%) e o Kuwait (13%), pases exportadores de petrleo. 
A anlise de suas operaes revela uma grande diversidade de campos de atuao, da assistncia tcnica  irrigao agrcola, do desenvolvimento da pesca  explorao 
mineral, alm do incentivo s tradies culturais muulmanas no conjunto de toda essa comunidade de pases.
  Mas, apesar desses esforos, ainda so as grandes empresas estrangeiras as maiores beneficirias da atividade de prospeco e explorao do petrleo. Elas se apossam 
do petrleo na etapa do refino e da distribuio, ficando com a maior parte dos lucros.
  Isso no  nenhuma novidade. O investimento em infraestrutura nos pases islmicos sempre foi um negcio rentvel para as empresas estrangeiras, desde o sculo 
XIX. Frana e Inglaterra, sobretudo, destinaram enormes quantias de recursos para a construo de estradas de ferro, portos, redes de energia eltrica, poos de 
extrao de petrleo e gs natural, redes de gasodutos e oleodutos no Norte da frica e no Oriente Mdio.
  Esses investimentos provocaram a modernizao da economia dos pases islmicos. Em troca, empresas europias obtiveram a concesso de servios de operao e manuteno 
de equipamentos, o que rendeu enormes lucros para seus proprietrios, engordando as contas bancrias nos pases de origem.
  O desenvolvimento da rede de transportes, principalmente as ferrovias, e a construo do Canal de Suez (fig. 23), aumentando o fluxo hidrovirio no Mediterrneo, 
provocaram um colapso no sistema de circulao de mercadorias por terra, executado pelas caravanas de camelos. Os povos do deserto, como os bedunos, foram sendo 
confinados a parcelas cada vez mais restritas do territrio.

Figura 23. 

foto mostrando o Canal de Suez, construdo no final do sculo XIX, o Canal de Suez ficou sob administrao da Frana e do Reino Unido at 1956, ano em que foi nacionalizado, 
isto , passou a ser administrado pelo governo do Egito

168
Atividade 3
 
          A circulao de trabalhadores nos pases rabes

  Compare os mapas abaixo e escreva um pequeno texto comentando os fluxos migratrios dos pases rabes.

Figura 24. 

          Pases rabes: Populao emigrante

mapa mostrando a porcentagem dos emigrantes em relao a populao ativa (1985):
 o Menos de 3%  Lbia, Iraque, Kuwait, Catar, EAU, Arbia Saudita e Barein
 o de 3 a 10%   Marrocos, Arglia e Tunsia
 o de 10,1 a 20%  Egito, Sria, parte do Imen e Om
 o Mais de 20%  Lbano, Jordnia e parte do Imen
  Legenda: O mapa revela a porcentagem de emigrantes, ou seja, das pessoas que deixaram o pas, em relao ao total da populao ativa dos pases representados

Figura 25. 

          Pases rabes: populao emigrantes

mapa mostrando a proporo dos imigrantes na populao ativa (1985)
 o Menos de 25%  Marrocos, Arglia, Egito, Lbano, Iraque, Imen, Djibuti e Tunsia
 o De 25 a 50%  Jordnia e Om
 o Mais de 50%  Lbia, Kuwait, Arbia Saudita, Catar, EAU e Barein
  Legenda: O mapa revela a porcentagem de imigrantes, ou seja, de pessoas que nasceram em outro pas, no total da populao ativa dos pases representados

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pea orientao ao professor

Passando a Limpo

  Faa um glossrio com os termos rabes mencionados neste captulo. Utilizando esses termos, escreva cinco frases para caracterizar os fundamentos da religio islmica.

Notas de rodap

 (1) Cl  Grupo de famlias que acreditam descender dos mesmos ancestrais.
 (2) Arbia Saudita  Meca e Medina so cidades sagradas para os muulmanos. O Profeta nasceu em Meca, mas no ano de 622 se transferiu para Iatrib, uma cidade localizada 
em um asis situado 400 quilmetros ao norte. A partir de Iatrib, Maom ampliou sua autoridade para toda a Pennsula Arbica. Por causa dele, o nome da cidade foi 
mudado para Medina, ou seja, "A cidade do Profeta".
 (3) Sulto  Chefe militar muulmano.
 (4) Emir  Representante do califa, responsvel pela administrao e segurana das cidades islmicas.
 (5) Fundamentalismo (islmico)  Doutrina baseada na crena de que todas as relaes humanas, no campo tanto da poltica quanto da religio, devem ser regidas pelo 
Coro, e que  preciso enfrentar pelas armas os inimigos da f islmica.

               oooooooooooo

169

Captulo 12 

          Israel e a questo palestina

  Os relatos bblicos do Antigo Testamento (1) veja a pgina 506 so a principal fonte de informaes de que dispomos para entender as origens do judasmo. De acordo 
com eles, um homem chamado Abrao, que vivia nas margens do Rio Eufrates (rea que atualmente pertence ao Iraque), recebeu de Deus a misso de levar seu povo at 
Cana, regio que passaria a ser conhecida como Palestina (2). Isso provavelmente ocorreu h cerca de 4 mil anos, portanto dois milnios antes do incio da era crist. 
Abrao teve dois filhos, Esa e Jac, que mais tarde mudaria seu nome para Israel. Israel, por sua vez, teve doze filhos: de acordo com a Bblia, cada um deles deu 
origem a uma tribo na Palestina. Os israelitas, tambm conhecidos como judeus, so descendentes dos hebreus, povo de Abrao, e consideram Cana sua Terra Prometida.
  Alguns sculos depois, muitas tribos hebraicas da Palestina partiram para o Egito. No se sabe direito nem quando nem por que isso ocorreu:  provvel que tenha 
sido devido a uma grande seca que ocorreu na regio, gerando uma crise de falta de alimentos. Durante muito tempo, parte do povo hebreu trabalhou como escravo para 
os faras do Egito.
  A fuga dos israelitas do cativeiro egpcio e o retorno  Terra Prometida  um dos episdios mais dramticos do Antigo Testamento: os hebreus, liderados por Moiss, 
demoraram cerca de quarenta anos para atravessar o Deserto do Sinai (que separa o Egito da Palestina). Durante a longa viagem, Deus teria se apresentado a Moiss 
e lhe entregado uma tbua contendo os Dez Mandamentos, que iriam reger a vida religiosa dos hebreus a partir de ento. Depois, teria aberto o Mar Vermelho para permitir 
a passagem a p de Moiss e seus seguidores para a Palestina.
  De volta  Palestina, os hebreus permaneceram dispersos em doze tribos, unificadas apenas pela religio. Somente no sculo XI a.C. ocorreram as primeiras tentativas 
de unificao poltica das tribos hebraicas.
  O primeiro reino hebraico escolheu Jerusalm como capital. Mais tarde, um imenso templo seria construdo na cidade para abrigar a Arca da Aliana, que continha 
as tbuas nas quais foram gravados os Dez Mandamentos.
  A unificao poltica dos hebreus no duraria muito tempo. Em 935 a.C., as tribos hebraicas se separaram: dez das doze tribos originais
170
formaram o Reino de Israel, cuja capital era a cidade de Samaria, enquanto as duas restantes fundaram o Reino de Jud, com capital em Jerusalm (fig. 1).

Figura 1. 

          Os Reinos Hebreus na 
          Palestina

mapa mostrando o Reino de Israel e o Reino de Jud. A seguir, legenda
  O Reino de Israel perdeu a independncia em 722 a.C., quando foi conquistado pelos assrios. O Reino de Jud foi conquistado pelos babilnios em 586 a.C.

  A partir do sculo VII a.C., os reinos judeus da Palestina foram dominados sucessivamente por povos de vrios imprios, entre os quais os assrios, os babilnios 
(que destruram o Templo de Jerusalm e escravizaram parte da populao) e os persas (que permitiram o retorno dos hebreus escravizados). Durante o domnio persa, 
os filhos de Israel e os filhos de Jud reconstruram juntos o Templo de Jerusalm. Desde ento, ficaram conhecidos indistintamente como israelitas e como judeus.
  Em 37 a.C., a Palestina transformouse numa provncia do Imprio Romano. No incio da era crist, no ano de 70 d.C., o Templo de Jerusalm seria outra vez destrudo, 
agora pelos romanos, que queriam punir a insubordinao do povo judeu. At hoje, o muro que sobrou aps a destruio  considerado sagrado (fig. 2).

Figura 2. 

foto mostrando uma mesquita, ao lado um muro e algumas pessoas perto. A seguir, legenda
  O Muro do antigo Templo (hoje conhecido como Muro das Lamentaes), onde os judeus rezam h quase trs mil anos. O Domo da Rocha, uma das mais importantes e ricas 
mesquitas do mundo. Os muulmanos ergueram a mesquista ao redor de uma rocha que, segundo a tradio, foi usada por Maom para subir aos cus.

171
A dispora judaica

  Em 135 d.C. o imperador romano Adriano expulsou os judeus da Palestina, que se espalharam por todo o mundo, numa grande disperso conhecida como dispora.
  Expulsos da Palestina, os judeus levaram seus costumes e tradies para diversas partes da Europa e da sia. Mesmo adotando lnguas e costumes dos seus novos pases 
de residncia, os judeus conseguiram preservar suas tradies e crenas, reunidas nos cinco primeiros livros da Bblia, em especial o chamado Tor, que contm as 
obrigaes fundamentais da vida judaica. Como nem todas as situaes humanas esto descritas nas escrituras sagradas, a aplicao dos ensinamentos bblicos na vida 
cotidiana foi sendo transmitida oralmente, de pai para filho, ao longo dos sculos. Esses ensinamentos foram reunidos num livro, datado do sculo VI d.C., chamado 
de Talmud (fig. 3). Os estudos talmdicos passaram a ser um dever religioso e os judeus mantiveram a unidade de sua comunidade praticando os rituais neles contidos.

Figura 3.

foto mostrando um rabino lendo o Talmud

  Grandes comunidades e importantes centros culturais judaicos foram criados, por exemplo, na Espanha, na Frana, na Alemanha, na Polnia, na Rssia. No sculo XIX, 
milhes de judeus, vitimados por toda a sorte de perseguies, migraram para as novas reas de povoamento europeu, a maior parte deles para a Amrica do Norte e 
para a Argentina.
  At o incio do sculo XX, muitos centros urbanos que preservavam a cultura judaica e nos quais residia a maioria dos judeus localizavamse em pases governados 
por muulmanos. Grande parte das comunidades judaicas usava a lngua rabe na vida cotidiana, embora o hebraico fosse mantido como a lngua das prticas religiosas.
  Nas regies islamizadas, os judeus deviam cumprir uma srie de obrigaes impostas pelos governantes. No podiam, por exemplo, utilizar certas cores de roupas, 
reservadas apenas para os cultos islmicos, nem casar com pessoas da religio islmica. Alm disso, seu testemunho no era aceito contra muulmanos nos tribunais 
e seus locais de culto no deviam ser mais belos e exuberantes do que as mesquitas.
  Os judeus continuaram presentes por muitos sculos nas grandes cidades do mundo islmico rabe, sobretudo no Iraque, no Imen e no Marrocos (fig. 4, pg. 172 no 
livro em tinta). O fato de terem sobrevivido e prosperado deveuse  fora de suas comunidades em torno do local de culto, a sinagoga, que oferecia proteo e mantinha 
laos de solidariedade diante da discriminao.

Figura 4. 

foto mostrando um rito judaico em sinagoga do Marrocos, em maio de 1995

172
  Eles viviam agrupados em certos bairros, por causa dos laos de parentesco ou origem, ou porque queriam estar prximos das sinagogas. Desempenhavam importante 
papel no comrcio, na manufatura e nas finanas das cidades. Tambm desempenhavam papel importante no comrcio a longas distncias com os portos da Europa mediterrnea 
e com os do Oceano ndico.
  Entre os ofcios, os ligados a drogas farmacolgicas e o artesanato com ouro e prata tendiam a ficar nas mos dos judeus. Eles tambm se destacavam na medicina. 
Mdicos judeus dispunham de grande influncia entre governantes muulmanos.

Atividade 1

          Conhecendo uma Sinagoga

  Aps a destruio do Templo de Jerusalm em 70 d.C. pelos romanos, muitos de seus rituais tradicionais foram incorporados ao culto da Sinagoga. Na comunidade judaica, 
a sinagoga (do grego Sunagoge, que significa "congregao" ou "assemblia")  o local dos cultos e estudos dos ensinamentos bblicos. Considerando o que voc aprendeu 
sobre judasmo, responda:

Figura 5.

foto mostrando a representao de algumas partes da Sinagoga de Staronav, em Praga
  Galerias femininas
  Tmpano do sculo XVIII decorado com um relevo entalhado
  Bimah, plataforma da qual so conduzidos os servios
  A Arca da Aliana, que contm os pergaminhos da Tra

 1) Qual era a importncia da Arca da Aliana do antigo Templo de Jerusalm para os judeus?
 2) Explique a localizao do Bimah e da Arca da Aliana 

  no interior da sinagoga representada na figura ao lado.

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pea orientao ao professor

173

A formao do Estado de 
  Israel

  Em fins do sculo XIX, os imigrantes judeus provenientes da Europa comearam a adquirir terras na Palestina, estimulados pelo crescimento do sionismo, movimento 
de judeus europeus que pregava o retorno de seu povo  Terra Prometida.
  A idia sionista originouse entre judeus do Imprio Russo, mas sua formulao mais conhecida foi elaborada pelo jornalista hngaro Theodor Herzl, correspondente 
de um jornal austraco em Paris. Em 1896, ele publicou o livro O Estado judeu. No ano seguinte, organizou o primeiro congresso sionista na Basilia (Sua).
  O Reino Unido reconhecia como legtimo esse movimento migratrio, chegando a formalizar o direito do povo judeu de estabelecer um lar nacional na Palestina, num 
documento datado de 1917, conhecido como Declarao Balfour. Os rabes, que ento eram a maioria da populao da Palestina, sentiramse ameaados pelo movimento sionista 
e pela poltica inglesa. Eles temiam ser submetidos e desapropriados pelos judeus.
  Aps a Primeira Guerra Mundial, a Palestina passou a ser controlada pelo Imprio Britnico. Durante a dominao britnica, a diviso entre os rabes palestinos 
e os judeus se tornou cada vez mais ntida. Uma cidade inteiramente judia, como Tel 
 Aviv (fig. 6), por exemplo, foi construda ao lado de Jafa, uma antiga cidade rabe.

Figura 6. 

foto mostrando parte da cidade de Tel Aviv, fundada pelos judeus na periferia de Jafa em 1909, e acabou incorporando a antiga cidade rabe. Atualmente,  a maior 
cidade de Israel

174
  O judeu residente da Palestina tpico era morador urbano, vivendo numa das trs grandes cidades: Jerusalm, Haifa e Tel Aviv. Em 1939, s 10% da populao judia 
viviam no campo. Apesar de minoria, os trabalhadores rurais dos assentamentos coletivos, os kibutzim, eram exaltados como heris da causa judaica e pioneiros da 
colonizao na Palestina. Leia mais sobre os kibutzim no quadro 1.

Quadro 1

          O kibutz

  O kibutz  uma criao exclusivamente judaica e abriga, em mdia, de 80 a 100 famlias cada um. Em conjunto com o moshav,  responsvel pelo abastecimento da populao 
de Israel com produtos agrcolas. Ao mesmo tempo, voltase para uma progressiva industrializao, hoje envolvendo desde matrizes para a produo de pneus at a computao 
eletrnica.
  Os judeus que criaram os 
 kibutzim eram, na maioria, russos que migraram para a Palestina na dcada de 1920. Tinham um ideal socialista, mas uma f religiosa muito grande. Os kibutzim comearam 
a ser formados 28
anos antes da criao do Estado de Israel. As terras eram coletivas, e, como no havia circulao de dinheiro, todas as necessidades de seus membros (casa, comida, 
escola etc.) eram pagas atravs de trabalho.
  At o comeo da dcada de 1970, muitos kibutzim foram instalados em terras conquistadas dos rabes. O kibutz de Merom Golan, o primeiro criado nas Colinas de Golan, 
at hoje  grande produtor de ma, kiwi, cereja e nectarina. Possui uma fbrica de motores eltricos para fins militares e tambm produz considervel quantidade 
de leite.

Figura 7.

foto mostrando um Kibutz em Israel, na poca em que o Estado foi criado

 fim do quadro

  Durante a Segunda Guerra Mundial, os britnicos viveram um enorme dilema na Palestina. Por um lado, apoiavam a imigrao judaica, devido s influncias que os 
judeus exerciam sobre o governo em Londres. Alm disso, havia um amplo apoio de comunidades judaicas de outros pases, agitadas pelos massacres de judeus pelo nazismo.
  Mas os ingleses tambm no queriam contrariar os rabes e, muitas vezes, cederam a presses para frear a imigrao dos judeus. Eles sabiam que a imigrao em larga 
escala levaria ao pedido de formao do Estado judeu e os rabes certamente responsabilizariam o governo britnico por isso.
  Em 1945, quando terminou a Segunda Guerra Mundial, a situao da Palestina era insustentvel. Os britnicos tentaram encontrar alguma sada negociada, sem a perda 
de sua influncia poltica na regio, mas no tinham mais tanta liberdade de ao. A estrutura de poder no mundo havia mudado muito com a ascenso dos Estados Unidos 
e da Unio Sovitica, e a questo palestina tornarase um ponto importante na relao diplomtica angloamericana.
175
  O governo norteamericano ainda no tinha muitos interesses prprios na regio, mas sofria presso poltica de sua enorme e ativa comunidade judaica. Por tais motivos, 
inclinavase a usar sua influncia em favor das exigncias sionistas de imigrao.
  Os rabes tambm no estavam parados. Duas conferncias, realizadas em Alexandria, em 1944, e no Cairo, em 1945 (fig. 8), haviam resultado na criao da Liga dos 
Estados rabes. Ela reunia, inicialmente, o Egito, a Sria, o Lbano, a Transjordnia (atual Jordnia), o Iraque, a Arbia Saudita e o Imen. Um representante dos 
rabes palestinos tambm participou das reunies. Apesar das enormes dificuldades da Liga dos Estados rabes em estabelecer uma pauta de interesses comuns, um ponto 
era uma questo de honra: a defesa dos rabes na Palestina.

Figura 8. 

foto mostrando algumas pessoas na conferncia dos pases rabes no Cairo, em maro de 1945. A Liga dos Estados rabes ganhou forma nessa reunio

  Em 1947, os britnicos decidiram entregar o assunto  ONU, que formou uma comisso especial para estudar o assunto e, aps meses de trabalho e visitas  rea, 
apresentou o seu plano de partilha (fig. 9). O plano foi aprovado pela Assemblia Geral das Naes Unidas em novembro de 1947, com apoio bastante ativo dos Estados 
Unidos e tambm da Unio Sovitica, que desejava a retirada dos britnicos da Palestina.

Figura 9.

          A Partilha da Palestina proposta pela ONU (1947)

mapa mostrando a Palestina (42,9%), Israel (56,5%) e Jerusalm (zona internacional). A seguir, legenda
  O plano de partilha proposto pela ONU dividia a regio da Palestina em duas partes: em uma delas seria implantado o Estado rabe da Palestina (ou simplesmente 
a Palestina); em outra, o Estado de Israel. Jerusalm se transformaria em uma zona internacional, ou seja, no pertenceria a nenhum pas. Esse plano no chegou a 
ser implantado.

  Essa deciso da ONU no teve o apoio dos representantes dos pases rabes. Os rabes palestinos protestaram e, mais uma vez, a comunidade internacional encontravase 
diante de um impasse.
  Na impossibilidade de encontrar uma sada que satisfizesse rabes e judeus, o Reino Unido decidiu fixar uma data para retirarse da Palestina: 14 de maio de 1948. 
Eles esperavam que a iminncia da retirada de suas tropas da regio provocasse a busca de algum acordo entre as duas partes. No foi o que ocorreu.
   medida que chegava o dia da retirada de suas foras, a autoridade dos britnicos era cada vez menos respeitada. A luta entre judeus e rabes j tomava conta 
das ruas. Nessa poca, os judeus representavam cerca de 30% da populao da Palestina e controlavam grande parte das cidades da regio.

176

  No dia estabelecido pelo Reino Unido, a comunidade judaica declarou sua independncia, criando o Estado de Israel (fig. 10), que foi imediatamente reconhecido 
pelos Estados Unidos.

Figura 10. 

foto mostrando David Ben Gurion, estadista que proclamou ao mundo a existncia do Estado de Israel e foi o seu primeiroministro em dois perodos: 19481953 e 19551963

  Imediatamente, as foras dos exrcitos egpcio, jordaniano, iraquiano, srio e libans avanaram sobre o pas. O recmformado exrcito israelense conseguiu controlar 
a situao, ocupando a maior parte da regio. A populao rabe local, em pnico, abandonou em massa suas casas e terras, refugiandose nos pases rabes vizinhos. 
Grande parte da burguesia rabe de Jerusalm, de Haifa e de Jafa instalouse em cidades fora da Palestina. Foi o capital desses ricos empresrios palestinos que provocou 
o rpido crescimento de cidades como Am, na Jordnia.
  No incio de 1949, sob a interveno da ONU, foram traadas as fronteiras entre Israel e seus vizinhos rabes (fig. 11). Cerca de 75% da Palestina ficou dentro 
das fronteiras de Israel, fato celebrado pelos sionistas. A parte do territrio na costa sul, que se estende at a fronteira egpcia, conhecida por Faixa de Gaza, 
ficou sob a administrao do Egito. A regio da Cisjordnia foi anexada ao Reino da Jordnia.

Figura 11. 

          Israel e pases vizinhos (1949)

mapa mostrando Israel em 1947. A Palestina, com partes de seu territrio ocupado: por Israel, pela Jordnia e pelo Egito. Jerusalm dividida entre Israel e Jordnia. 
A seguir, legenda
  Aps a guerra desencadeada pela criao do Estado de Israel, a Palestina foi dividida entre Israel e seus vizinhos rabes. O Estado rabe da Palestina sumiu do 
mapa antes mesmo de ser implantado.

  Grande parte dos pases rabes continuou no reconhecendo a existncia de Israel e considerou ilegtima essa diviso. Muitos rabes se recusam at hoje a pronunciar 
o nome de Israel. Preferem designar o Estado judeu no Oriente Mdio, criado em 1948, por Nakba, palavra rabe que significa "catstrofe".
  Desde ento, o conflito rabeisraelense j fez inmeras vtimas.  rara a famlia em Israel, seja de rabes ou judeus, que no tenha perdido algum familiar nos 
conflitos dos ltimos cinqenta anos.

177
Atividade 2

          Os pontos de vista dos rabes e dos judeus

  Escreva no seu caderno uma defesa do ponto de vista dos judeus, justificando a formao do Estado de Israel. Escreva tambm uma defesa do ponto de vista dos rabes, 
defendendo os direitos dos palestinos.

Os palestinos tambm querem uma ptria

  O estabelecimento do Estado de Israel tornou a diviso entre rabes e judeus ainda mais acentuada. Judeus do mundo inteiro passaram a migrar para a Palestina e, 
aos poucos, tornaramse maioria da populao local (fig. 12).

Figura 12.

Judeus e Palestinos na Palestina  populao (milhares)

Ano  Palestinos  Judeus

 1822  250  24
 1914  630  60
 1922  656  84
 1936  983  384
 1947  1.304  608
 1967  1.410  2.290
 1980  1.825  3.200
 1994  2.950  4.600

  Legenda Aps a criao do Estado de Israel, a populao de judeus na Palestina cresceu rapidamente, alimentada pelos fluxos migratrios. Em compensao, a populao 
palestina praticamente parou de crescer entre 1947 e 1967, perodo em que milhares deles abandonaram a regio.

  Por sua vez, milhares de palestinos deixaram suas casas para fixaremse em campos de refugiados espalhados por vrios pases rabes, como a Sria, a Jordnia, o 
Lbano (fig. 13) e vrios outros, incluindo a Faixa de Gaza. Surgia uma nova gerao de palestinos no exlio, educada no Cairo ou em Beirute, por exemplo, mas com 
uma lembrana e desejo crescente de restabelecer sua ptria na Palestina.

Figura 13. 

foto mostrando vrias pessoas chegando de caminho a um campo de refugiados palestinos em Chatila, no Lbano, em 1987. H mais de cinqenta anos existem campos de 
refugiados palestinos nos pases rabes vizinhos a Israel

  No final da dcada de 1950 comearam a surgir vrios grupos polticos nos campos de refugiados palestinos. O principal deles, a AlFatah empenhavase em fazer sabotagens 
em Israel e procurava reunir foras suficientes para um confronto direto com os israelenses.
  A presena desses grupos organizados comeou a incomodar os israelenses. A partir de 1965, Israel passou a responder s provocaes dos palestinos atacando os 
Estados rabes que apoiavam as aes desses grupos. Israel tinha um exrcito mais forte e queria mostrar sua superioridade militar. No meio poltico do pas, havia 
aqueles que tinham interesse em conquistar de vez a Palestina.
178
  A reao israelense s provocaes dos palestinos foi a oportunidade que os Estados rabes estavam esperando para deflagrar uma guerra. No comeo de 1967, o Egito 
fechou o Golfo de caba, impedindo que navios israelenses circulassem. Foi o estopim de mais uma guerra.
  O desfecho da Guerra de 1967 foi muito rpido. Por isso ela ficou conhecida por Guerra dos Seis Dias. Israel atacou o Egito e destruiu sua fora area. Nos dias 
seguintes, os israelenses ocuparam o Sinai at o Canal de Suez, alm de Jerusalm, da Cisjordnia (a parte palestina da Jordnia) e das colinas de Golan, no sul 
da Sria (fig. 14).

Figura 14.

          O territrio de Israel aps a Guerra dos Seis Dias

mapa mostrando Israel, 19491967, a ocupao militar israelense (junho de 1967); Jerusalm ocupada e os campos de refugiados palestinos. A seguir, legenda
  Israel ocupou militarmente territrios de todos os pases rabes com os quais lutou na Guerra dos Seis Dias.

  A derrota do Egito, da Sria e da Jordnia foi considerada desastrosa para todo o mundo rabe. Ela deteve o avano do movimento de unificao dos pases rabes, 
o chamado panarabismo, e agravou ainda mais a situao dos refugiados palestinos. Alm disso, os israelenses puderam consolidar o processo de ocupao que haviam 
iniciado em 1948.
  No ano de 1973, rabes e judeus protagonizaram mais um conflito armado de grandes propores. O Egito desencadeou um ataquesurpresa s foras israelenses estacionadas 
na margem oriental do Canal de Suez. Enquanto isso, o exrcito srio atacava as colnias de Israel nas Colinas de Golan. Os israelenses, ocupados com a comemorao 
do Yon Kippur, o dia mais sagrado do calendrio judaico, estavam despreparados para reagir com rapidez.
  Mais uma vez, as foras israelenses viraram o jogo. Atravessaram o Canal de Suez, estabelecendose na margem ocidental. Ao mesmo tempo, avanaram pelas colinas 
de Golan e empurraram os srios para Damasco, capital do pas. As campanhas mostraram que Israel mantinha a sua superioridade militar, e com um apoio mais efetivo 
dos Estados Unidos em termos de fornecimento de armamentos de ltima gerao.
  Israel chegou a um acordo com o Egito em 1979, atravs de uma mediao norteamericana. O Acordo de Camp David, como se tornou conhecido, permitiu que Israel no 
tivesse mais problemas com o antigo inimigo, ficando livre para cuidar de suas fronteiras com a Sria e dos grupos guerrilheiros palestinos espalhados pelos pases 
vizinhos. Veja na figura 15 o histrico momento de assinatura desse acordo.

Figura 15. 

foto mostrando Jimmy Carter, presidente dos Estados Unidos, Anuar Sadat, presidente do Egito, e Menachin Begin, primeiroministro de Israel, no ato de assinatura 
do Acordo de Camp David, em maro de 1979

  Israel tambm ganhou mais tempo para se preocupar com a poltica de colonizao dos territrios conquistados, considerada uma ao fundamental para garantir o 
reconhecimento da posse das terras no plano diplomtico internacional.
179
  Por outro lado, a vida dos palestinos nos territrios ocupados pelos israelenses fortaleceu seu sentimento de identidade nacional. As sucessivas derrotas dos rabes 
levaram os palestinos a perceber que s podiam contar consigo mesmos para encontrar uma alternativa para seus problemas. Deviam negociar suas terras por algum tipo 
de acordo pacfico com Israel? Como organizar politicamente um Estado palestino? Essas questes passaram a fazer parte do diaadia dos palestinos que viviam nos territrios 
ocupados por Israel.

A Intifada e a afirmao poltica dos palestinos

  A ao poltica do AlFatah levou  formao da Organizao para Libertao da Palestina (OLP), em 1967. A OLP nasceu com o objetivo de lutar contra a existncia 
do Estado de Israel. Seus membros propunham uma luta incansvel pela reconquista total de Jerusalm e dos lugares sagrados do Isl.
  Inicialmente, a OLP desenvolvia prticas terroristas, patrocinando atentados em locais pblicos de Israel ou em qualquer lugar do mundo que tivesse alguma concentrao 
de judeus. Assim, fez muitas vtimas atacando sinagogas, excurses de turistas, exposies de arte da cultura judaica e delegaes de atletas que representavam Israel 
em eventos esportivos mundiais.
  Com o tempo, porm, a OLP foi se transformando numa grande organizao que cuidava dos assuntos palestinos no exlio e seu principal lder poltico, Yasser 
 Arafat (fig. 16), foi ocupando espao como principal interlocutor para um acordo de paz. Os rumos dos acontecimentos nos territrios ocupados da Cisjordnia e de 
Gaza foram decisivos para a mudana de poltica da OLP.

Figura 16.

foto mostrando Yasser Arafat no Conselho Nacional Palestino da Arglia, em setembro de 1991

180
  No final de 1987, a populao dos territrios sob ocupao israelense, na Cisjordnia, Golan e Gaza, eclodiu um movimento de resistncia generalizado que ficou 
conhecido por Intifada, termo que significa "revolta das pedras". Evitando o uso de armas, a populao palestina praticou por mais de um ano a desobedincia civil. 
No respeitava o toque de recolher do exrcito israelense e saa s ruas para protestar, e realizava reunies em locais pblicos. Enfim, desafiava Israel de todas 
as formas.
  Com a Intifada, o problema da Palestina entrou numa nova fase. O movimento foi ganhando a simpatia da opinio pblica internacional, revelando a existncia de 
um povo palestino unido que vivia em territrios ocupados pelos israelenses.
  Com o sucesso da Intifada, a OLP passou a considerar cada vez mais a opinio dos que se achavam nos territrios ocupados e seu desejo de encerrar a ocupao. Em 
1988, o Conselho Nacional Palestino, rgo da OLP reconhecido como o legtimo representante dos palestinos no exlio, reuniuse em Argel para proclamar a disposio 
de aceitar a existncia de Israel e negociar um acordo final com os judeus.
  Em 1993, palestinos e israelenses assinaram um tratado de reconhecimento mtuo nos jardins da Casa Branca, em Washington. Leia mais sobre a assinatura desse acordo 
no quadro 2. A cidade de Jeric e a Faixa de Gaza passaram para o comando palestino (fig. 17). Dois anos depois, o primeiroministro de Israel, Yitzhak Rabin, e o 
presidente da OLP, Yasser Arafat, assinaram um documento estabelecendo as regras de transferncia de 30% da Cisjordnia, incluindo as cidades mais importantes, como 
Jenin, Nablus, Ramallah e Belm, para que os palestinos formassem o seu prprio Estado.

Figura 17.
 

mapa mostrando Israel em 1967, territrio ocupado por Israel desde 1967 e territrio autnomo palestino em 1993. A seguir, legenda
  Desde 1993, a Faixa de Gaza e a cidade de Jeric so governadas pela Autoridade Nacional Palestina. Entretanto, existem muitos obstculos no caminho de novas conquistas 
palestinas.

  Desde ento, o Estado palestino, assentado sobre os territrios da Cisjordnia e de Gaza, comeou a se transformar numa realidade poltica e social. E os seus 
desafios so enormes. Tratase de reas superpovoadas, com inmeros problemas de infraestrutura. Durante os trinta anos em que manteve esses territrios sob ocupao, 
Israel fez poucos investimentos. Faltam escolas, hospitais, moradias, rede de gua e esgoto.  preciso comear praticamente do zero.

181
Quadro 2

          Eu sou, tu s

  O mundo foi contemplado, em 13 de setembro [de 1993], com a assinatura de um acordo de paz entre Israel e a Organizao para a Libertao da Palestina. Quatro 
dias antes, uma troca de cartas entre Yasser Arafat, presidente da OLP, e o premi israelense, Yitzhak Rabin, estabelecera o reconhecimento mtuo entre as entidades 
que representam. Como num desses passes de mgica que parecem ser a substncia da poltica, israelenses e palestinos podem, agora, dialogar. Nas dcadas que se seguiram 
 criao de Israel, a geopoltica do Oriente Mdio estruturouse em torno de um estranho vcuo de existncias. Os rabes negavam Israel, e faziam disso a substncia 
de um demaggico panarabismo, que
ocultava os graves problemas da regio. O Isl (rabe e norabe) satanizou Israel e seu aliado ocidental, fomentando o fanatismo que lhe assegura o rebanho de adeptos 
entre os miserveis e famintos que abundam no Oriente Mdio e no mundo. Israel, como contrapartida, alimentou a parania da "ameaa rabe"  o inimigo annimo, oculto, 
onipresente  para fomentar a segregao de rabes israelenses e criar uma formidvel mquina militar que possibilitaria a conquista do delrio imperialista da Grande 
Israel. O reconhecimento mtuo muda completamente a equao dos problemas da regio, e coloca novos desafios. (Boletim Mundo: geografia e poltica internacional, 
n.o 5, set. 1993.)

Figura 18. 

foto mostrando o presidente norteamericano Bill Clinton observando Yasser Arafat e Yitzhak Rabin cumprimentandose aps a assinatura do acordo de paz, nos jardins 
da Casa Branca, sede de governo dos Estados Unidos

 fim do quadro

182 
  Mas os obstculos para o avano da paz entre rabes e judeus ainda so enormes. Radicais dos dois lados no aceitam o acordo firmado por seus lderes polticos. 
Milhares de colonos judeus prometem jamais sair da Cisjordnia, nem que seja preciso criar milcias para substituir as tropas israelenses. Grupos islmicos, como 
o Hamas e o Jihad, tambm no reconhecem os acordos realizados pela OLP e disputam com Yasser Arafat espao poltico para determinar os rumos da questo palestina.
  Uma das principais resistncias encontrase em Hebron, onde os colonos judeus sustentam que a Cisjordnia sempre foi e sempre ser de Israel. Primeira capital do 
judasmo, Hebron guarda os tmulos dos patriarcas, sagrados para os judeus e muulmanos. Foi l que Israel implantou sua primeira colnia, em 1967, logo aps conquistar 
a Cisjordnia na Guerra dos Seis Dias. Desde ento, muitas outras colnias foram implantadas. Veja o mapa (fig. 19).

Figura 19. 

mapa mostrando colnias israelenses na Cisjordnia:
 o Cidades principais  Jenin, Tulkarem, Nablus, Ramallah, Jeric, Belm e Hebron
 o Colnias israelenses implantadas entre 1967 e 1993
 o rea urbana de Jerusalm
 o Pontes
  Legenda: hoje, as colnias judaicas da Cisjordnia abrigam cerca de 130 mil judeus, parte dos quais est disposta a lutar at a morte para defender a terra que 
considera direito de seu povo, e no admite a hiptese de um Estado Palestino

Atividade 3

          Organizando um dossi

  Pesquise em jornais e revistas dos ltimos dois meses as matrias veiculadas a respeito de Israel e da Palestina. Organize um dossi com o material coletado: classifique 
os artigos por assunto e elabore um ndice; coloqueos numa pasta e escreva uma introduo com um breve comentrio sobre o material que voc reuniu.

Passando a limpo

  Construa duas linhas do tempo. A primeira, da Antiguidade at o fim da Primeira Guerra Mundial, indicando, para cada momento histrico, o arranjo espacial existente 
na Palestina. Na segunda linha do tempo, considere o perodo do fim da Primeira Guerra Mundial at os dias de hoje. Ilustre o seu trabalho com mapas.

Notas de rodap

 (1) Antigo Testamento  O Antigo Testamento contm as Escrituras consideradas sagradas por judeus e cristos. Porm, enquanto os judeus ainda esperam pelo enviado 
de Deus na Terra, os cristos acreditam que Jesus Cristo, nascido na Palestina, tenha sido esse enviado. Assim, para os cristos tambm so sagradas as Escrituras 
do Novo Testamento, que narra a vida de Cristo e de seus apstolos. 
 (2) Palestina  A Palestina  uma estreita faixa de terra situada entre o Mar Mediterrneo e o Deserto da Arbia.

               oooooooooooo
183

Captulo 13

          A ndia e o Paquisto

  Em 11 de maio de 1998, trs exploses nucleares no subterrneo do deserto indiano do Rajasto abalaram o mundo. No dia seguinte, autoridades norteamericanas e 
europias declaravam seu espanto e indignao aos microfones das agncias internacionais de notcias, mas permaneceram impotentes diante do fato consumado: nem mesmo 
os homens mais poderosos do mundo haviam podido impedir que a ameaa nuclear fosse plenamente instalada em uma das regies mais pobres do planeta. As autoridades 
indianas, por sua vez, comemoravam sua vitria tecnolgica (fig. 1).

Figura 1.

foto mostrando o primeiroministro Atal Vajpayee, junto com autoridades civis e militares da ndia, visita em 20 de maio de 1998, o local em que foram realizados 
os testes nucleares

  No que fosse uma surpresa o fato de que, em um pas onde quase a metade da populao de quase 1 bilho de pessoas vive em condies de misria absoluta, os militares 
tivessem investido tempo e muito dinheiro para desenvolver a tecnologia destrutiva que conduz  bomba atmica. A ndia j havia realizado testes nucleares em 1974, 
e se recusa a participar de acordos internacionais propostos pela ONU para impedir a proliferao desse tipo de armamento pelo mundo. O governo indiano considera 
que a Organizao no tem direito de impor qualquer limite  sua capacidade militar, principalmente porque os membros permanentes do Conselho de Segurana  Estados 
Unidos, Rssia, Frana, Reino Unido e China  j desenvolveram e testaram suas prprias bombas, e no esto dispostos a destrulas.
184
  O poderio nuclear da China incomoda particularmente a ndia, que reivindica a posse de territrios sob soberania chinesa em regies fronteirias, situadas na Cordilheira 
do Himalaia (fig. 2), e j entrou em duas guerras com aquele pas por esse motivo, em 1959 e 1962.

Figura 2. 

          ndia: fronteiras em disputa

mapa mostrando as regies de fronteira:
 o Cachemira  regio reivindicada pela China, regio reivindicada pelo Paquisto
 o Conflitos armados
 o Barreira do Himalaia
  Legenda: desde que se tornou independente, a ndia reivindica territrios chineses situados prximos  sua fronteira setentrional

  A fronteira entre a ndia e o Paquisto  outro foco permanente de tenso, responsvel por episdios de guerra declarada em 1965 e 1971. Nesse caso, o principal 
problema  a regio da Cachemira, na qual a maior parte da populao  muulmana. Diversos agrupamentos polticos lutam para que a Cachemira se desligue da ndia, 
pas no qual predomina a religio hindusta, e passe a integrar o Paquisto, predominantemente muulmano. Muitos deles contam com o apoio do governo paquistans. 
O Paquisto, por sua vez, um dos pases mais pobres do mundo, tambm desenvolve um programa nuclear, para o qual conta com o apoio tecnolgico da China.
  Os testes no deserto do Rajasto serviram para mostrar ao mundo  em especial  China e ao Paquisto  que a ndia havia se tornado uma potncia nuclear completa, 
pois dominava at mesmo a tecnologia necessria para fabricar a poderosa bomba de hidrognio. Leia mais sobre isso no quadro 1.

185
Quadro 1

          Como se faz uma bomba

  Nos testes atmicos, a ndia utilizou tecnologias clssicas dos arsenais nucleares, conhecidas como de fisso e de fuso. As bombas de fisso nuclear, como as 
que foram lanadas em 1945 sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japo, so conhecidas tambm como bombas A. Na fisso nuclear, um ncleo atmico, geralmente de urnio 
ou de plutnio,  submetido ao impacto de uma partcula de carga eltrica neutra (nutron). O ncleo bombardeado se divide em dois menores, liberando energia e nutrons. 
Essa energia mantinha a coeso do ncleo original, formado por nutrons e tambm por prtons (partculas de carga positiva), que se repelem. Nessa diviso, alguns 
nutrons liberados atingem o ncleo de outros tomos, gerando uma reao em cadeia, que
consiste em sucessivas divises com escape de altssima quantidade de energia.
  O processo de fisso  praticamente o inverso do que ocorre na fuso nuclear, utilizada, por exemplo, nas bombas H francesas testadas nos ltimos anos no Atol 
de Muroroa, no Oceano Pacfico. Na fuso, ncleos de tomos mais simples formam ncleos de tomos mais complexos. Nas bombas de fuso, ou termonucleares,  utilizado 
o elemento atmico mais simples, que  o hidrognio de onde vem o nome bomba H, cujo ncleo possui somente um prton. Nesse processo, tambm  liberada grande quantidade 
de energia. A primeira bomba H foi testada pelos Estados Unidos em 1952 no Atol de Enivetok, no Oceano Pacfico. (Folha de S. Paulo, 12 mai. 1998.)
 fim do quadro

  Como era de esperar, a ndia no ficaria sem resposta: semanas depois, seria a vez dos testes nucleares do Paquisto, realizados em uma regio desrtica prxima 
 fronteira com o Ir. Por estranho que possa parecer, milhares de paquistaneses saram em festas pelas ruas de Islamabad, a capital do pas, orgulhosos de seu poderio 
tecnolgico. Em muitas outras cidades, as pessoas tambm comemoraram (fig. 3), como se a bomba pudesse de fato melhorar suas vidas e de suas famlias.

Figura 3. 

foto mostrando uma multido nas comemoraes do sucesso do teste nuclear em Lahore, cidade paquistanesa situada nas proximidades da fronteira com a ndia, em 10 
de julho de 1998

  A forte rivalidade entre a ndia e o Paquisto combina ressentimentos mtuos, dios religiosos e disputas territoriais. Neste captulo, vamos estudar as origens 
histricas dessa rivalidade e entender por que o sul da sia se transformou em uma das regies mais conturbadas do globo.

186

A longa histria da civilizao indiana

  A primeira civilizao urbana floresceu na Pennsula Indiana por volta do ano 3000 a.C., no Vale do Rio Indo, regio que hoje pertence ao Paquisto. Ela permanece 
envolta em grande mistrio, mas sabemos que era constituda por pessoas de pele morena ou negra, provavelmente vindas da frica, e que suas imponentes cidades, como 
Harapa e Mohenjo Daro, foram construdas com tijolos e contavam com sistema de gua e esgoto.
  Por volta do ano 1400 a.C., a regio foi invadida pelos arianos, povo de pele clara e cabelos loiros, que praticava o pastoreio nmade. Os arianos introduziram 
ali um sistema de diviso da sociedade em castas, cujo pertencimento era hereditrio, e um conjunto de textos sagrados (os Vedas), escritos em snscrito (1) veja 
a pgina 545. Originalmente havia trs castas: os detentores do Saber (como os sacerdotes, os brmanes), do Poder (prncipes e guerreiros) e do Ter (proprietrios). 
Mais tarde seria criada a quarta casta, a dos trabalhadores sados das populaes locais. Os prias, ou seja, aqueles que no pertenciam a nenhuma das castas, eram 
considerados inferiores e, portanto, eram marginalizados.
  A cultura e as prticas religiosas hindustas nasceram da fuso entre os ritos e costumes dos povos do Vale do Rio Indo e o sistema social e cultural dos invasores 
arianos. Elas se espalharam por toda a Pennsula, fundando templos (fig. 4) e se misturando a mltiplas prticas religiosas locais, mas sempre difundindo a fora 
dos sacerdotes brmanes, da escrita snscrita, das lnguas indoarianas e de um sistema de castas que iria se tornar muito mais complexo ao longo da histria. Com 
a incorporao de novos povos e a crescente diviso do trabalho, o nmero de castas admitidas pelos hindus chegou a cerca de 2.400!

Figura 4.

foto mostrando a fachada do templo hindu em Madras, no sudeste indiano

  Os muulmanos comearam a chegar na Pennsula Indiana no sculo VII, estabelecendo pequenas feitorias comerciais, e foram ampliando lentamente sua presena no 
Vale do Rio Ganges. No sculo XIII, eles dominaram militarmente vastas extenses do norte do pas, comandados pelos sultes sediados na cidade de Dlhi. Desde ento, 
uma massa crescente de adeptos do Isl passou a integrar a civilizao indiana, e suas mesquitas se espalharam pela regio (fig. 5).

Figura 5.

foto mostrando a Mesquita de Shah Faisal, no Paquisto

187
  No sculo XIV, dois grandes sultanatos dividiam a Pennsula Indiana, separados entre si por um reino hindu (fig. 6). Entretanto, a maior parte da populao vivia 
em pequenas comunidades camponesas subordinadas a chefes locais, muito distantes dos poderes centralizados nas cidades governamentais. Muitas delas se recusavam 
at a pagar os impostos que deviam aos sultes e reis.

Figura 6. 

          A civilizao indiana (sc. XIV)

mapa mostrando Sultanato de Dlhi, Reino hindu de 
  Vijayanagar e Sultanato de Madura. A seguir, legenda
  Hindus e muulmanos convivem h sculos no territrio que atualmente corresponde  ndia, ao Paquisto e a Bangladesh.

  A civilizao indiana  marcada pela diversidade de povos e de culturas, ainda que o hindusmo e o islamismo tenham se tornado as religies dominantes. A longa 
histria de convivncia  nem sempre pacfica  entre esses povos produziu a sua identidade, que sobreviveu aos mais diferentes arranjos do poder poltico. Dominada 
por grandes imperadores ou fragmentada em inmeros pequenos reinos e principados, a civilizao indiana se desenvolveu sob o signo da "unidade na diversidade".

Atividade 1

          A cultura indiana

  Com o auxlio de enciclopdias, elabore um cartaz sobre a cultura indiana que contenha ilustraes e informaes acerca dos hbitos alimentares, dos costumes religiosos, 
da arquitetura e das artes que fazem parte do cotidiano da populao da ndia.

A presena europia na ndia

  Olhando para o mapa fsico da figura 7, podemos imaginar como foi difcil para os sucessivos povos invasores, que fizeram a riqueza da civilizao indiana, penetrar 
na regio pelas rotas terrestres, pois imponentes barreiras naturais delimitam a Pennsula Indiana e a separam do restante da sia.

Figura 7.

          Pennsula indiana: aspectos 
          fsicos

mapa mostrando: os desertos do Ir, de Takla Makam, de Thar; planaltos do Ir, do Tibete, do Dec; plancie do Ganges; cordilheiras do Himalaia, Pamir, HindoKush. 
A seguir, legenda
  Nos limites terrestres da Pennsula Indiana, alinhamse imponentes montanhas e extensos desertos.

  A leste, separandoa do Sudeste Asitico, esto as cadeias montanhosas de Mianma (antiga Birmnia), recobertas por densas florestas tropicais. Ao centro, separandoa 
da China, encontramos a imponente Cordilheira do Himalaia, uma extensa cadeia de dobramentos modernos (2), na qual se localizam os picos mais altos da Terra e que 
se prolonga nas montanhas que separam o subcontinente da sia Central. A oeste, localizamse os planaltos iranianos, marcados pela extrema aridez.
  Durante muito tempo, as sucessivas levas de colonizadores, incluindo os arianos e os primeiros muulmanos, penetraram na regio atravs dos planaltos iranianos 
e de algumas poucas passagens naturais que separam os grandes picos montanhosos.
  As barreiras naturais explicam por que, na poca moderna, o essencial das relaes da civilizao indiana com o mundo se fez por meio das rotas martimas. Foi 
pelo Oceano ndico que os primeiros europeus chegaram  regio.
  O navegador portugus Vasco da Gama, por exemplo, aportou em Calicute, na costa sudoeste, no ano de 1498. Logo depois, seriam estabelecidas as primeiras feitorias 
comerciais na regio. As especiarias e tecidos produzidos na ndia ingressaram nos mercados europeus,
189
por meio de Portugal, e atraram a cobia de comerciantes britnicos, holandeses e franceses, vidos por explorar as imensas possibilidades de lucro abertas pelo 
comrcio indiano.
  A ndia permaneceria, ainda por longo tempo, sendo ferreamente disputada pelos pases da Europa. Entretanto, no sculo XVIII, o Reino Unido j havia conquistado 
uma posio claramente vantajosa. Partindo de Calcut, no delta do Rio Ganges, os britnicos se implantaram solidamente em quase toda a Pennsula Indiana. Finalmente, 
em 1857, a ndia foi oficialmente subordinada ao Imprio Britnico, na poca a maior potncia industrial, financeira e militar do mundo.

A Colnia Britnica da ndia

  A ndia tornouse o centro estratgico do poderoso Imprio Britnico (fig. 8), a tal ponto que muitos estudiosos afirmam que a expanso britnica na frica foi 
realizada essencialmente para defender as rotas martimas que levavam ao subcontinente, considerado a "gema mais esplndida da Coroa imperial". De fato, no incio 
do sculo XX, os navios europeus com destino  ndia passavam necessariamente pelos portos britnicos do sul da frica, do Egito, do Golfo de den ou de Cingapura, 
independentemente da rota escolhida para navegar.

Figura 8. 

mapa mostrando o Imprio Britnico  1914. A seguir, legenda
  No incio do sculo XX, o Imprio Britnico estava implantado em todos os continentes.

  Tambm no plano econmico, a ndia foi a mais importante das colnias do Imprio Britnico. A explorao de seus recursos e o comrcio com seus produtos ajudaram 
a manter o luxo e as riquezas da corte imperial e, talvez mais importante, a sustentar os custos da presena britnica em regies pouco lucrativas da frica.
  Os britnicos organizaram ali os sistemas ancestrais de coleta de impostos, que passaram a abranger a maior parte das aldeias da ndia. Como no podiam arcar com 
eles, muitos camponeses pobres acabaram
190
perdendo suas terras. Dessa forma, a ndia viveu um dramtico processo de concentrao fundiria durante a colonizao. Ao mesmo tempo, uma parcela crescente das 
terras frteis passou a ser ocupada com culturas de exportao, que visavam abastecer os mercados europeus. Assim, a rea destinada ao cultivo de alimentos diminuiu 
sensivelmente. Nos ltimos anos do sculo XIX, crises catastrficas de fome mostravam os resultados dessa inverso.
  Para fazer circular as mercadorias, os britnicos construram uma extensa rede de ferrovias na ndia, integrando as zonas produtivas com os portos exportadores. 
Nas suas margens, cresciam velhos e novos centros urbanos, como Nova Dlhi, nos quais funcionavam as casas de comrcio e as instituies administrativas. Nas primeiras 
dcadas do sculo XX, a indstria moderna nasceria em muitos desses centros urbanos, em especial em Calcut, sede da metalurgia, em Ahmadabad e em Bombaim (atual 
Mumbai, fig. 9), ambos centros da indstria algodoeira.

Figura 9.

foto mostrando a maior universidade do mundo em nmero de alunos matriculados, em Bombaim (atual Mumbai), na ndia

  A colonizao britnica transformou de maneira radical a geografia da ndia, tanto nos campos quanto nas cidades; mas no eliminou completamente os sistemas de 
poder que j existiam. Durante a maior parte do tempo, os britnicos dominaram atravs de alianas com os marajs (3) e sultes que detinham os poderes locais.
  O governo britnico sabia que podia aumentar seu controle sobre a ndia conferindo uma certa autonomia aos chefes polticos locais e transformandoos em intermedirios 
da Coroa. Mas tomaram o devido cuidado para impedir a unio entre os diferentes povos da ndia, pois isso representava um perigo iminente para seu poderio. Mesmo 
quando serviam no exrcito britnico, soldados hindus e muulmanos jamais pertenceram s mesmas unidades. No quadro 2, o prprio governo britnico explica por qu.

Quadro 2

          Dividir para melhor reinar

  Um telegrama do governo britnico a um tenentecoronel sediado na ndia revela a estratgia de dominao utilizada na regio:
  Devemos envidar todos os nossos esforos no sentido de manter a separao, para ns to favorvel, das diferentes religies e raas em toda a sua plenitude. No 
devemos esforarnos por um entendimento. Divide et impera, este foi o axioma de nosso governo na ndia. (Citado em C. Serrano e K. Munanga, A revolta dos colonizados, 
p. 52.)
 fim do quadro
 
191
A luta pela independncia

  O movimento pela independncia da Colnia Britnica da ndia comeou com a fundao do Partido do Congresso, que buscava atrair a populao para seu programa nacionalista. 
A maior parte dos seus membros era constituda de hindustas, vivia nas cidades e pertencia ao pequeno crculo dos indianos que freqentavam as universidades. O 
nacionalismo indiano nasceu muito distante tanto das comunidades e aldeias camponesas, nas quais vivia a maior parte da populao, quanto das vastas e miserveis 
periferias urbanas. E mais distante ainda da populao muulmana que, em 1905, criaria seu prprio programa de libertao nacional atravs da fundao da Liga Muulmana.
  Nesse contexto, seria preciso operar um verdadeiro milagre para construir um projeto de libertao nacional no qual houvesse lugar para hindus e muulmanos, e 
que conseguisse atrair a adeso das massas populares. Pois era exatamente isso que o maior lder da histria da ndia, Mohandas 
 Karamchand Gandhi (18691948) pretendia fazer (fig. 10).

Figura 10.

foto mostrando Gandhi, em janeiro de 1941. Ele pregava o boicote aos produtos industrializados do Reino Unido. Por isso, estava sempre vestido com uma tnica de 
algodo tecida por suas prprias mos

  Gandhi havia estudado Direito em Londres e trabalhado como advogado na frica do Sul quando ingressou no movimento nacionalista indiano, em 1914. Seus ensinamentos 
incorporavam elementos da espiritualidade hindu, mas excluam qualquer hostilidade para com a populao muulmana. De acordo com Gandhi, a verdade, a pureza e a 
noviolncia so as nicas foras que devem ser utilizadas para modificar a vontade do outro. Dezenas de milhes de indianos passaram a boicotar os produtos manufaturados 
vendidos pelos britnicos, a desobedecer silenciosamente s suas ordens e a resistir pacificamente a seus exrcitos, sob a orientao de Gandhi. Em toda a ndia, 
o grande lder passou a ser conhecido como Mahatma, que significa "Grande Alma".
  Em 1935, o Partido do Congresso, influenciado pelas idias de Gandhi e decidido a lutar pela independncia, j estava fortemente implantado, no s nas regies 
onde a maioria da populao era constituda por hindus, mas tambm na maior parte das regies muulmanas. A Liga Muulmana tambm havia se posicionado pela independncia, 
mas seus planos incluam a partio da ndia em dois Estados independentes, um hindu e outro muulmano.
  A Segunda Guerra Mundial precipitou os acontecimentos. O Reino Unido precisava dos soldados e da economia da ndia para ajudar no esforo de guerra, e o Partido 
do Congresso era por princpio contra o envolvimento da ndia no conflito. Para complicar, o Japo avanava sobre a Birmnia (atual Mianma) e estava prestes a invadir 
a ndia. Nesse contexto, os britnicos fizeram esforos
192
desesperados para desarticular o Partido do Congresso, prendendo seus lderes e cerca de 60 mil simpatizantes, e jogando os muulmanos contra a maioria hindu. Assim, 
foram responsveis pelo crescimento da importncia da Liga Muulmana e de seus planos de partio da ndia.
  Em 1947, o Parlamento britnico decidiu conceder a independncia para a ndia, que seria bipartida em dois Estados independentes, de acordo com os planos da Liga 
Muulmana.
  Gandhi, partidrio da manuteno da unidade indiana e da convivncia pacfica entre os vrios grupos religiosos, era completamente contra essa diviso, pois acreditava 
que ela iria gerar conflitos violentos entre as duas comunidades. Mas o Partido do Congresso acabou aceitando a soluo inglesa. Nasciam a Unio Indiana e o Paquisto 
("pas dos puros"), este ltimo dividido em Paquisto Ocidental e Paquisto Oriental (fig. 11).

Figura 11. 

          A partipao da ndia (1947)

mapa mostrando: Paquisto Ocidental, Unio Indiana e Paquisto Oriental. A seguir, legenda
  O Paquisto nasceu como um pas dividido: cerca de 2 mil quilmetros separavam o Paquisto Ocidental do Paquisto Oriental.

  Gandhi foi assassinado em 1948 por um hindu fantico, que o acusava de colaborar com os muulmanos. Os dois novos pases j nasceram sob o signo da intolerncia 
e da rivalidade religiosa.

Atividade 2

          A vida de Mahatma Gandhi

  Faa uma pesquisa sobre a histria de Gandhi e elabore um pequeno texto sobre sua origem familiar, formao, participao no movimento de independncia da ndia 
e principais ensinamentos.

193
A ndia partida

  A partio da ndia provocou uma das maiores tragdias da era moderna. Nos meses que se seguiram  independncia, cerca de 15 milhes de pessoas foram obrigadas 
a cruzar as recmmarcadas fronteiras entre a ndia e o Paquisto.
  Pelo menos 5 milhes de hindus que habitavam a provncia de 
 Punjab, que foi cortada ao meio, foram expulsos do recmcriado Paquisto Ocidental e tiveram de emigrar para a ndia. O mesmo aconteceu com outros tantos milhes 
de muulmanos que habitavam regies que passaram a pertencer  ndia. Os grupos de refugiados que se encontravam no caminho entraram em guerra aberta, enquanto sangrentos 
conflitos religiosos irrompiam nas principais cidades dos novos pases. Leia mais sobre essa tragdia no quadro 3.
  A memria de toda essa violncia iria alimentar os dios recprocos e o desejo de vingana tanto nos milhes de muulmanos que permaneceram na ndia como nos hindus 
que viram seus parentes e amigos serem cruelmente assassinados.
  Alm disso, logo comeariam as disputas territoriais entre os dois pases. A regio da Cachemira, por exemplo, onde a maior parte da populao  muulmana, ficou 
para a ndia. At hoje, o Paquisto reivindica direitos sobre essa rea. Mais de cinqenta anos depois, a tecnologia nuclear tornaria a rivalidade entre a ndia 
e o Paquisto potencialmente ainda mais destrutiva.
  O Paquisto Oriental, por sua vez, era habitado pelo povo bengali, tambm muulmano, mas distinto dos povos do Paquisto Ocidental dos pontos de vista tnico e 
cultural. Em 1971 os bengalis declararam sua independncia. O governo paquistans, sediado no Paquisto Ocidental, mandou suas tropas para a regio, dando incio 
a mais um episdio de guerra civil na Pennsula Indiana. Para fugir da violncia das tropas paquistanesas, milhes de bengalis partiram para a ndia, que acabou 
enviando seu exrcito para apoilos.

Quadro 3

          A tragdia da separao

  No fragmento de texto abaixo, o historiador Fernand Braudel apresenta sua verso dos acontecimentos que se seguiram  independncia da ndia. De acordo com ele, 
ao traar uma linha separando o Paquisto da ndia, os colonizadores britnicos desarticularam a economia das regies fronteirias, criaram um enorme fluxo de refugiados 
e transformaram os muulmanos em uma minoria ressentida dentro da Unio Indiana.
  A 11 de julho de 1947, o Parlamento ingls concede finalmente  ndia sua independncia. Os vnculos so rompidos. Todavia, essa ndia livre est dilacerada contra 
si mesma. No dia 15 de agosto ela se separa em dois domnios: a Unio Indiana de um lado, o Paquisto de outro
(ele prprio cortado em dois pedaos). A diviso  malfeita: ela deixa  Unio Indiana uma minoria de 44 milhes de muulmanos; a nova fronteira poltica deixa zonas 
de produo de juta no Paquisto Oriental e de manufatura de tecidos na ndia [...] Fuga de homens ocorrem nos dois sentidos, abominveis, acompanhadas de inumerveis 
matanas [...] Em vo Gandhi tentou encontrar um terreno de entendimento com o Isl. A 30 de janeiro de 1948, um hindu fantico, achando que agir assim era trair 
a causa do hindusmo, assassinaria o Mahatma. A separao se fez, pois, numa atmosfera de guerra civil e violncias inauditas. Balano: dois ou trs milhes de mortos. 
(F. Braudel, Gramtica das civilizaes, p. 236.)
 fim do quadro

194
  Em 1972, com a derrota das tropas governamentais paquistanesas e a vitria dos nacionalistas bengalis, nascia um novo Estado independente na regio: Bangladesh, 
com capital em Daca (fig. 12).

Figura 12. 

          A Pennsula Indiana (1972)

mapa destacando: Paquisto, ndia e Bangladesh. A seguir, legenda
  Bangladesh  atualmente o pas mais povoado do mundo: possui cerca de 770 habitantes por quilmetro quadrado.  tambm um dos que apresentam os piores indicadores 
sociais da sia: perto de 70% da populao adulta  analfabeta.

A ndia no cenrio mundial

  A ndia  uma das principais potncias industriais do continente asitico. Em grande parte, a moderna indstria indiana nasceu dos investimentos soviticos realizados 
durante a Guerra Fria. Esses investimentos, canalizados principalmente para a metalurgia, a petroqumica e a siderurgia, implantaram uma slida base industrial no 
subcontinente (fig. 13). A tradicional indstria indiana de fiao de algodo, base da produo de tecidos, ocupa o terceiro lugar mundial em tonelagens produzidas 
por ano, atrs apenas da China e da Rssia.

Figura 13. 

mapa mostrando a localizao das regies industrias, onde se encontram as indstrias petroqumica, siderurgia/metalurgia, qumica, txtil/algodo e txtil/juta. 
A seguir, legenda
  As mais importantes regies industriais indianas esto implantadas nos arredores de grandes aglomeraes urbanas, tais como Calcut, Bombaim (atual Mumbai), Madras 
e Nova Dlhi.

  Entretanto, cerca de 70% dos indianos habitam as reas rurais, e grande parte desse contigente  constituda de pequenos proprietrios que vivem em condies de 
extrema pobreza. O trigo, o milhete (4) e, principalmente, o arroz (fig. 14), cultivos alimentares, continuam dividindo o espao agrcola com as culturas industriais 
e de exportao, principalmente o algodo, a canadeacar, o amendoim e o ch.

Figura 14. 

foto mostrando pessoas trabalhando no cultivo de arroz em Kerala, na ndia

  Desde meados na dcada de 1960, quando o pas viveu uma dramtica crise de falta de alimentos, o governo indiano vem realizando grandes investimentos na modernizao 
da agricultura. A introduo de sementes preparadas em laboratrio, de novos mtodos de controle de pragas e de toneladas de fertilizantes, realizada em parceira 
com grandes laboratrios agronmicos norteamericanos, operou uma verdadeira revoluo verde no campo indiano, elevando a produtividade agrcola e tornando o pas 
autosuficiente em alimentos. Porm a agricultura indiana depende cada vez mais desses laboratrios, e muitas espcies de arroz tradicionalmente cultivadas no pas 
esto simplesmente desaparecendo.
  A ndia possui cerca de 950 milhes de habitantes, o que significa que um em cada seis habitantes do planeta vive em seu territrio. Apesar dos grandes progressos 
tecnolgicos alcanados nos ltimos decnios  nenhum outro pas pobre tem tantos doutores e artigos publicados nas principais revistas cientficas do mundo quanto 
a ndia , cerca de
195
metade dessa populao  analfabeta e vive em condies de pobreza ou de extrema pobreza. Juntos, a ndia, o Paquisto e 
 Bangladesh, herdeiros da esplendorosa civilizao indiana, formam o maior bolso de pobreza do mundo.

196
Atividade 3

          A Belndia original

  Leia o texto abaixo, de autoria do jornalista Ricardo Bonalume Neto:

  O Brasil j foi definido por um economista como um pas "Belndia", misturando vastos territrios de pobreza "indiana" com bolses de riqueza "belga". Mas nenhum 
pas  mais "Belndia" do que a prpria ndia. Alm de armas atmicas, a ndia tem as maiores e mais bem equipadas foras armadas do Terceiro Mundo. Os indianos 
compraram o portaavies britnico Hermes, veterano da Guerra das Malvinas; dispem de msseis franceses, avies de caa russos e produzem seus prprios msseis balsticos. 
Isso tudo em um pas que ainda  sinnimo de pobreza extrema, onde restos de carne humana flutuam no Rio Ganges por no terem sido cremados a contento. (Folha de 
S. Paulo, 24 mai. 1998.)

  A partir desse texto e dos seus prprios conhecimentos, faa uma pequena redao sobre os principais contrastes sociais, econmicos e geogrficos que existem na 
ndia.

  No plano poltico, aps a independncia, a ndia se transformou na maior democracia parlamentar do globo. Nesses mais de cinqenta anos, o pas foi governado quase 
que ininterruptamente pelo Partido do Congresso. Seus membros, herdeiros distantes dos ensinamentos de Gandhi, sempre afirmaram o carter noreligioso do Estado, 
buscando manter a "unidade na diversidade" que sempre caracterizou a civilizao indiana.
  Em 1998, porm, o partido fundamentalista dos nacionalistas hindus (Barathya Janata Party  BJP) obteve maioria nas eleies gerais do pas. Assim, conquistou o 
direito de dirigir os destinos da ndia. As hostilidades contra os muulmanos, tanto os que vivem na prpria ndia quanto os que habitam o vizinho Paquisto, passaram 
a fazer parte do programa de governo.

Passando a limpo

  Desde a independncia, os sucessivos governos indianos ligados ao Partido do Congresso conduziram a vida poltica do pas sob o lema "unidade na diversidade". 
O partido nacionalista hindu (BJP) e seus aliados, que assumiram o poder em 1998, querem que a ndia seja "um povo, uma nao, uma cultura". Com base no que voc 
aprendeu neste captulo, responda:

 1. Qual a diferena bsica entre esses dois iderios?
 2. Explique por que os conflitos religiosos se tornaram mais violentos na ndia com a ascenso do partido nacionalista hindu.

Notas de rodap

 (1) Snscrito  Uma das mais antigas lnguas do mundo, de origem indiana. Como o latim,  considerada "lngua morta".
 (2) Dobramentos modernos  Cordilheiras montanhosas formadas durante o Perodo Tercirio da histria geolgica da Terra, que teve incio h cerca de 66 milhes de 
anos.
 (3) Marajs  Ttulo dado aos prncipes da antiga civilizao indiana.
 (4) Milhete  Variedade de milho cuja principal caracterstica  o tamanho reduzido dos gros.

               oooooooooooo
197

Captulo 14

          A imploso da Iugoslvia

  A Pennsula Balcnica, atravessada por importantes dobramentos montanhosos, situase entre os mares Adritico, Jnico, Egeu e Negro (figuras 1 e 2). A regio  
uma verdadeira encruzilhada de culturas e civilizaes. A fronteira entre os imprios romanos do Ocidente e do Oriente passava por ali. A pennsula tambm abrigou 
a tensa zona fronteiria entre o Imprio TurcoOtomano, fundado pelos turcos islamizados, e o poderoso Imprio AustroHngaro, um dos mais importantes do Ocidente 
europeu. Uma grande diversidade tnica e religiosa marca a vida dos Blcs h sculos.

Figura 1. 

mapa mostrando a Pennsula Balcnica: aspectos fsicos. A seguir, legenda
  Os Montes Blcs integram um sistema montanhoso do qual fazem parte os Montes Crpatos e Pindo e os Alpes Dinricos.

Figura 2. 

mapa mostrando a Pennsula Balcnica: diviso poltica  Eslovnia (Liubliana), Crocia (Zagreb), BsniaHerzegovina (Sarajevo), Iugoslvia (Belgrado), Albnia (Tirana), 
Grcia (Atenas), Macednia (Skopje), Bulgria (Sfia), Romnia (Bucareste). A seguir, legenda
  Devido s muitas mudanas de fronteira e  permanente criao de novos pases nessa pennsula durante o sculo XX, o termo balcanizao entrou para o vocabulrio 
dos estudiosos de poltica como sinnimo de fragmentao.

  Neste captulo, vamos entender parte da conturbada histria da configurao das atuais fronteiras polticas da Iugoslvia, um dos mais importantes pases balcnicos.

198
A origem da Iugoslvia

  Os povos albaneses e eslavos reivindicam para si o pioneirismo da ocupao da Pennsula Balcnica. Os albaneses afirmam ser descendentes diretos dos ilricos, 
que, segundo eles, foram os primeiros habitantes da regio. Os srvios, assim como os montenegrinos, os macednios, os eslovenos e os croatas, descendem de povos 
eslavos que chegaram na regio no sculo V, partindo das terras ao norte dos Montes Crpatos.
  Do sculo II a.C. at o sculo VII d.C., a Pennsula Balcnica pertenceu ao Imprio Romano. Quando este se dividiu entre Imprio Romano do Ocidente e Imprio Romano 
do Oriente (Imprio Bizantino) e, mais tarde, quando parte da cristandade rompeu com a Igreja Catlica, formouse a primeira grande fronteira cultural na pennsula, 
separando os cristos catlicos dos cristos ortodoxos. Leia sobre as diferenas entre catlicos e ortodoxos no quadro 1.

Quadro 1

          As principais diferenas entre os catlicos e os ortodoxos

  Os cristos acreditam que Jesus Cristo  o filho de Deus e seguem os dez mandamentos da Igreja. Seu livro sagrado  a Bblia, que se divide em duas partes: o Antigo 
Testamento e o Novo Testamento. Porm existem diversos grupos internos ao cristianismo.
  A Igreja catlica originouse dos seguidores de Cristo, que creditam ao apstolo Pedro o ttulo de primeiro papa, lder espiritual dos catlicos. A partir da, 
uma srie de papas o sucederam, orientando, de maneira hierrquica, os catlicos romanos, como ficaram conhecidos os que seguiam a doutrina crist vinda de Roma.
  Os ortodoxos originaramse dos cristos do Imprio Romano do Oriente, onde era grande o poder dos patriarcas, chefes religiosos locais, que em vrias ocasies discordaram 
das propostas dos papas romanos. Eles seguem o estabelecido nos conclios (1) veja a pgina 588 realizados at o ano de 787, que recomenda manter a tradio crist 
da poca das primeiras missas, que devem, por exemplo, ser rezadas em grego, apesar de o latim ter sido adotado como lngua oficial do Imprio Romano no sculo II. 
Por manterem essa tradio, so chamados de ortodoxos.
  A diviso entre os catlicos e os ortodoxos ocorreu no sculo XI, quando o patriarca ortodoxo Miguel Cerulrio ordenou que fossem fechadas as igrejas catlicas 
em Constantinopla. Como reao a essa medida, o papa Leo IX enviou representantes catlicos a Constantinopla, comandados pelo bispo Humberto da Silva Cndida. Apesar 
de bemrecebidos pelos ortodoxos, eles foram privados da comunho. Como resultado, em 1054, no episdio conhecido como o Cisma do Oriente, a Igreja Catlica Romana 
separouse definitivamente da Igreja Crist Ortodoxa.
  O catolicismo valoriza a autoridade do papa como chefe da Igreja e aceitou uma srie de reformas, como a substituio do latim pela lngua utilizada pelos seus 
seguidores em cada pas. J os ortodoxos celebram suas cerimnias na lngua original (o grego). A comunho, que no catolicismo pode ser realizada a cada missa, entre 
os ortodoxos s ocorre quatro vezes ao ano. Os ortodoxos permitem o casamento entre os padres do baixo clero, sendo o celibato reservado aos patriarcas e bispos. 
Entre os catlicos, porm, todos os padres devem ser celibatrios.
 fim do quadro

  A diviso dos cristos entre catlicos e ortodoxos separou os povos eslavos dos Blcs. Nas reas que hoje correspondem  Crocia e  Eslovnia (reveja a figura 
2), grande parte da populao  catlica e segue o alfabeto que conhecemos (latino). Os srvios, que foram convertidos  Igreja Ortodoxa no
199
sculo IX, usam o alfabeto cilrico (2). Srvios e croatas partilham o mesmo idioma, o servocroata, mas cada um usa um alfabeto!
  A partir do sculo XIV, cada palmo da regio passou a ser disputado pela Hungria (mais tarde, pelo Imprio AustroHngaro) e pelo Imprio TurcoOtomano. Os povos 
que viviam nas reas setentrionais, que correspondem atualmente  Crocia e  Eslovnia, permaneceram longo tempo sob o domnio austrohngaro e formaram slidos 
vnculos com os povos catlicos do Ocidente europeu. J os que ocupavam a rea que hoje corresponde  BsniaHerzegovina, ocupada durante longo perodo pelo Imprio 
TurcoOtomano, foram em grande parte convertidos  religio muulmana. Os srvios, entretanto, conseguiram manter seu prprio reino at perto do final do sculo XIV. 
Quanto a Montenegro, fazia parte do Reino Srvio.
  Em 1389, os srvios entraram em guerra contra os otomanos, que os derrotaram e anexaram o Reino da Srvia. Essa guerra ficou conhecida por Batalha de Kosovo. As 
repblicas da Srvia e de Montenegro conseguiram libertarse da dominao otomana apenas em 1878, mas Kosovo, considerada pelos nacionalistas srvios o "bero" de 
seu reino, continuou sob domnio dos turcos. Em  1912, aliadas  Grcia e  Bulgria, as duas repblicas se lanaram mais uma vez contra o Imprio TurcoOtomano. 
Foi quando, finalmente, a Srvia retomou Kosovo, nessa poca j ocupada por muitos albaneses muulmanos.
  Mas as tenses ainda no haviam acabado. Em 28 de junho de 1914, um nacionalista srvio assassinou o arquiduque Francisco Ferdinando em Sarajevo (na atual Bsnia), 
regio controlada na poca pelo Imprio AustroHngaro. Imediatamente, a ustria declarou guerra  Srvia.
  Estava aceso o pavio de discrdia que levaria  Primeira Guerra Mundial (19141918). De um lado, os pases da Trplice Aliana, formada em 1882 pelos imprios Alemo 
e AustroHngaro e pela Itlia, que pretendiam anexar novos territrios na Europa e fora dela. De outro, a Trplice Entente, formada por Frana,  Reino Unido (grandes 
potncias coloniais) e Rssia, esta ltima tradicional aliada da Srvia, com a qual compartilhava a religio crist ortodoxa e a origem eslava (fig. 3).

Figura 3. 

mapa mostrando as alianas na Primeira Guerra Mundial (1914):
 o Trplice Entente  Reino Unido, Frana e Rssia
 o Estados sob proteo da Rssia  Srvia e Montenegro
 o Pases que aderiram  Entente durante a guerra  Portugal, Romnia, Grcia, Blgica e Lux
 o Fronteiras particularmente sensveis  entre a Srvia e Imprio AustroHngaro e Itlia
 o Pases que aderiram  Aliana durante a guerra  Bulgria e Imprio TurcoOtomano
 o Pases neutro no conflito  Noruega, Sucia, Dinamarca, Pases Baixos, Sua, Espanha e Albnia
   Legenda: aps se tornar independente do Imprio TurcoOtomano, em fins do sculo XIX, os nacionalistas srvios elaboraram planos de expandir seus domnios e construir 
a "Grande Srvia", incorporando as regies que hoje correspondem  Bsnia,  Crocia e  Eslovnia, ento dominadas pelo Imprio AustroHngaro.  por isso que, quando 
a Primeira Guerra Mundial comeou, a fronteira entre a Srvia e o Imprio AustroHngaro era considerada pelos estrategistas como particularmente sensvel.

200
  Com a derrota da Trplice Aliana, o Imprio AustroHngaro foi inteiramente fragmentado. Os tratados assinados no psguerra tambm fizeram desaparecer o Imprio 
TurcoOtomano. Mais uma vez o mapa poltico dos Blcs foi redesenhado.
  Em 1918, surgiu o Reino dos Srvios, Croatas e Eslovnios, compreendendo tambm Montenegro e a BsniaHerzegovina (fig. 4). Alexandre I, que j reinava na Srvia, 
foi coroado rei do novo pas. Por causa disso, croatas, muulmanos bsnios e albaneses, que em muitas regies eram a maioria da populao, manifestaram sinais de 
revolta contra a dominao srvia. Em 1929, para controlar o clima de tenses tnicas que se instalou no recmcriado pas, Alexandre I mudou o nome de seu reino 
para Iugoslvia, que significa "eslavos do sul", e instituiu a nacionalidade iugoslava, que at ento no existia.

Figura 4. 

mapa mostrando o Reino dos Srvios, Croatas e Eslovenos em 1920: Eslovnia (Liubliana), Crocia (Zagreb), BsniaHerzegovina (Sarajevo), Macednia, Montenegro, Reino 
da Srvia (Prstina). A seguir, legenda
  Muitos analistas consideram o Reino dos Srvios, Croatas e Eslovnios a concretizao do ideal da "Grande Srvia", devido  dominao que os srvios exerciam sobre 
o recmcriado pas.

Atividade 1

          A dana das fronteiras

  A partir dos mapas a seguir no transcritos, descreva a situao das fronteiras polticas na Pennsula Balcnica em 1389, 1481, 1566 e 1913.

pea orientao ao professor

201
  No incio da Segunda Guerra Mundial (19391945), a Alemanha conseguiu estabelecer um pacto militar com a Iugoslvia. Mas houve muita revolta popular contra esse 
pacto, e a Iugoslvia foi invadida pelos alemes e seus aliados. A situao serviu para tornar os conflitos entre os povos iugoslavos ainda mais violentos. Muitos 
croatas e bsnios lutaram ao lado dos alemes contra os srvios. Por toda parte irromperam guerras entre os que resistiam e os que apoiavam as foras de ocupao. 
Alm disso, faces comunistas de diversas origens tnicas brigavam contra os partidrios da monarquia, que defendiam a manuteno da supremacia srvia sobre toda 
a regio. Entre 1941 e 1945, mais de 1 milho de iugoslavos foram vitimados por essas rivalidades.
  No meio desse turbilho, surgiu a liderana de Josip Bros Tito (fig. 6), que comandava o Conselho Antifascista de Libertao Nacional, de orientao comunista. 
Esse grupo predominou sobre os demais e, em 1944, expulsou os alemes. No ano seguinte, com a derrota dos alemes e o fim da Segunda Guerra Mundial, nasceu a Repblica 
Socialista da Iugoslvia, reunindo as repblicas da BsniaHerzegovina, da Crocia, da Eslovnia, da Macednia, de Montenegro e da Srvia, sob o comando de Tito e 
seus partidrios. Era a segunda fundao da Iugoslvia (fig. 7).

Figura 6. 

foto mostrando o marechal Josip Bros Tito (18921980), lder da resistncia iugoslava contra a ocupao nazista durante a Segunda Guerra Mundial, governou o pas 
de 1945 at 1980.

Figura 7. 

mapa mostrando a Repblica Socialista da Iugoslvia: Eslovnia (Liubliana), Crocia (Zagreb), BsniaHerzegovina (Sarajevo), Macednia (Skopje), Srvia (Belgrado), 
Voivodina, Montenegro, Kosovo. A seguir, legenda
  A Federao Iugoslava, nascida em 1945, era composta por seis repblicas e duas regies autnomas.

Os anos de Tito: a segunda 
  Iugoslvia

  Josip Bros Tito nasceu na Crocia, filho de pai croata e me eslovena. Durante a Primeira Guerra Mundial, lutou no exrcito do Imprio AustroHngaro e foi feito 
prisioneiro dos russos. Nesse perodo, tomou contato com as idias comunistas.
203
  Ao voltar ao ento Reino dos Srvios, Croatas e Eslovnios, atuou pela causa comunista, o que lhe valeu a priso e uma condenao a cinco anos de trabalhos forados. 
Cumprida a pena, Tito retornou  Unio Sovitica, onde foi nomeado responsvel pelo Partido Comunista da Iugoslvia.
  Durante a Segunda Guerra, a resistncia iugoslava se dividiu entre os comunistas, liderados por Tito, e os tcheniks, de maioria srvia e adeptos da monarquia. 
Com a vitria de Tito e seus partidrios, a Iugoslvia se tornou um pas socialista, no qual s havia um partido poltico, o Partido Comunista. Numa atitude de independncia 
poltica, Tito implantou em seu pas um sistema de autogesto, inspirado no modelo proposto pelos anarquistas (3) e, portanto, muito distante do modelo sovitico. 
Nesse sistema, os trabalhadores envolvidos na produo podiam determinar os rumos do seu trabalho, discutindo os ganhos e as estratgias das empresas em que atuavam.
  Alm de permitir autonomia aos trabalhadores, Tito conduziu a Iugoslvia a uma posio de destaque no cenrio internacional. Junto com Nehru (18891964), primeiroministro 
da ndia, e Nasser (19181970), presidente do Egito, liderou o movimento dos pases noalinhados, que buscavam uma terceira via, isto , um modo de vida prprio, 
que no fosse inspirado no modelo dos Estados Unidos ou no da Unio Sovitica.
  Mas a Iugoslvia continuava sendo um pas com grande diversidade tnica e cultural, e as velhas rivalidades poderiam voltar a qualquer momento. Afinal, existiam 
no pas cinco povos majoritrios (albaneses, croatas, eslovenos, muulmanos e srvios), falando quatro lnguas diferentes (albans, esloveno, macednio e servocroata) 
e empregando dois alfabetos (latino e cilrico). Para complicar ainda mais a situao, eles estavam divididos entre trs grandes religies: os cristos catlicos, 
os cristos ortodoxos e os muulmanos.
  Para evitar que os conflitos tnicos abalassem a instabilidade poltica do pas, Tito implementou um sofisticado esquema de engenharia poltica: as repblicas 
passaram a ter maior autonomia e a presidncia da Iugoslvia era ocupada, alternadamente, por um dos presidentes de suas repblicas e das regies autnomas, impedindo 
que uma delas se sentisse mais poderosa do que as demais. Alm disso, as rebelies separatistas eram punidas com rigor pelo Partido Comunista e pelo seu dirigente 
maior, o prprio Tito, que era quem, de fato, comandava o pas. Com sua morte, ocorrida em 1980, todo esse sistema comeou a ruir.
  A partir do incio da dcada de 1990, uma srie de transformaes levaram  imploso do pas, precedida por violentas guerras entre seus diversos povos. Chegava 
ao fim a era do partido nico e da estabilidade.

Atividade 2

          O Socialismo Iugoslavo

  Releia o captulo 1 e procure explicar por que a Iugoslvia, apesar de ter sido governada por um partido comunista durante os anos da Guerra Fria, jamais aderiu 
ao Pacto de Varsvia e foi um dos pases lderes do movimento dos noalinhados.

204

A desagregao da Iugoslvia

  Aps a morte de Tito, as mudanas nos regimes comunistas dos pases do leste da Europa e o fim da Guerra Fria fizeram renascer o sentimento nacionalista nas repblicas 
iugoslavas. A separao das repblicas da Estnia, da Letnia e da Litunia da ento Unio Sovitica, em 1991, mostraramlhes que tambm suas independncias eram 
possveis. Os anos de convivncia e de tolerncia s diferenas foram esquecidos. Retomaramse as velhas lutas nacionais.
  Vizinhos, cujos filhos freqentavam a mesma escola, mas que professavam religies diferentes, passaram a se encarar como inimigos e se tornaram alvos de dios 
e agresses mtuas. Os povos iugoslavos passaram a valorizar suas origens srvias, albanesas, bsnias, croatas etc., retomando um nacionalismo que se misturava com 
diferenas religiosas. Os nacionalistas srvios sonham com a construo de uma Grande Srvia, na qual eles dominaro todos os outros povos da regio. O fato de existirem 
minorias srvias importantes em vrias repblicas da exIugoslvia, como mostra a figura 8, alimenta esse desejo expansionista.

Figura 8. 

mapa mostrando grupos nacionais nas repblicas da antiga Iugoslvia: albaneses, croatas, eslovenos, hngaros, macednios, montenegrinos, muulmanos, srvios e outros. 
A seguir, legenda
  Em muitas regies da Bsnia e da Crocia, os srvios constituem a maioria da populao.

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pea orientao ao professor

  Outro fator que contribuiu para a luta pela independncia foi a desigualdade econmica que se verificava no interior da Iugoslvia socialista. As repblicas da 
Crocia e da Eslovnia eram mais ricas e contribuam
205
com mais impostos do que as demais. Alm disso, elas haviam pertencido durante sculos ao Imprio AustroHngaro, suas populaes eram majoritariamente catlicas 
e se sentiam mais prximas do Ocidente europeu do que dos ortodoxos srvios ou dos muulmanos bsnios. Foram elas as primeiras a declarar sua independncia, reconhecida 
pela comunidade internacional em 1992.
  No caso da Crocia, porm, a minoria srvia que l vivia, ao perceber a movimentao dos croatas pela autonomia, antecipouse e fundou a Repblica Srvia da Krajina, 
em maro de 1991. Quando a Repblica da Crocia declarou sua independncia, foi invadida pela Srvia, que acabou anexando 30% de seu territrio. Tambm em 1991, 
a Macednia proclamou a sua independncia.
  A BsniaHerzegovina, que declarou sua independncia em 1992, foi o cenrio da mais violenta das guerras de secesso da Iugoslvia. Os srvios que l viviam no 
aceitaram a autonomia poltica da Bsnia, dando incio a um dos conflitos mais sangrentos das ltimas dcadas do sculo XX. Eles contaram com o apoio do que restava 
da antiga Iugoslvia: apenas as repblicas de Montenegro e da Srvia, esta ltima contando com duas regies autonmas (Voivodina e Kosovo). A Crocia, por sua vez, 
reagindo contra o expansionismo srvio, enviou tropas para lutar pela independncia da Bsnia.
  A Bsnia virou palco de atrocidades praticadas pelos dois lados. Cidades inteiras foram destrudas (fig. 9). Os srvios cristos procuravam exterminar os muulmanos, 
dirigindose no apenas contra os militares mas tambm contra a populao civil. Mulheres foram violentadas. Crianas muulmanas foram mortas, com o objetivo de erradicar 
de vez o islamismo na regio. Esse tipo de ao  chamado de limpeza tnica e foi empregado pelos nazistas contra os judeus na Segunda Guerra Mundial. Os conflitos 
foram to violentos que levaram ao envolvimento das tropas da Otan (Organizao do Tratado do Atlntico Norte) e da ONU, numa tentativa de intimidar os agressores 
e de estabelecer a paz (fig. 10).

Figura 9. 

foto mostrando parte de uma cidade destruda e trs soldados caminhando. A seguir, legenda
  A guerra na Bsnia destruiu quarteires inteiros de Sarajevo,  sua capital.

206
Figura 10. 

foto mostrando tropas britnicas da Otan na Bsnia, em 20 de dezembro de 1995. A guerra j havia deixado de ser apenas um problema da Iugoslvia

  Em novembro de 1995, depois de mais de trs anos de guerras que fizeram cerca de 200 mil mortos e produziram 2 milhes de refugiados, os presidentes da Iugoslvia 
(Slobodan Milosevic), da Bsnia (Alija Izetbegovic) e da Crocia (Kresimir Zubak) negociaram um acordo de paz em Dayton, nos Estados Unidos.
  Pelo acordo, assinado em dezembro de 1995 em Paris, a Bsnia foi reconhecida como pas soberano, mas passou a abrigar duas federaes: a Federao MuulmanoCroata 
e a Repblica BsniaSrvia (fig. 11). Uma fora de paz, comandada pelos Estados Unidos atravs da Otan, garantiria a transio para o final da luta nos Blcs; do 
ponto de vista poltico, ficou acertado que as lideranas que ordenaram os crimes de guerra, como os de limpeza tnica praticados na Bsnia, teriam os direitos polticos 
cassados em seus pases. Muitos analistas acreditam que o acordo apenas pavimentou o caminho de novas guerras, pois a nova Bsnia j nasceu dividida.

Figura 11. 

          A Bsnia dividida

foto mostrando a Federao MuulmanoCroata e a Repblica BsniaSrvia. A seguir, legenda
  O mapa atual da Bsnia foi traado depois de anos de guerra e de acaloradas discusses envolvendo os muulmanos, os croatas e os srvios que vivem no pas.

207

Economia e poltica dos novos pases

  As antigas repblicas iugoslavas, transformadas em Estados soberanos, percorrem atualmente trajetrias muito distintas do ponto de vista econmico e poltico.
  A Eslovnia almeja ingressar na Unio Europia (UE), com a qual mantm importantes relaes comerciais. Porm, para atingir as exigncias da UE ter de se submeter 
a um difcil ajuste financeiro e modernizar seu parque industrial. Tal como as outras antigas repblicas da Iugoslvia, o pas rompeu com o sistema autogestionrio 
herdado dos anos de Tito e passou por um processo de privatizao das empresas, muitas delas vendidas ao capital internacional. A relativa homogeneidade tnica do 
pas (os eslovenos representam mais de 90,5% de sua populao) ajuda a atrair investidores, pois afasta o perigo de novas guerras.
  A Crocia enfrenta uma acirrada luta interna pelo poder, apesar de contar com uma expressiva maioria croata (78% da populao) e catlica. Os comunistas conseguiram 
manter seu partido organizado e disputam os cargos mais importantes do pas. A Crocia no tem conseguido modernizarse segundo o modelo sugerido pelos investidores 
internacionais e suas empresas no tm obtido o mesmo sucesso alcanado pelas da Eslovnia. Entre os principais parceiros comerciais europeus destacamse a Itlia, 
a Alemanha e a Sucia, alm da prpria Eslovnia.
  Do ponto de vista tnico e religioso, a BsniaHerzegovina  o pas mais complexo dos Blcs. Alm disso, foi o pas mais afetado pela guerra e teve parte de suas 
indstrias e campos de cultivo destrudas pelos combatentes. A necessria reorganizao econmica, segundo estudiosos, s pode ser realizada a partir da cooperao 
entre as duas federaes que dividem a Bsnia.
  A Macednia, que abrange territrios que j pertenceram tanto  Iugoslvia quanto  Grcia,  Bulgria e  Albnia, constitui um mosaico de culturas e povos, apesar 
do predomnio de macednios ortodoxos, que se dizem descendentes dos bizantinos (fig. 12). Embora a Bulgria tenha apoiado a Macednia quando esta se declarou independente 
em 1991, alguns grupos polticos blgaros acreditam que seu pas deve lutar para reconquistar antigos territrios que hoje integram a Macednia. A Grcia por sua 
vez, se ops ao uso do nome Macednia para o novo pas soberano, porque possui, vizinho a ele, uma provncia com a mesma denominao e temia ali um movimento separatista. 
A Macednia grega representa parte importante do glorioso passado do pas, pois foi nela que Alexandre, o Grande venceu o Imprio Persa no sculo IV, ampliando os 
domnios da civilizao helnica.

Figura 12.

foto mostrando o antigo monastrio cristo ortodoxo na Macednia

208
  Apesar do voto contrrio da Grcia, a Macednia teve sua independncia reconhecida pela UE em 1993. Assim como a Crocia e a Eslovnia, o pas deseja se integrar 
 UE.
  A Iugoslvia (fig. 13)  o mais importante plo econmico e industrial da Pennsula Balcnica, apesar de depender da Rssia no abastecimento de petrleo. Entretanto, 
continua sendo cenrio de velhos e novos conflitos tnicos e culturais. Entre eles destacase a elevada concentrao de hngaros na regio de Voivodina e de albaneses 
na regio de Kosovo, cuja resistncia  dominao srvia resultou em uma grave crise no final do sculo XX.

Figura 13. 

mapa mostrando a "Nova" Iugoslvia e suas Repblicas. A seguir, legenda
  A Iugoslvia atual  apenas uma frao da antiga Federao Iugoslava, comandada por Tito.

Um novo foco de conflitos

  Podese admitir que a crise que envolveu kosovares e srvios teve incio em 1989, durante as comemoraes dos 600 anos da Batalha de Kosovo. Nessa ocasio, 
 Slobodan Milosevic, presidente da Repblica da Srvia, acabou com a autonomia poltica de Kosovo e proibiu o ensino de albans nas escolas. Cerca de um ano depois, 
o governo iugoslavo fechou as instituies polticas de Kosovo, criando ainda mais tenso entre os srvios e a comunidade de albaneses muulmanos, maioria absoluta 
da populao da regio. A resposta veio em 1991: em congresso realizado clandestinamente, os kosovares proclamaram a Repblica de Kosovo.
  Apenas a Albnia reconheceu o novo pas, com a perspectiva de unirse a ele e criar a Grande Albnia. Como nem a ONU nem a UE haviam reconhecido a independncia 
de Kosovo, os srvios ficaram  vontade para ocupar militarmente a regio. A reao armada dos kosovares demorou alguns anos mas veio: eles organizaram o Exrcito 
de Libertao de Kosovo (ELK) e, em 1996, deram incio  luta armada contra o domnio srvio.
209
  Um novo conflito explodia nos Blcs. Dessa vez, opondo os kosovares, cuja maioria  de origem albanesa e pertence  religio muulmana, e os srvios ortodoxos, 
ambos alegando razes histricas para dominar a regio. Ainda no incio do conflito, a imprensa internacional noticiou que as tropas srvias, comandadas por 
 Milosevic, estavam promovendo uma limpeza tnica, ou seja, o assassinato em massa de kosovares.
  Esse fato repercutiu muito alm da Pennsula Balcnica. Ainda estava na memria de muitos europeus cenas da guerra na Bsnia, quando os srvios foram acusados 
de recuperar prticas nazistas. Para parte da populao europia, os massacres de civis kosovares pelas tropas srvias eram inadmissveis. Os dirigentes europeus, 
que foram acusados de falta de iniciativa para encerrar o conflito na Bsnia, no queriam ser lembrados pela omisso mais uma vez.
  Os Estados Unidos, por sua vez, adotaram severas sanes econmicas contra a Iugoslvia e defenderam a interveno militar no pas, alegando a necessidade de proteger 
a populao civil de Kosovo contra os ataques srvios. Porm, segundo muitos estudiosos, os Estados Unidos tinham outras razes para participar do conflito: a Srvia 
 uma tradicional aliada da Rssia, e enfraquecla significava diminuir o poder russo na regio. Alm disso, nunca  demais lembrar que uma guerra representa sempre 
uma oportunidade para mostrar ao mundo quem realmente manda.
  No incio de 1998, foi a vez da ONU de se manifestar, proibindo a venda de armas para a Iugoslvia. Entretanto o massacre dos muulmanos continuava em Kosovo, 
cada vez mais violento e fazendo mais vtimas civis. Pressionado pelas tropas srvias, um nmero crescente de kosovares abandonava a regio, dirigindose  Macednia, 
 Albnia e a outros pases da Europa, em busca de refgio.
  Depois de muita negociao, contando com a participao das potncias ocidentais, em fevereiro de 1999 as partes envolvidas no conflito participaram de uma reunio 
em Rambouillet, na Frana, com o objetivo de estabelecer um acordo que permitisse a paz na regio. O encontro fracassou. Os srvios recusaram a presena de tropas 
da Otan no territrio da Iugoslvia durante a transio para a paz, o que poderia garantir o retorno dos refugiados kosovares. Do outro lado, os kosovares defenderam 
a realizao de um plebiscito para que a populao da regio decidisse entre a independncia e a vinculao  Iugoslvia, o que tambm no foi aceito pelos seus 
oponentes.
  Poucos dias aps o encontro na Frana, a Otan divulgou a aprovao de um plano de ao militar nos Blcs, prevendo empregar 26 mil soldados e ataques areos. 
Srvios e kosovares pareceram ignorar o comunicado e mantiveram os combates.
  Em 25 de maro de 1999, msseis da Otan cruzaram os ares da Iugoslvia, atingindo alvos militares. Aps quase cinqenta anos de sua criao, a Otan tomou, pela 
primeira vez, a iniciativa de atacar um pas considerado soberano. Belgrado, a capital da Iugoslvia, foi em grande parte destruda por esse ataque (fig. 14). Segundo 
os dirigentes da
210
Otan, a recusa sistemtica das solues propostas no deixou outra alternativa. Para eles tratavase de garantir os direitos humanos dos albaneses de Kosovo, que 
estavam ameaados pelas aes das tropas da Iugoslvia, e assegurar a segurana europia, ameaada pela guerra.

Figura 14.

foto mostrando parte de uma cidade com alguns prdios em chamas. A seguir, legenda
  Ataque da Otan a Belgrado, capital da Iugoslvia, em abril de 1999.

  Esses argumentos foram muito criticados. Afinal, existem outras reas no planeta em que ocorrem conflitos tnicos, cujos habitantes tambm esto ameaados. Se 
estivesse interessada apenas em defender os direitos humanos das minorias, a Otan deveria tambm atacar a China, devido  represso que ela promove no Tibete, ou 
a Turquia, que reprime os curdos (4). Alm disso, o regimento interno da Otan prev que ela deve atuar apenas em defesa dos pases aliados, mas nesse caso tomou 
a iniciativa do ataque. Alm de desrespeitarem seus estatutos, os dirigentes no consultaram o Conselho de Segurana da ONU, o que deveriam ter feito antes do incio 
dos ataques. Somente aps o incio dos bombardeios a ONU foi chamada para intermediar o conflito.
  O ataque da Otan despertou forte reao da Rssia, tradicional aliada dos srvios. Afinal, como vimos no captulo 2, essa organizao rene pases que at recentemente 
estiveram na rea de influncia da extinta Unio Sovitica: a Repblica Tcheca, a Polnia e a Hungria. Os russos no gostam nada de ver toda a regio sob influncia 
dos norteamericanos, e provavelmente teriam usado seu poder de veto no Conselho de Segurana para impedir o ataque, caso a ONU tivesse sido consultada.
  Durante o ataque,  o exrcito srvio imprimiu um ritmo ainda mais forte  destruio das cidades albanesas em Kosovo, o que aumentou em muito o nmero de refugiados, 
que passou de 900 mil (quase metade da populao da provncia). Muitos civis, tanto albaneses quanto srvios, morreram atingidos pelos msseis da Otan, que caram 
sobre nibus, bairros residenciais, embaixadas e at mesmo sobre refugiados albaneses em fuga (fig. 15).

Figura 15. 

foto mostrando uma multido de refugiados albaneses recebendo alimentos, em 2 de abril de 1999

  O bombardeio da Otan sobre a Iugoslvia durou 78 dias. Somente em 24 de junho de 1999, foi assinado um acordo entre a organizao e o governo iugoslavo, garantindo 
a presena de tropas de paz internacionais na regio de Kosovo, a retirada das milcias srvias e prevendo a volta em segurana dos refugiados albaneses.
211
  Essa guerra trouxe muita dor e destruio, mas, apesar do acordo, certamente no trouxe paz nem garantiu um futuro tranqilo para os povos balcnicos. Enquanto 
persistirem os conflitos tnicos, a intolerncia e os dios mtuos, a regio permanecer um barril de 

plvora, prestes a explodir a qualquer momento.

Atividade 3

          Do outro lado da histria

  O texto abaixo reproduz trechos, traduzidos para o portugus, de uma mensagem veiculada, em ingls, pela rede mundial de computadores durante o ms de abril de 
1999, quando estava em curso o ataque da Otan sobre a Iugoslvia. Sua autora pediu que suas idias fossem divulgadas o mais amplamente possvel. Discuta com seus 
colegas o posicionamento dela acerca do conflito, relacionando os principais argumentos utilizados para defendlo.

  Al! Eu sou estudante da Faculdade de Arquitetura de Belgrado e tive uma estada muito agradvel em Porto Alegre (Brasil) no final de 1997.
  Algumas coisas terrveis esto acontecendo comigo e com meu povo (os srvios), e eu gostaria de contar o meu lado da histria.
  Meu povo est em uma posio muito ruim. De um lado, temos um governo que no se importa com absolutamente nada, a no ser com seus prprios interesses. Ns no 
apoiamos esse governo. Belgrado (a capital) no votou majoritariamente nele [...]. Em uma palavra, esse governo no  nossa escolha. De outro lado, esto os Estados 
Unidos e as foras da Otan, as quais esto determinadas a destruir tudo o que encontram no caminho.
  Voc realmente acredita que eles esto preocupados com direitos humanos? [...]
  Ser que essa agresso a ns  realmente necessria? No existiriam outros caminhos para persuadir nosso presidente a negociar? Ns, civis, devemos sofrer por 
causa dos erros do nosso governo e das formas agressivas com as quais os Estados Unidos realizam seus interesses estratgicos e econmicos?
  Ns apenas queremos viver nossas vidas normalmente: trabalhar, ser feliz, ter famlias e crianas saudveis. Somos um povo que est cansado de todas as coisas 
que esto acontecendo por aqui nos ltimos dez anos. [...]
  Voc pode ajudar apenas pensando a respeito. Lembrese de que isso pode acontecer com qualquer pas pobre. O mundo no pode ser uma selva.

Marija Marjanovic

Passando a limpo

  Podemos afirmar que a Iugoslvia foi fundada trs vezes: aps a primeira Guerra Mundial, aps a Segunda Guerra Mundial e no incio da dcada de 1990. Faa uma 
linha do tempo, reconstruindo essa histria, e indique as principais caractersticas tnicas, culturais e territoriais do pas em cada um desses trs momentos.

Notas de rodap

 (1) Conclio  Assemblia de membros da Igreja crist, nas quais so discutidas e deliberadas as normas que iro reger o comportamento religioso dos padres e dos 
fiis.
 (2) Alfabeto cirlico  Alfabeto criado pelos eslavos no sculo IX e que  atualmente usado pelos russos, blgaros, srvios e outros povos.
 (3) Anarquismo  Teoria poltica fundada na liberdade individual e na oposio a todas as formas de governo.
 (4) Curdos  Povo do Oriente Mdio que luta por sua autonomia poltica. A maior parte da populao de origem curda vive na Turquia, no Ir e no Iraque.

               xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxo

212

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               xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxo

Fim da Obra

 Programa Nacional do Livro 
  Didtico  PNLD 2002
 FNDE/MEC
 Cdigo: 850225

 HINO NACIONAL

 Letra: Joaquim Osrio Duque 
  Estrada 
 Msica: Francisco Manoel da 
  Silva

 Ouviram do Ipiranga as margens 
  plcidas 
 De um povo herico o brado re
  tumbante,
 E o sol da Liberdade, em raios 
  flgidos,
 Brilhou no cu da Ptria nesse 
  instante.

 Se o penhor dessa igualdade 
 Conseguimos conquistar com brao 
  forte,
 Em teu seio,  Liberdade,
 Desafia o nosso peito a prpria 
  morte!

  Ptria amada, 
 Idolatrada,
 Salve! Salve!

 Brasil, um sonho intenso, um 
  raio vvido
 De amor e de esperana  terra 
  desce,
 Se em teu formoso cu, risonho 
  e lmpido,
 A imagem do Cruzeiro resplande
  ce.
 
 Gigante pela prpria natureza, 
 s belo, s forte, impvido co
  losso,
 E o teu futuro espelha essa 
  grandeza.

 Terra adorada,
 Entre outras mil,
 s tu, Brasil, 
  Ptria amada!

 Dos filhos deste solo s me 
  gentil, 
 Ptria amada,
 Brasil! 

 Deitado eternamente em bero 
  esplndido,
 Ao som do mar e  luz do cu 
  profundo,
 Fulguras,  Brasil, floro da 
  Amrica,
 Iluminado ao sol do Novo 
  Mundo!

 Do que a terra mais garrida
 Teus risonhos, lindos campos tm 
  mais flores;
 "Nossos bosques tm mais vida",
 "Nossa vida" no teu seio "mais 
  amores".

  Ptria amada,
 Idolatrada,
 Salve! Salve!

 Brasil, de amor eterno seja sm
  bolo
 O lbaro que ostentas estrelado,
 E diga o verdelouro desta fl
  mula
  Paz no futuro e glria no pas
  sado.
 
 Mas, se ergues da justia a clava 
  forte,
 Vers que um filho teu no foge  
  luta,
 Nem teme, quem te adora, a pr
  pria morte.

 Terra adorada,
 Entre outras mil,
 s tu, Brasil,
  Ptria amada!
 
 Dos filhos deste solo s me 
  gentil, 
 Ptria amada,
 Brasil!
